OPINIÃO
29/04/2015 12:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Por que Baltimore está em chamas

Os negros americanos - a autoproclamada maior democraria da Terra - estão sendo assassinados por toda a parte, pela polícia, em plena luz do dia, com testemunhas, às vezes em vídeo. E, com pouquíssimas exceções, nada acontece com os policiais que puxaram o gatilho. Sem indiciamentos. Sem condenações. Sem prisões.

Andrew Burton via Getty Images
BALTIMORE, MD - APRIL 28: A protester walks through tear gas as police enforce a mandatory, city-wide curfew of 10PM near the CVS pharmacy that was set on fire yesterday during rioting after the funeral of Freddie Gray, on April 28, 2015 in Baltimore, Maryland. Gray, 25, was arrested for possessing a switch blade knife April 12 outside the Gilmor Houses housing project on Baltimore's west side. According to his attorney, Gray died a week later in the hospital from a severe spinal cord injury he received while in police custody. (Photo by Andrew Burton/Getty Images)

Sou do gueto. Nos primeiros 13 anos da minha vida, cresci nas piores favelas de Jersey City, New Jersey, minha cidade natal. Se você atingiu a maioridade em uma das áreas urbanas mais pobres do país, como eu, sabe que somos pessoas decentes e do bem: apesar de não ter dinheiro nem recursos, quase nenhum serviço, escolas dilapidadas, senhorios que só apareciam para cobrar o aluguel, confusão e loucura por toda parte, policiais abusivos, políticos corruptos e pastores desonestos - ainda assim demos um jeito. Trabalhamos duro, fizemos festa, demos risada, fizemos churrasco, bebemos e agradecemos a Deus.

E fomos segregados, duramente, por uma estrutura de poder local que não queria que o gueto fosse ouvido ou visto nem trouxesse seus problemas a público, para que o mundo todo enxergasse.

Na verdade, meu mundo inteiro era o quarteirão onde eu morava, e talvez mais umas cinco ou seis quadras a norte sul leste e oeste.

Viagem longa era ir para o centro de Jersey City no primeiro dia do mês para que nossas mães - nossas mães negras e latinas - pudessem descontar seus cheques de assistência social e fizessem compras com os cupons do governo. Com sorte, comíamos no Kentucky Fried Chicken ou em algum outro restaurante de fast food naquele dia especial.

Quando tinha uns 15 anos, apanhei muito de um policial branco, depois de uma típica briga de moleques com um porto-riquenho num ônibus. Sem armas, sem facas - só punhos. O moleque porto-riquenho, que era branco, foi retirado do ônibus. Eu, negro, fui atirado pra fora. Revoltado, disse algumas coisas pro policial enquanto estava algemado no banco de trás da viatura.

Ele então passou a arrebentar minha cara com toda sua força. Ensanguentado, aterrorizado, a partir daquele momento nunca mais veria os policiais como nos ensinavam na infância: "Policial Amistoso" -

Ser pobre significava que eu só poderia ir para a faculdade com uma pacote de ajuda financeira completa da Universidade Rutgers. Não entrei num avião antes dos 24 anos por causa dessa pobreza, e também porque não sabia que era algo que estava ao meu alcance. Tantos anos depois, visitei todos os Estados do país, todas as cidades grandes e pequenas, e todos os guetos que você puder imaginar. Todos são iguais.

Prédios abandonados e queimados. Incontáveis igrejas, funerárias, barbearias, salões de beleza, lojas de aluguel de móveis, restaurantes chineses e de frango frito.

Escolas que parecem mais prisões de jovens que centros de aprendizado. Playgrounds cheios de vidro quebrado, camisinhas usadas e parafernália de drogas.

Lojas de bebidas por toda parte. Lojas de conveniência que só vendem doces, cigarros por unidade, papel para fazer baseado, bilhetes de loteria e chicletes - muitos chicletes.

E então há as organizações locais que dizem servir à população, aos negros e latinos. Algumas são bem intencionadas e fazem o melhor com seus parcos recursos. Outras só aparecem quando é hora de arrecadar fundos, pedir votos para certos candidatos, ou se a polícia matou alguém tragicamente.

Como Rekiya Boyd em Chicago. Como Miriam Carey em Washington, D.C. Como Tanisha Anderson em Cleveland. Como Yvette Smith no Texas. Como Aiyana Stanley Jones em Detroit. Como Eric Garner em Nova York. Como Oscar Grant em Oakland. Como Walter Scott na Carolina do Sul. Como Freddie Gray em Baltimore...

Sim, temos o primeiro presidente negro na Casa Branca, mas parece que a temporada de caça aos negros está aberta mais uma vez. Cem anos atrás este ano, a máquina de imagens de Hollywood ganhou um enorme impulso com um filme maldoso e racista chamado "Birth of a Nation" (nascimento de uma nação).

Ele retratava os negros de forma tão calculista que literalmente deu o tom de como seríamos retratados e tratados por décadas a fio em todas as mídias. Há cem anos, era comum ver fotos de afro-americanos, especialmente homens, linchados, pendurados de árvores, enquanto os bons brancos locais claramente curtiam a diversão de brincar de carrasco.

Cem anos mais tarde, "Birth of a Nation" foi substituído por um ciclo de notícias de 24 horas ainda obcecado com raça, racismo, conflitos raciais, violência racial, mas nenhum tipo de solução ou de medidas práticas, apenas puro sensacionalismo e entretenimento.

Cem anos depois, as fotos de linchamentos foram substituídas por celulares capturando imagens de Walter Scott fugindo de um policial, como um personagem lento de videogame, só para tomar um tiro pelas costas -- pop! pop! pop! pop! pop! pop! pop! pop!

Só que é tudo verdade. Os negros americanos - a autoproclamada maior democraria da Terra - estão sendo assassinados por toda a parte, pela polícia, em plena luz do dia, com testemunhas, às vezes em vídeo. E, com pouquíssimas exceções, nada acontece com os policiais que puxaram o gatilho. Sem indiciamentos. Sem condenações. Sem prisões.

E toda vez que isso acontece, nos entregam o mesmo roteiro: pessoa de cor é morta a tiros pela polícia local. Polícia local imediatamente tenta explicar o ocorrido, colocando a culpa, sem investigação, na vítima. Policial ou policiais responsáveis pelos disparos são colocados em "licença administrativa" remunerada.

A mídia encontra tudo o que pode para denegrir o caráter da pessoa morta, para de alguma maneira justificar por que ele ou ela morreu. Marchas, protestos, discursos. Polícia local aparece paramentada com equipamentos de conflito. Tensões aumentam. Pessoas são presas, acontecem provocações; a situação sai do controle.

A atenção é desviada do assassinato de um inocente pelas mãos da polícia para os "gângsteres" e os "saqueadores". Pedem-se calma e protestos pacíficos à comunidade, mas ninguém diz o mesmo para a polícia.

Os brancos no poder e as "vozes negras respeitáveis" pedem calma, mas são os mesmos que nunca falam das condições terríveis nos guetos americanos que tornam as periferias bombas-relógio à espera de uma faísca para explodir sua opressão, sua marginalização, sua invisibilidade. São as mesmas pessoas que nunca passaram pouco ou nehum tempo nenhum com os pobres.

Se você não é do gueto ou não passou o mínimo de tempo no gueto não vai entender o gueto...

Não importa. As grandes organizações dos direitos civis, os grandes porta-vozes dos direitos civis e os grandes líderes religiosos são chamados para redirecionar, controlar e conter a energia da população que está por baixo.

Saímos e baixo e olha onde estamos... Mas realmente não há como, porque as pessoas já viram esse filme um milhão de vezes. Elas sabem que é loucura esperar que a justiça cumpra seu curso. Sabem que é loucura esperar um sistema judiciário que raramente, ou nunca, indicia e condena esses policiais que mataram membros de suas comunidades.

Sabem que são loucura os pedidos para ficar de cabeça fria quando elas não têm escapes saudáveis para seu trauma, sua dor, sua raiva. Sabem que é loucura ouvir os especialistas na TV e no rádio e nos blogs analizando quem elas são, sem realmente saber quem elas são.

Elas sabem que é loucura quando negros de classe média falam a língua da estrutura de poder e condenam as pessoas na rua, em vez de condenar o sistema que criou as condições que levou essas mesmas pessoas para as ruas. Elas sabem que é loucura que os chamados progressistas, liberais, defensores dos direitos humanos e da justiça social de qualquer raça ou cultura tenham ficado em silêncio enquanto a polícia segue matando de costa a costa.

E elas sabem que é loucura que a maioria desses grandes líderes e dessa grande mídia só apareça quando há uma explosão.

Então elas explodem, por dentro e dentro de duas comunidades. Elas adorariam atingir as áreas fora das periferiras, mas as estruturas de poder locais impedem que isso aconteça. Então elas destróem suas próprias comunidades.

Entendo por quê. Eu sou eles, e eles são eu. Quem não tem nada a perder vai destruir tudo o que encontrar pela frente. Tipo tudo. Quem acha que sua vida não é valorizada, que é cidadão de segunda classe, na melhor das hipóteses, não será interrompido até se fazer ouvir.

Eles, nós, não se importam se nossas comunidades ainda não se recuperaram plenamente da última grande rebelião americana nos anos 1960. Nós nos importamos se temos de viver em condições miseráveis e se podemos ser mortos a tiros a qualquer momento, por nós mesmo, ou pela polícia. Uma rebelião, um conflito são pedidos de ajuda, de planos, de visão, de soluções, de medidas práticas, de Justiça, para que Deus, alguém, qualquer um, enxergue nossa humanidade e faça alguma coisa.

Condenar essas pessoas é condenar a nós mesmo. Rotular a situação de Baltimore de "revolta" porque ela é composta em sua maioria por gente de cor é racismo, uma vez que não chamamos de revolta quando os brancos decidem se comportar de forma violenta depois de eventos esportivos. Deus sabe como os brancos também destruíram muitas propriedades nos Estados Unidos. Não é democracia se os brancos não puderem se comportar como selvagens sem maiores reclamações; mas, se os negros fizerem o mesmo, vira estado de emergência, com a chegada da Guarda Nacional, armada e pronta para atirar.

Vidas negras importam, todas as vidas importam, igualmente. Acredito nisso, acredito profundamente na paz e na não-violência. Acredito de coração que seremos humanos e teremos compaixão e seremos civilizados uns com os outros, como irmãs e irmãos, como uma raça humana, uma família humana. Acredito que nossas comunidades e forças policiais tenha de se sentar e conversar e ouvir como iguais, não como inimigas, para encontrar uma solução, uma saída para que vivamos em comunidade e nos sintamos seguros e bem-vindos e humanos.

Sim, amo as pessoas, todas as pessoas. Mas também acredito na Justiça para todos. E sei que o que está acontecendo nos Estados Unidos nesses últimos anos não é nem de perto Justiça ou igualdade. Imagine, por exemplo, se brancos estivessem sendo mortos a tiros pela polícia. Quais seriam as reações?

Imagine que George Zimmerman tivesse decidido dar uma de justiceiro com um jovem branco vestindo um capuz naquele condomínio na Flórida. Imagine pais brancos tendo de ensinar a seus filhos como se comportar quando confrontados pela polícia. Imagine se Aiyana Stanley Jones fosse uma menina de 7 anos branca, não negra, morta pela polícia enquanto dormia no sofá com a avó, numa ação policial. Seria uma comoção nacional.

Baltimore está em chamas porque os Estados Unidos estão queimando de racismo, de ódio, de violência. Baltimore esá em chamas por muitos de nós estamos do lado de fora, sem fazer nada para provocar mudanças, ou estamos anestesiados enquanto o anormal vira o normal.

Baltimore está em chamas por pouquíssimos de nós estamos comprometidos com lideranças reais, com uma agenda real, com estratégias políticas, econômicas e culturais consistentes e reais para as comunidades sitiadas e vulneráveis. Policiá-las até a morte não é a solução. Colocá-las na prisão não é a solução. E, claramente, ignorá-las não é a solução.

Kevin Powell é co-fundador da BK Nation, uma nova organização nacional. Ele também é ativista, palestrante e autor ou editor de 11 livros. Seu 12º livro, The Education of Kevin Powell: A Boy's Journey into Manhood, será publicado pela Atria/Simon & Schuster em novembro de 2015.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.