OPINIÃO
23/10/2014 17:01 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Após tiroteio, Canadá deve lutar por seus espaços públicos

Andrew Burton via Getty Images
OTTAWA, ON - OCTOBER 23: Flowers are left in memorial for Cpl. Nathan Cirillo of the Canadian Army Reserves, who was killed yesterday while standing guard in front of the National War Memorial by a lone gunman, on October 23, 2014 in Ottawa, Canada. After killing Cirillo the gunman stormed the main parliament building, terrorizing the public and politicians, before he was shot dead. (Photo by Andrew Burton/Getty Images)

Há mais de 40 anos, quando Pierre Trudeau invocou a Lei de Medidas de Guerra, disse o seguinte:

"Estou confiante de que as pessoas que desencadearam essa trágica série de eventos com o objetivo de destruir nossa sociedade e dividir nosso país verão que acontecerá o contrário. O resultado de seus atos será uma sociedade mais forte em um país unido. Os que desejavam nos dividir nos uniram"
.

Quase meio século depois, nós, canadenses, estamos em uma situação notavelmente parecida. Os acontecimentos no Parlamento desestabilizaram nossa percepção de segurança, despertaram uma sensação de solidariedade nacional e instigaram a consciência coletiva de nosso país.

Como um canadense que vive no exterior, fiquei muito surpreso ontem ao descobrir que muitos de meus colegas americanos estavam igualmente abalados pelos acontecimentos em Ottawa. Não ficou imediatamente claro por que isso acontecia, pois fatos mais mortíferos ocorrem com perturbadora regularidade em todo o mundo e também nos EUA. Mas havia algo aqui que parecia especialmente perturbador.

Apenas algumas horas depois da notícia, Roger Cohen, do The New York Times, tuitou: "Quando o Canadá vai, é o fim". Mas sua declaração, embora fosse incisiva, também estava errada. O Canadá não foi para lugar nenhum, e o processo de cura apenas começou.

Confrontados com a insensatez dessa tragédia, e como muitos detalhes ainda não foram revelados, é difícil compreender as implicações desse ato terrível. Mas parece claro que é mais que uma simples questão de segurança nacional -- é uma questão de identidade nacional. Raramente os canadenses sentiram de maneira tão aguda uma perda coletiva. Mas hoje o país inteiro está de luto, pois perdemos mais que a vida de um soldado. Perdemos a fé em que o pluralismo de nossa sociedade poderia nos imunizar contra a violência ideológica.

Para muitos canadenses, incluindo eu mesmo, isto é um choque. Sempre houve um certo alheamento dos horrores que dominavam os noticiários ao sul da fronteira, uma sensação de que, embora fossem reais, jamais aconteceriam em nossa terra. Tristemente, é óbvio que não esse é mais o caso -- e o meio político canadense está, de maneira nada surpreendente, inseguro sobre como reagir. Aproveitando essa hesitação, muitos nos disseram que "isto muda tudo". Mas não precisaria. E não deve.

A coisa mais fácil a fazer era reagir à tragédia com raiva, dureza e xenofobia. Alguns analistas já descobriram uma maneira de politizar esses fatos -- pedindo uma barricada nos espaços públicos, uma reforma do registro de armas e a presença militar no Parlamento. Todas essas coisas podem de fato ser muito necessárias, mas não vão ao ponto principal.

Durante toda a história de nossa nação, e até hoje, os canadenses gozaram de liberdades notáveis -- em uma paisagem pós-11 de Setembro, a vasta maioria de nossos espaços públicos continua abençoadamente livre de restrições da segurança institucional. Em nenhum lugar isso é mais evidente do que no Centre Block de Ottawa, onde os visitantes entram pelas portas da frente. Compare isto ao Capitólio dos EUA, onde a entrada de visitantes fica em uma estrutura totalmente separada, uma casamata subterrânea afastada das câmaras de decisão política.

Nossos políticos ainda interagem conosco. Diferentemente de seus colegas americanos, eles não se deslocam atrás de vidros escuros em comboios políticos, nem são geralmente acompanhados de enormes seguranças. Eles estão fritando hambúrgueres no churrasco do bairro, posando para fotos com nossos cachorros ansiosos e caminhando para casa no prédio ao lado. É assim que fazemos política no Canadá, e algo que vale a pena defender. O cabo Cirillo morreu ontem defendendo a santidade e a abertura de nossos espaços públicos. Devemos agora continuar a luta -- mantendo e afirmando os mesmos ideais pelos quais ele fez o sacrifício definitivo.

Três anos atrás, outro político canadense nos deu palavras que hoje parecem mais prescientes que nunca. Jack Layton nos disse que "O amor é melhor que a raiva. A esperança é melhor que o medo. O otimismo é melhor que o desespero". Assim, em sua sabedoria atemporal, sejamos amorosos, esperançosos e otimistas enquanto navegamos pelos dias inevitavelmente difíceis que virão. Ele e Trudeau gostariam que fosse assim.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Canada e traduzido do inglês.

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