OPINIÃO
21/05/2014 09:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Fale mal, mas fale comigo

Passei a vida reclamando da minha mãe. Pras irmãs, pras amigas e amigos, para o primeiro namorado, para o marido. Sim, a culpa é sempre da mãe. O pai tem sua parcela, mas só porque casou com a mulher errada.

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Passei a vida reclamando da minha mãe. Pras irmãs, pras amigas e amigos, para o primeiro namorado (e todos os outros), para o marido. E, depois, pra as várias analistas. Sim, a culpa é sempre da mãe. O pai tem sua parcela, mas só porque casou com a mulher errada. Édipo explica.

A mãe tinha outros interesses além de cuidar de mim. Queria trabalhar, estudar, se divertir, ficar com o pai em vez de brincar comigo. Um dia, sem mais, inventou de se apaixonar por outro. Não achava tudo que eu fazia lindo. Achava que os outros podiam ter razão. E que talvez eu não fosse a criança mais maravilhosa da face da Terra.

Quando eu já era grandinha, depois dos 20, ela resolveu que já era a hora de eu começar a cuidar da vida. E que nada mais justo do que uma pessoa adulta viver do próprio salário. Um absurdo.

Não achou que eu merecia carro, casa e mesada porque tinha entrado numa universidade pública. Achou que era mais que a obrigação, que ter passado já era o prêmio, afinal. Pode?

Não abandonou o trabalho para cuidar das netas 24 horas. Aliás, às vezes reclama se elas ficam por lá mais que alguns dias. Onde já se viu avó se cansar, gente? Pois é, minha mãe cansa. Ela também não quis ajudar a pagar a escola dos netos. É, eu também achei o fim.

E, para piorar, minha mãe nunca me ouviu. Não sabia quem eu era, quais eram minhas angústias e sofrimentos. Se eu começava a contar minha sina, tipo num telefonema, ela logo arrumava uma desculpa pra desligar.

Pois eu tive três filhas, como ela teve. E minha mais velha, do alto de seus 12 - mais velha como eu também fui - me disse: "Você não me escuta, mãe". Como assim? Eu? Passei uns dias sofrendo porque não me percebia fazendo a mesma coisa que tanto sempre critiquei na minha própria mãe. Foi quando me dei conta de uma diferença importante. Ao contrário de mim, minha filha pode me dizer que eu não a escuto. E eu posso escutá-la.

Outro dia ela me contou que as amigas andam isolando-a, coisa que também aconteceu muito comigo. E eu disse: "Fala isso pra elas. Não adianta falar pra mim. Veja como eu sempre estou reclamando da minha mãe e nada muda. Faça diferente".

Não, eu ainda não tive essa conversa com minha mãe. Talvez um dia. Por enquanto, sigo reclamando que ela não me escuta. Mas talvez ela me leia. E me perdoe por eu não ter sido capaz de dizer o que sinto diretamente a ela, como fez minha filha: "Mãe, dá pra me escutar só de vez em quando?"

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