OPINIÃO
12/12/2014 19:32 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Está na hora de cobrar pelo carbono

Com o aumento das temperaturas, as condições climáticas mais extremas se tornaram mais frequentes, como previam os especialistas. As secas são mais prolongadas e as tempestades, mais severas. Como sempre, os pobres e vulneráveis são os que mais sofrem. Mas até agora falhamos gravemente ao enfrentar a urgência ou a magnitude da crise.

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Nelson Mandela, que fundou o grupo The Elders (Os Anciãos) em 2007, acreditava que os líderes transformadores precisam ter generosidade e coragem para enxergar além do interesse próprio. Nenhum desafio exige tanto essas qualidades, ou de maneira tão urgente, quanto a mudança climática.

Enquanto as complexas negociações entre 195 representantes dos países membros se aceleram em Lima, Peru, na 20a reunião da Conferência das Partes (COP-20), mais uma vez crescem nossas esperanças em que desta vez as coisas serão diferentes e surgirá um esboço de esquema que sirva de base para um novo acordo climático que os países assinarão em Paris em 2015.

Houve progressos. Compromissos por parte da China, dos Estados Unidos e da União Europeia de cortar as emissões impulsionaram as atuais negociações da ONU sobre a mudança climática, em Lima. Mas, embora sejam um passo importante e bem-vindo, eles não alcançam a escala das reduções necessárias. Outras grandes economias também não cumpriram ainda suas promessas.

Embora tais compromissos destacados sejam essenciais, é claro, não serão suficientes para proteger nosso mundo de um potencial desastre climático. Também é preciso chegar a um acordo sobre os mecanismos para se produzir esses cortes, como eles serão avaliados, relatados e implementados.

Existe a necessidade de um enorme volume de trabalho minucioso, cobrindo um amplo leque de áreas. Precisamos também encontrar os meios para ajudar os países pobres a enfrentarem a mudança climática, que não apenas é inevitável, como já está ocorrendo. A mudança climática não é uma preocupação abstrata ou uma ameaça futura. Ela está acontecendo agora.

Segundo a Organização Meteorológica Mundial da ONU, 2014 deverá ser o ano mais quente já registrado. Isso significa que 14 dos 15 anos mais quentes já registrados ocorreram no século 21.

Com o aumento das temperaturas, as condições climáticas mais extremas se tornaram mais frequentes, como previam os especialistas. As secas são mais prolongadas e as tempestades, mais severas. Como sempre, os pobres e vulneráveis são os que mais sofrem. Mas até agora

falhamos gravemente ao enfrentar a urgência ou a magnitude da crise.

É por isso que, com base na reunião de Lima, um acordo climático universal deverá ser assinado nas negociações COP-21 em Paris no próximo ano. Kyoto não produziu mudanças na escala que era necessária.

Não ousemos cometer o mesmo erro de novo. Outro fracasso ou um novo atraso condenaria o nosso mundo a um futuro profundamente preocupante.

A necessidade predominante é um acordo sobre uma meta para todos os países alcançarem a neutralidade de carbono até 2050. Isso deve ser feito de maneira equitativa e apoiando as aspirações de desenvolvimento de todos os países.

O que também está claro hoje é que no centro do processo deve haver um acordo internacional compulsório sobre o preço das emissões de carbono. Sem esse acordo, a mudança de comportamento que promova a migração para economias de baixo consumo de carbono simplesmente não acontecerá.

Cobrar pelo carbono incorpora o princípio de que o poluidor paga, incluindo incentivos e penalidades no processo. Isso permite que o risco seja quantificado e ajudará a oferecer o investimento público e privado necessário para transformar nossas economias.

Para alcançar esses objetivos, o preço do carbono precisa ser verossímil e previsível, suficiente para induzir a necessária redução das emissões de carbono e incentivar o investimento na mitigação do clima.

Cobrar pelo carbono de maneira acurada vai acelerar o desenvolvimento de fontes de energia alternativas. Além disso, precisam ser acordados mecanismos transparentes de obediência e medição, para que os mercados e os países sejam responsabilizados e sinalizem o avanço rumo às metas climáticas.

Os países estão em diferentes níveis de desenvolvimento, é claro, e têm responsabilidades diferentes pelo carbono que já está na atmosfera.

Mas o princípio de "responsabilidade comum mas diferenciada" significa que, enquanto deve haver flexibilidade na adoção, todos os países devem estar prontos para aceitar a cobrança pelo carbono e reduzir as emissões de gases.

Mas a justiça também exige que os países mais ricos ajudem os que estão atrás deles na via do desenvolvimento. Eles precisam de apoio para realizar as ambições de seus cidadãos de maneira sustentável, mas também para proteger seus cidadãos do impacto da mudança climática.

No momento, o Fundo Verde do Clima, criado para produzir esses objetivos, tem apenas US$ 9,3 bilhões dos US$ 100 bilhões necessários por ano até 2020. Isto dificilmente incentivará as economias em desenvolvimento a adotarem as mudanças necessárias. Impulsionar o fundo exigirá capital privado e investimentos significativos que serão propiciados ao se acordar um preço significativo e equitativo do carbono até a COP de Paris em dezembro de 2015.

Os Anciãos entendem as pressões eleitorais de curto prazo sobre os líderes políticos do mundo. Mas esta é a hora de encontrar a visão e a coragem -- a "acomodação generosa" de que falou Mandela -- para elevar as metas e as ambições.

Os custos do fracasso são imensos, mas também as recompensas.

Nós não apenas cumpriremos nossas responsabilidades para com as futuras gerações, como mostraremos que nossos valores comuns podem ser postos em ação de maneira eficaz em uma economia globalizada.

Cobrar um preço pelo carbono é chave para essa ambição. As iniciativas para reduzir a pobreza e para tornar a economia mais verde podem ser compatíveis, ao contrário do que muitos sugerem.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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