Opinião

Paternidade

Descobri na minha profissão - fotografando, documentando e recriando mundos - que a paternidade é, acima de tudo, fruto de uma herança de gerações.

O que é ser pai?

A minha resposta é muito pessoal

e passa muito longe do óbvio e daquilo que estamos acostumados a ler no dia a dia.

Descobri através da minha profissão, documentando e recriando mundos, que a paternidade, acima de tudo, é fruto de uma herança de gerações.

Genética ou não, ela vem do passado... vem de muito longe.

As imagens que eu escolhi talvez mostrem melhor o que eu quero dizer.

As minha maiores influências vieram do meu avô materno e do meu pai...

Paternidade, por Klaus Mitteldorf

O meu avô, Herman Rüger, um alemão que imigrou para o Brasil depois da Primeira Guerra Mundial, era uma pessoa incomum para sua época.

Lutou em duas guerras mundiais e se tornou um grande amante da natureza.

Sua paixão pelas viagens e pelas orquídeas ficaram em mim para sempre.

Eu costumava visitá-lo no Rio de Janeiro, nos anos 70, quando comecei a fotografar para a extinta revista Brasil Surf.

Até o personagem Tedesco, do meu primeiro longa metragem, Rio-Santos, que vai ser filmado neste final de ano, foi inspirado na sua figura carismática.

Ja o meu pai, Werner Mitteldorf, um grande pai e uma grande figura, me mostrou outros caminhos - bem distintos. Pena que eu só os descobri há muito pouco tempo...

Engenheiro químico e administrador, vivia num mundo bem diferente do meu, e apesar das nossas diferenças ideológicas, sempre me apoiou nas minhas decisões e projetos de vida.

Aprendi com ele que paciência e compreensão são fundamentais para entender a vida e principalmente as pessoas.

Pesquisando mais profundamente antigos álbuns de família, das décadas de 50 e 60, descobri que tínhamos muito mais em comum do que eu imaginava. Meu pai me inspirou muito sem saber, mas sabendo...

Descobri que sentimentos e inspirações podem ser herdados, porque algumas fotos que eu fiz dos meus filhos nos anos 90, meu pai também fez quando eu ainda era criança, e exatamente nas mesmas posições, e com a mesma dedicação...

Não foi à toa que ele me deu de presente uma máquina fotográfica Yashica Mimi, aos 11 anos de idade, pequena mas eterna na minha vida.

Foi com ela que fiz os meu primeiros registros do mundo ao meu redor... Os meus amigos da escola, meus irmãos e principalmente as minhas primeiras viagens...

Foi o início do caminho que me levou a ser tudo que sou hoje...

Instintivamente aprendi com ele o que é ser pai

e tento passar para os meus filhos este aprendizado.

Por outro lado, também me inspiro nos meus filhos diariamente e acabo transformando estes sentimentos em arte... Sem compromisso e sem tempo.

Fotografá-los é o maior dos prazeres, seja no cotidiano ou para algum projeto...

Este processo me fez enxergar que todas as minhas realizações profissionais ou artísticas que tanto almejo só terão valor se eu conseguir transmitir aos meus filhos o sentido da vida que eu herdei.

Portanto, ser pai é a maior das nossas missões!