OPINIÃO
07/04/2014 10:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Duas quadras

Não permito redes sociais a elas, achava que celular era desnecessário. Até anteontem. Diante da minha aflição, cheguei à conclusão de que era EU quem precisava que elas tivessem um meio de me avisar que haviam atravessado duas quadras sãs e salvas.

Raphael Buchler via Getty Images

Nos anos 70, antes do 7 anos, as crianças já atravessavam a rua sozinha; hoje tem mãe que leva o filho de 21 à faculdade.

Tenho três filhas, e o intervalo de idade entre as mais duas primeiras e a mais nova é grande: a mais velha tem 12, a do meio, 10, e a pequena, 5. De manhã, a caçula enrola, não quer por o uniforme, quer ver mais um desenho, resolve que é hora de passar manteiga em mais uma fatia de pão. E as grandes, muitas vezes, chegam atrasadas.

Outro dia, como a coisa se complicara mais que o normal, disse que as mais velhas fossem indo na frente. Minha esperança era alcançá-las rapidamente, já que a escola fica a duas quadras de casa, mas a birra da menor me fez chegar bem depois (uns 10 minutos depois).

Cruzei com a faxineira no caminho e perguntei: você viu as meninas? Não, não tinha visto. No caminho, não havia nenhum sinal de atropelamento, assalto, queda de andaime, nenhuma tragédia entre tantas que me passaram pela cabeça. Tudo calmo. Chegando à escola com a caçula a tiracolo, pergunto para a moça da portaria: as meninas passaram aqui? Mas são muitos alunos e ela não tinha visto.

Voltei pra casa preocupada e resolvi ligar na escola, mas a linha caiu. Então, já a caminho para o trabalho, passei no colégio e fiz os funcionários ligarem para checar se as meninas estavam na sala de aula. Depois, as duas me contaram que, ao ouvir seus nomes chamados pelos inspetores, ficaram pensando que tinham feito alguma coisa errada. Mas era só a mãe querendo saber se estavam lá. Que mico!

Não permito redes sociais a elas, me atenho à regra escrita dos canais, que só autorizam perfis depois dos 13, praticamente letra morta, como bem sabemos. Elas ganharam tablet da avó, mas eu achava que celular era desnecessário. Até anteontem. Diante da minha aflição, cheguei à conclusão de que era EU quem precisava que elas tivessem um meio de me avisar que haviam atravessado duas quadras sãs e salvas. Ontem, a primogênita me mandou o primeiro SMS: "Cheguei. Não responde que a aula já começou". Ufa!

Às vezes me pergunto que mundo é esse que construímos em que as crianças não podem circular nem um minuto desacompanhadas e quais efeitos isso terá sobre a autonomia delas quando adultas. Viverão em pânico como eu naquele dia?

O fato de as criarmos num mundo onde o politicamente correto impera não fará delas ainda mais desprotegidas? Mães e pais "editam" os antigos contos de fada para que Chapeuzinho (ou mesmo o Lobo Mau) não sejam mortos ou Barba Azul não degole as esposas curiosas. Tenho várias amigas que fazem isso. É muito pesado, pensam. Pode ser.

Talvez, afinal, não seja assim tão estranho o sucesso que hoje fazem entre os mais jovens distopias como Jogos Vorazes, Divergente ou o mangá Death Note. Ao chegar à adolescência, as ex-crianças deixam o mundo róseo controlado pelos pais e buscam sua antítese, em que a morte é uma ameaça constante e só os fortes sobrevivem. Quem sabe assim consigam atravessar, além de duas quadras, a vida que vem pela frente. Mande mensagem dizendo que chegou bem filha. Mamãe te ama.

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