Opinião

Amar de verdade é deixar ir

Amar é deixar ir. E Ferreira Gullar foi. Missão cumprida, afetos correspondidos e alimentados. Passagem feita. Ciclo concluído. Vida que sempre segue. Morte que sempre chega. Poesia que sempre fica. Ferreira Gullar vai, mas fica. Eterno.

"Se você me ama, não deixa fazerem nada comigo. Me deixe ir em paz. Eu quero ir em paz", disse Ferreira Gullar para a esposa, a também poeta Claudia Ahinsa.

Um dos meus ditados favoritos é "Amar é deixar ir". Esse ditado se aplica a outras situações que não a morte. Na verdade, essa frase é pensada para a morte sentimental, a morte a que todos os relacionamentos estão sujeitos. Mas nesse caso, de uma morte física e carnal, ela também faz muito sentido.

Temos a constante tendência em querer prolongar o que possui prazo de validade. Ficamos empurrando tudo ao máximo, sejam os relacionamentos ou a vida propriamente dita.

Acho que isso está ligado ao imaginário de que o outro é sempre nossa propriedade. O outro não é nosso, nem de ninguém. Só dele mesmo. A vida também. Os amores também. Os sonhos também. Tudo é compartilhado, mas nada nos é pertencido. Pelo menos não como idealizamos muitas vezes.

Claudia Ahinsa parece ter entendido isso. A vida era dele, apenas dele. Assim como as dores e as vontades. Assim como as alegrias e as lembranças.

Amar é deixar ir. E Ferreira Gullar foi. Missão cumprida, afetos correspondidos e alimentados. Passagem feita. Ciclo concluído.

Vida que sempre segue. Morte que sempre chega. Poesia que sempre fica.

Ferreira Gullar vai, mas fica. Eterno.

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