OPINIÃO
22/10/2014 17:47 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Para as liberianas, há um longo caminho de reconstrução depois da crise do Ebola

As mulheres são especialmente vulneráveis nas comunidades rurais em que não há clínicas de saúde. Isso significa que elas têm de alimentar, dar banho e cuidar das vítimas do Ebola sem ter acesso a equipamentos básicos de segurança, como luvas, óculos e máscaras.

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A maior e mais mortal epidemia de Ebola da história está varrendo a África Ocidental, com mais de 3 400 mortes registradas. A doença está se espalhando numa velocidade jamais vista, e a Organização Mundial de Saúde estima que mais 20 000 casos serão registrados até novembro. As mulheres são as mais atingidas; 75% das vítimas fatais da doença são mulheres.

"As mulheres têm sido atingidas de tantas maneiras. Apesar de a doença infectar também os homens, as mulheres estão em desvantagem - ponto", diz Marpue Speare, diretora executiva da Wongosol, sigla em inglês para Secretariado das ONGs de Mulheres da Libéria. "As mulheres estão na linha de frente. Elas é que cuidam das vítimas."

O Fundo Global para as Mulheres está agindo rapidamente para oferecer apoio a alguns dos nossos parceiros de longa data que atuam em comunidades atingidas pelo Ebola. Por meio desses parceiros, sabemos como as mulheres estão sendo afetadas de forma desproporcional.

"É a pior crise da história da Libéria depois da guerra civil, que durou 14 anos", diz Zaye Fanyean Zarweah, da Give Them Hope, uma das entidades que recebem recursos do Fundo Global para as Mulheres. "Todo mundo vive com medo, sem saber se vai ser a próxima vítima desse vírus mortal. Quem trabalha com saúde descreve as comunidades ou regiões infectadas como as portas do inferno."

As mulheres são especialmente vulneráveis nas comunidades rurais em que não há clínicas de saúde. Isso significa que elas têm de alimentar, dar banho e cuidar das vítimas do Ebola sem ter acesso a equipamentos básicos de segurança, como luvas, óculos e máscaras. As mulheres também participam de rituais funerários que exigem o manuseio de corpos infectados.

Mesmo as mulheres que não contraíram o vírus correm riscos, pois o sistema de saúde do país está no limite. Serviços de saúde para mães são especialmente importantes na esteira da epidemia, pois clínicas e hospitais, que já eram insuficientes, agora têm de lidar com uma carga ainda maior causada pelos pacientes com Ebola. Mulheres grávidas, por exemplo, em muitos casos não têm mais acesso a cuidados médicos básicos.

"A maior parte dos hospitais e clínicas do país está fechada por falta de equipamentos de proteção e remédios", diz Zarweah. Sua ONG trabalha com mulheres de comunidades rurais da região do Alto Nimba, oferecendo serviços para grávidas e mães em uma clínica própria e treinando as mulheres locais para que elas possam se tornar lideranças comunitárias.

"Neste momento, grávidas e bebês estão muito vulneráveis, pois o pessoal da área de saúde não quer tocar nos pacientes, especialmente na área de Nimba, onde atuamos", diz Zarweah. "As grávidas têm de fazer os partos sozinhas, no meio da rua. Centenas de pessoas morreram por causa do vírus e muitas grávidas e crianças morreram por falta de cuidados médicos."

Essas limitações são resultado de inadequações sistêmicas no sistema de saúde da Libéria. "O país ainda está emergindo da guerra civil, apesar de o conflito ter terminado em 2003. Hospitais e clínicas são extremamente limitados", diz Muadi Mukenge, responsável pela África Subsaariana no Fundo Global para as Mulheres. "As mulheres não conseguem chegar aos hospitais, especialmente as que vivem nas áreas rurais. As instalações já são poucas, e normalmente é necessário ir para outro distrito ou outra província [para receber atendimento]. Mais de 80% da população vive abaixo da linha da pobreza, então o dinheiro para o transporte é escasso. Estamos assistindo a uma crise que demonstra a precocidade do sistema de saúde do país, e quem está pagando o maior preço são as mulheres."

Uma coisa é certa: o impacto da epidemia entre os liberianos será de longo prazo. "Em Monróvia, ambulâncias recolhem corpos em diferentes bairros todos os dias. Quando elas passam, você percebe que as pessoas estão quietas e tristes", diz Speare. "Os sobreviventes foram esquecidos e estão traumatizados."

Para ajudar as mulheres a se reerguer depois da crise - e para evitar retrocessos quando a próxima acontecer --, os especialistas dizem que é necessário fazer investimentos em saúde e educação para mulheres e meninas.

"Existe vontade política para melhorar o setor de saúde, especialmente nas áreas rurais, onde vive a maior parte das mulheres pobres", diz Mukenge. "Precisamos nos concentrar no reforço das instituições locais a longo prazo em vez de pensar só em soluções de curto prazo. E precisamos garantir que os esforços de revitalização da economia e do sistema de educação beneficiem as mulheres."

"Enquanto tivermos esses problemas - falta de infra-estrutura, falta de educação, falta de acesso à saúde, falta de igualdade entre os gêneros e a realidade das restrições impostas pelos outros países -, vamos voltar a enfrentar crises no futuro. E, mais uma vez, as mulheres é que vão sofrer mais."

Este post é parte de uma série especial produzida pelo The Huffington Post em reconhecimento à ameaça representada pelo Ebola, especialmente na África Ocidental.

Este post foi publicado originalmente no The Huffington Post EUAe foi traduzido do inglês.

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