OPINIÃO
14/09/2015 14:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Como manter-se humano em uma cidade desumana?

E em um ambiente que nos desumaniza diariamente, como vamos exigir humanidade uns dos outros? A Liberdade é sempre a próxima estação em uma cidade cujo nosso suor e nossas lágrimas são o óleo das engrenagens que a mantém funcionando.

*Foto tirada no dia 11 de setembro, às 18:30, na estação Trianon masp, São Paulo

São 18h15 de uma sexta-feira chuvosa e eu estou saindo do trabalho. Ando por cinco minutos até o metrô mais próximo, Trianon masp, linha verde. Hoje eu tenho terapia às 19h. Normalmente faço às terças, mas nesta semana precisei remarcar pra sexta. Tanta coisa aconteceu nos últimos dias que eu não paro de pensar em como eu quero sentar naquele sofá marrom e desaba(fa)r. É o que eu preciso hoje.

Me espanto com o tamanho da fila para passar a catraca. "É horário de pico e ainda por cima está chovendo", justifico para mim mesma. "Mas tá mais lento que o normal", devolvo depois de alguns minutos de espera. A voz de um desconhecido preenche o lugar e todos entendem o que está acontecendo: devido a um problema técnico na estação Vila Prudente os trens estão circulando em velocidade reduzida.

Quando eu finalmente passo a catraca, desço as escadas rolantes e me deparo com uma fila na porta do trem quase tão grande quanto aquela da qual eu acabara de sair. Na minha frente, a tela do celular de um homem exibe várias palavras e uma delas me salta aos olhos: "meditação". Ele estava lendo sobre a prática. Atraída pela situação peculiar, eu, sem nenhuma discrição, me coloco nas pontas dos pés para espiar sobre seus ombros: "vivemos na tagarelice, precisamos buscar o silêncio em nossas mentes", diz uma parte do texto. Que irônico.

De repente mais um trem para. Nós, do lado de fora, nos colocamos imediatamente em posição de guerra. No metrô de São Paulo é matar ou morrer - o que pode ser, sim, intensificado quando há problema técnico, mas é também uma realidade de todos os dias. Uma mulher vem de dentro do trem em nossa direção e encontra dificuldades em driblar as pessoas que querem entrar e não estão dispostas a abrir espaço para que ela saía. Não é que haja vontade de impedir sua saída, mas há uma vontade de entrar que sobressai qualquer outra circunstância, nos tornando animais. Ela, uma soldada-sozinha remando contra um exército de pessoas cansadas que querem chegar em casa, olha nos olhos de cada um que se coloca à sua frente e diz, com tom de aviso: "eu tô saindo". Ninguém a escuta e ela dá um empurrão que transforma toda aquela gente em uma onda que segue até chegar em mim, no final da fila. Doeu. "Que grosseiro!", todos pensam em sintonia.

Dentro do trem vejo o espaço que deveria ser ocupado por uma pessoa sendo tomado por ao menos cinco. Tem gente preta ficando roxa, gente branca ficando vermelha; é quase uma mutação genética, porque ali somos mesmo menos que humanos. E em um ambiente que nos desumaniza diariamente, como vamos exigir humanidade uns dos outros? A Liberdade é sempre a próxima estação em uma cidade cujo nosso suor e nossas lágrimas são o óleo das engrenagens que a mantém funcionando. Hoje, sem sofá marrom pra mim - eu perdi o horário e me perdi inteira.

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