OPINIÃO
04/02/2014 15:10 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Ser pai ou mãe é saber sair de cena

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PARIS, FRANCE - OCTOBER 24. French pedo psychiatrist Francoise Dolto during portrait session held on october 24, 1988. (Photo by Ulf Andersen / Getty Images)

No momento em que escrevo, minha filha mais nova, para variar, faz manha para comer. Minha reação normal seria "ajudá-la" a terminar de limpar o prato dando a comida na boca, não sem algumas broncas e alguma irritação. Não, ela não tem 6 meses de idade, quando nem assim minha atitude seria a mais conveniente. Ela tem 5 anos. Detalhe não desprezível: é a caçula de três meninas, sendo que as duas mais velhas têm 10 e 12 anos: a maior já se aproxima, celeremente, da adolescência, e a do meio começa a se acercar da puberdade. Antes do nascimento da mais nova, perdi um filho às 34 semanas de gravidez. Um bebê.

Talvez você se pergunte o que tudo isso tem a ver com a comida que teima em esfriar no prato. Tem. E tem mais ainda com um livro azul que estampa na capa a foto em preto-e-branco de uma simpática senhora e que carrego esses dias na bolsa. A senhora em questão é a psicanalista francesa Françoise Dolto (1908-1979), e o livro atende pelo título "As Etapas Decisivas da Infância", primeiro de uma série de volumes da mesma autora lançada pela editora Martins Fontes. O livro não é novo, a primeira edição é de 1999, e a reimpressão que passeia comigo, de 2011. Mas, ainda assim, melhor que a maioria dos livros lançados depois sobre o tema.

Dolto é uma das pioneiras da psicanálise aplicada às crianças e teve, nos distantes anos 40, um programa de rádio em que respondia às dúvidas dos pais e mães. Herdou talvez daí o tom direto e informal e o jeito de traduzir conceitos psicanalíticos complexos para uma linguagem compreensível. O sotaque é francês, o jeito de ir direto ao ponto sem fazer média com o interlocutor idem. Desde que me debrucei sobre o volume de 270 e poucas páginas, já mudei algumas atitudes em relação a minhas filhas e, prevejo, mudarei outras tantas.

Comecei por me proibir de dar comida na boca da mais nova e a deixar que ela e as irmãs façam o próprio prato. Terão de comer tudo de que se servirem e poderão repetir se o apetite pedir. Sem brigas. Por mais que a tentação seja grande, não mais a tratarei como a caçulinha, aquela que precisa ser mantida bebê para que a mamãe não sinta tanto que já não é jovem e que não terá novos filhos. Babi não nasceu para ser minha ou me fazer feliz. Ela nasceu para crescer e se desligar de mim, assim como Carol e Duda. Até ontem, literalmente, eu ainda dava banho nela, quando é totalmente capaz de se lavar sozinha. Mas Babi não é bebê, Françoise diria. E sua mãe não deve mantê-la assim. O capítulo "Não faça do mais novo o caçulinha" foi publicado na seção Mãe e Filho do semanário Femmes Françaises, em 27 de abril de 1946, um pouco depois que minha mãe nasceu, mas parece ter sido escrito para mim hoje. O mundo mudou, mas as motivações inconscientes dos pais e mães continuam bem parecidas, assim como as etapas do desenvolvimento da criança.

Como filha mais velha de três, e igualmente mãe de um trio, tracei como objetivo ser sempre justa e tratar minhas filhas da mesma forma. Claro que isso não acontece, mas, no discurso, mantenho o lema igualdade e fraternidade (liberdade, bem menos). Pois, com Dolto, percebi que deveria inverter os pesos: mais liberdade e autonomia, menos igualdade. Isso se quiser mesmo ajudá-las a construir uma fraternidade saudável. "O pai, assim como o educador, deve, então, claramente e não 'discretamente', proclamar seu direito à injustiça: 'Sou injusto e sempre serei'. Se essa proclamação for feita, mesmo que, claro, o adulto tente, quanto a ele, não ser injusto, a maior parte das reivindicações cairão por si sós, uma vez que fracassarão em abalar a segurança do adulto que sabe que age da melhor forma que 'pode', pelo menos conscientemente."

Minha filha mais velha muitas vezes é agressiva, o que faz com que eu me pergunte o que ando fazendo de errado. Talvez não esteja errando tanto, afinal. Segundo Dolto, "quanto mais se pode mostrar hostilidade mesclada ou alternada com afeição aos pais, melhor é a saúde moral de uma criança. Isso significa que a relação do filho com os pais se libertou dos laços incestuosos e de total dependência. E é assim que a criança começa a ter sua individualidade". Pode ser, Françoise, mas Carol não é mais uma criança. E eu também não estou ficando mais jovem. A senhora tem razão. A liberdade é azul. Da capa do seu livro você me sorri.