OPINIÃO
26/02/2014 17:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Mães, segurem seus filhos

A expressão "segurem suas filhas" volta à baila na base da brincadeira, mas considero a frase reveladora de um mundo que ainda está longe do equilíbrio entre sexos.

Na época da Jovem Guarda, as manchetes dos jornais alertavam: "Mães, segurem suas filhas, aí vem o rock'n'roll!". A expressão "segurem suas filhas" volta à baila quase sempre que alguém se descobre grávida ou grávido de um menino. Sim, é na base da brincadeira, mas considero a frase reveladora de um mundo que ainda está longe do equilíbrio entre sexos, ops, gêneros, como se prefere na atualidade.

Tenho duas filhas às vésperas da adolescência e que, claro, estão na internet. Não têm perfis nas redes sociais nem celular ainda, mas mantêm blogs, têm e-mail e navegam algumas boas horas por dia. Ainda não ficaram nem namoram, mas, sabemos, é questão de tempo.

Sim, minhas filhas sabem que não devem conversar com estranhos, não devem dar detalhes sobre seu dia-a-dia nem se deixar filmar ou fotografar. Embora não entendam por que alguém vai querer tirar a roupa em frente de uma webcam, sabem que não devem fazer isso. Desde Grimm, Chapeuzinho Vermelho serve de alerta, mas precisamos entrar em detalhes mais específicos.

O que mais me assusta é que avançamos anos-luz em termos tecnológicos em relação à época em que eu e o pai nos tornávamos adolescentes, nos já distantes anos 80, mas muito pouco em termos comportamentais. Mais do que nunca o discurso do "segurem suas filhas" parece válido. Não acredito que minhas meninas façam sexting, troca de mensagens sexuais. Não ainda. Em algum momento, acho que farão. Trocar mensagens e fotos pela internet, no computador, tablet ou celular hoje faz parte da descoberta da sexualidade, assim como amassos no cinema fizeram parte da nossa.

O Snapchat, rede de troca de mensagens que promete segurança na troca de fotos e vídeos (elas desaparecem poucos segundos após a visualização e o usuário é avisado se a foto é copiada), faz sucesso principalmente com os mais jovens, assim como o WhatsApp, que acaba de ser comprado por US$ 19 bilhões pelo Facebook. Já coroa, com 10 anos, a rede de Zuckerberg foi invadida pelos pais. E, como sabemos, adolescentes não gostam de estar sob constante vigilância. Embora a gente ache que dar um celular com GPS garanta alguma coisa, eles darão um jeito de escapar.

Quando converso sobre o tema, a maioria dos pais parece concordar que as meninas devem se proteger. Não mandar fotos em hipótese alguma, não enviar mensagens comprometedoras etc. Em resumo, os pais tendem a concordar que é preciso segurar as filhas. Por outro lado, vejo pouca gente defender que os meninos é que precisam ser orientados. A respeitar as meninas e a manter em particular o que é uma conversa particular. O que acontece no Snapchat ou WhatsApp deveria ficar no Snapchat ou no WhatsApp. Ou no cinema. Ou na baladinha. Enfim, você entendeu.

Muito mais grave que uma menina compartilhar uma foto é um menino jogá-la na rede e, ainda por cima, com comentários desabonadores. Não tenho filhos e não tive irmãos, mas, caso os tivesse, ficaria decepcionada ao saber que jogaram a foto de uma namoradinha na rede. Porque isso mostraria que eles não respeitam as mulheres, porque isso mostraria que eles precisam expor alguém para se fazerem mais importantes frente à turma, porque isso significaria que eles não medem as consequências de seus atos sobre outra pessoa. E, sabemos, alguns desses casos já resultaram em suicídio. Da menina, obviamente.

Quando eu era criança, minha mãe era praticamente a única da escola a trabalhar. Alguns anos depois, foi a primeira divorciada. Minha sogra começou no jornalismo numa época em que redação não era lugar para mocinhas. Feministas que abriram caminhos nos anos 60 e 70 do século passado. Filha dessa geração, admito que achei que, na segunda década do século 21, entregaríamos um mundo mais avançado a minhas filhas.

Nutro algumas esperanças para as próximas gerações. Nos EUA, por exemplo, a crise econômica afetou setores tradicionalmente masculinos da economia. Resultado: muitas mulheres continuaram trabalhando enquanto os maridos ficaram em casa com as crianças. O benefício disso é, no mínimo, duplo: as crianças entendem que papai não é o único que sai pra trabalhar e que a mãe não precisa ser a que fica, necessariamente, em casa. Adicionalmente, esses pais passaram a ter a oportunidade de conviver mais tempo com os filhos -- e filhas. E a brincar mais com eles.

Esses pais queriam brincar com suas filhas com brinquedos que lembravam a infância deles próprios, como os blocos de montar Lego. Percebendo uma oportunidade, a empresa dinamarquesa lançou a linha Friends, com temas mais femininos, e viu suas vendas subirem. Como negócio, genial. Como retrato da sociedade, um tanto menos. Depois de ver no cinema a animação Uma Aventura Lego, uma ode à importância de pensar fora da caixa e brincar sem freios à imaginação, quis conhecer os kits de blocos mais de perto.

Sempre achei um brinquedo caro demais aqui no Brasil, devido a impostos e aquilo tudo que conhecemos. Minha primeira aquisição foi um kit Lego City -- em tese, mais masculino. Fantástico: as portas da cabine do caminhão abrem, assim como a caçamba, entre outros detalhes sensacionais. O kit foi um presente para o pai brincar com as filhas, e, de fato, passaram horas os quatro, entretidos, montando as pecinhas. Uns dias depois, trouxe também um kit Lego Friends. Bonitinho. Mas chato. Difícil criar uma história interessante a partir das peças cor-de-rosa e bonequinhas. Por que os meninos precisam ficar com a diversão, e as meninas, com a fofice?

Na mesma livraria em que comprei o Lego rosa, encontrei um livro "de meninos", O Guia do Mochileiro das Galáxias, um clássico geek. Minhas filhas torceram o nariz. Mas, usando um recurso já tradicional em casa, propus que elas me deixassem ler em voz alta o primeiro capítulo. Foram fisgadas imediatamente pela inteligência das piadas do britânico Douglas Adams.

"Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de qulômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande ideia."

E por aí vai, nessa mesma toada.

Resultado: a saga completa, com cinco livros, já deve estar no correio em direção a minha casa. E, a partir de agora, nunca nos esqueceremos de levar uma toalha, para onde quer que viajemos (você vai precisar ler, ou procurar no Google, pra entender). As meninas podem tudo. Não segurem suas filhas. Se soubermos educar meninos e meninas, o universo será deles.