OPINIÃO
23/02/2016 11:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Fernanda Torres, fale por você

Carlo Allegri via Getty Images
TORONTO - SEPTEMBER 09: Actress Fernanda Torres poses for a portrait at the Toronto International Film Festival September 9, 2005 in Toronto, Canada. (Photo by Carlo Allegri/Getty Images)

Como aqueles que, sobre o tapete da democracia - outrora estendido às custas de muita tortura e repressão -, desfilam pelas ruas brasileiras clamando por uma intervenção militar, Fernanda Torres, na última segunda-feira (22), usou de um espaço conquistado por mulheres em um grande jornal para rebaixar a condição feminina.

A coluna que recebeu a publicação da atriz se chama #AgoraÉQueSãoElas, reside no jornal Folha de S.Paulo e faz menção à campanha de mesmo nome que fez com que diversas mulheres ocupassem o espaço de homens nos meios de comunicação.

A contradição é clara nos dois casos: os saudosistas da ditadura só conseguem expressar o sentimento quando apoiados em um regime que pretende-se democrático; assim como Fernanda Torres, mulher como eu, só teve grande repercussão de seus ideais anti-feministas porque outras mulheres lutaram e continuam lutando para serem ouvidas.

Devo confessar que ver uma artista consagrada destilando machismo e racismo em palavras bonitas, bem escritas, me fez parar por ao menos um segundo e me perguntar se não sou eu que estou louca. Sei lá. Será que eu não estou exagerando? Será que nós, mulheres, não estamos exagerando? Mas nem mesmo as palavras mais robustas são capazes de sustentar as estruturas sociais que há muito sucumbem por terem sido construídas sobre a delicadeza de nossos dogmas.

Eu não sou bióloga e não gostaria de tocar em um assunto que não domino, mas, como Fernanda foi a primeira a fazê-lo, e o fez de forma precária, é importante lembrar, assim como foi feito no texto Refém - uma resposta à Fernanda Torres, que no decorrer da história a mesma ciência foi usada para legitimar a escravidão e uma suposta supremacia branca.

O médico americano Samuel George Morton, no século XIX, conquistou a elite intelectual européia ao fazer experimentos comparativos com crânios de pessoas brancas e negras, chegando à conclusão de que a estrutura caucasiana era mais complexa e avançada. Essa ideia, mesmo que hoje inegavelmente equivocada, perdurou por 150 anos sobre a legitimidade de uma base científica.

Ainda que pudéssemos comprovar de uma forma concreta que o machismo tem forte origem biológica, mais do que cultural, eu trago algumas questões:

1. Podemos mesmo dizer que a cultura e a biologia são coisas que não se misturam?

E a mais importante, certamente:

2. Neste caso, se pudéssemos naturalizar e atribuir à biologia todo o peso da dominação masculina, isso significa que deveríamos aceitá-la? Digo: sempre me foi dito que nos diferenciamos dos animais pela atividade do pensamento e, se estamos aqui, dialogando sobre isso, algo me diz que podemos superar a natureza quando esta não nos couber.

E, bom, se há algo que não me cabe mais é a ideia de que os homens são companheiros e as mulheres são rivais; de que a mulher negra deve levar como elogio a sua hiperssexualização ou criar os filhos de outrém; de que mulheres sejam violentadas física e mentalmente porque alguém acredita que isso é "natural" ou positivo. Se alguma dessas coisas lhe couber, Fernanda Torres, eu só posso pedir, gentilmente, que fale por você.

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