OPINIÃO
04/05/2015 19:35 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Minha luta pela sobrevivência como um jovem sem-teto

O sol mal começou a dar as caras sobre o horizonte, mas a claridade me incomoda. Começo a acordar e fico paralisado. Uma sobrecarga de ansiedade preenche meu corpo. É a realidade. Tomo consciência de que estou embaixo de uma ponte, cercado de concreto frio, sentindo cheiro de asfalto e urina. Eu era sem-teto, esquecido, abandonado e sozinho. Produto do sistema de assistência social do Texas, eu não tinha ninguém

Kristopher Sharp

O sol mal começou a dar as caras sobre o horizonte, mas a claridade do início da manhã me incomoda. Começo a acordar e, por um breve momento, me sinto quase normal - talvez até feliz -, suspenso em um êxtase de ignorância enquanto o sono começa a deixar meu corpo e minha mente acorda e se ajusta a seus arredores.

Quase no mesmo instante, fico paralisado. Não consigo respirar nem me mexer, e uma sobrecarga de ansiedade começa a preencher cada fibra do meu corpo. É a realidade, e repentinamente tomo consciência de que estou embaixo de uma ponte, cercado de concreto frio, sentindo cheiro de asfalto e urina.

Sempre havia momentos assim, momentos em que tinha de que me lembrar onde estava e quem tinha me tornado. Minha cabeça parecia passar por esse processo de rejeição ao entorno - incapaz de aceitar o presente de forma plena --, e eu sempre me via perdido em memórias vívidas do meu passado, como se minha psique tentasse me lembrar de quem eu realmente era. Ato contínuo, eu sentia as pontadas da depressão.

Era sem-teto, esquecido, abandonado e sozinho. Produto do sistema de assistência social do Texas, eu não tinha ninguém.

Minha vida tinha sido reduzida a dois pares de roupas, uma mochila gasta, e as ruas. Durante o dia, pedia trocados a desconhecidos; à noite, me virava para arrumar um lugar para ficar, um banho, uma comida quente ou o que eu conseguisse em troca do meu corpo.

Era a minha realidade.

Os muitos anos que passei sob a guarda do Estado me roubaram quaisquer chances de uma vida normal. Vivi em mais de 20 casas diferentes - às vezes me mudava a cada seis ou oito meses - e nunca fiquei num mesmo lugar tempo suficiente para criar uma rede de apoio, construir uma comunidade ou estabelecer raízes. Às vezes acho que foi melhor assim, pois em quase todas as 20 casas havia abuso.

Quando completei 18 anos, tinha perdido a conta de quantas vezes tinha sido violado e espancado - muitas vezes pelas próprias pessoas que o Estado do Texas estava pagando para "cuidar" de mim.

Nas ruas, descobri rapidamente que não há muitos recursos para os jovens sem-teto de Houston, especialmente se você é gay. Lembro uma vez de ser recusado pela Covenant House - um abrigo de sem-tetos que atende jovens - depois de um funcionário determinar que eu era gay e sugerir equivocadamente que eu "provavelmente tinha Aids" e seria um risco para os outros abrigados.

Então aprendi a me virar com o que tinha. Na maioria das noites, eu vagava pelas ruas de Montrose até que alguém que pegasse. Às vezes eu dava sorte e conseguia dormir na casa do cliente, mas na maioria dos casos eu era forçado a dormir no teto de uma loja na zona norte de Houston - a umas dez quadras do abrigo onde eu morava quando atingi a maioridade e tive do sistema.

Passeis os próximos seis meses nas ruas, fazendo o mesmo dia sim e o outro também, sobrevivendo na economia das ruas - sozinho, envergonhado e cheio de culpa.

Certo dia, em agosto de 2010, estava no centro da cidade procurando um lugar com ar-condicionado e um banheiro quando acabei entrando na Universidade de Houston-Downton.

Aquele dia, minha vida mudou.

Jovens que completam 18 anos no sistema de assistência social do Texas têm o direito de frequentar sem custos qualquer instituição pública de ensino superior no Estado.

Foi naquele dia fatídico de agosto que soube desse direito. Com ajuda da equipe da universidade, me registrei para aulas e pedi ajuda financeira. Passei a maior parte do primeiro semestre sem ter onde morar, com dificuldades para acompanhar o curso. Mas depois acabei recebendo um cheque de 2 000 dólares e, com ele, aluguei meu primeiro apartamento.

Vivo nesse mesmo apartamento hoje. Em maio, vou me formar em Assistência Social na Universidade de Houston-Downtown.

Minha vida valia, ainda vale e sempre valerá alguma coisa.

Eu não era uma causa perdida, um degenerado, um desperdício de espaço. Era um ser um humano, uma pessoa, um jovem que acabou na rua por causa das circunstâncias da vida. Mas, com a oportunidade certa, fui capaz de superar essas circunstâncias e realizar conquistas muito importantes em um curto período.

Defendi maior proteção para jovens sob a guarda do Estado e testemunhei inúmeras vezes diante de comitês no Congresso e na legislatura do Texas. Trabalhei para eleger progressistas para cargos públicos - mais recentemente, trabalhei para a campanha da senadora Wendy Davis para o governo do Estado. Ganhei o prêmio de liderança nacional da Campanha pelos Direitos Humanos e da Força-Tarefa Nacional LGBTQ e tive até mesmo a chance de estagiar com a senadora Patty Murray em Washington. Fui parte da inspiração para o Projeto Antiassédio Tyler Clementi de Educação Superior, de 2014.

Sim, fui sem-teto, mas pela graça de Deus agora sou forte, resiliente e inteligente.

Eu tenho valor - assim como todo outro jovem sem-teto.

Minha vida é prova de que podemos mudar o futuro de milhares de jovens forçados a viver nas ruas. Basta darmos valor a suas vidas, investir em seus futuros e reconhecer que eles têm mais valor que uns trocados e o resto do almoço.

Divido minha história para dizer que existe esperança, existe vida depois das ruas, e nossas vidas importam. Somos o futuro. Invistam em nós, nos valorizem, reconheçam nosso valor e vejam como chegaremos às alturas.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

VEJA TAMBÉM:

Galeria de Fotos Bolsonaro não leu a Declaração Universal de Direitos Humanos Veja Fotos