OPINIÃO
03/06/2014 09:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Sem mãe por opção

Photo by Rafa Elias via Getty Images

Faz quatro anos que falei com minha mãe pela última vez. Talvez nunca mais fale com ela.

Não há uma maneira fácil de dizer "Estou afastada de minha mãe". É ainda mais difícil dizer "Cortei minha mãe da minha vida", esclarecendo que foi você quem interrompeu a ligação. Diga isso para qualquer pessoa, amiga ou desconhecida, e verá uma certa luz que você nem havia notado desaparecer dos olhos dela. Sorrisos vacilam ou se tornam forçados. As mães dão tanto para seus filhos que uma justificativa para o estranhamento tem de ser incrível: um abuso monstruoso que supere todo o amor e o sacrifício inerentes à maternidade. Somente alguém egoísta, sem coração poderia eliminar uma mãe amorosa, certo?

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Quando eu estava no colégio, dormia a maioria das noites no chão da sala. Eu queria dormir em minha cama, é claro, mas minha mãe tinha regras para nós, que não podíamos desobedecer sem sofrer as consequências. Uma regra era que ela controlava quem podia entrar em que cômodos e quando. Por exemplo, com o tempo, o direito de ir ao andar superior - para entrar em nossos quartos por qualquer motivo, ou para usar o banheiro de cima para tomar banho - tornou-se cada vez mais raro. Anos antes, meu pai tinha sido banido primeiro para o andar térreo e depois para o porão, antes de simplesmente deixar nossa casa. Os espaços nos quais tínhamos permissão para entrar encolhiam lentamente.

Ao chegarmos à adolescência, a vida doméstica piorou para minha irmã e eu. Pessoas preocupadas começaram as fazer ligações para serviços sociais. Cada telefonema significava um distúrbio em nossa casa, marcado pelas visitas imprevisíveis de um assistente social chamado Sam, um homem alto e simpático com um buraco extremamente fundo em seu queixo. Naquele buraco eu despejava todo o meu ódio e meu medo.

Não me lembro de minha mãe algum dia dizer que Sam, ou os que lhe pediam para vir, estivesse errado em se preocupar com nosso bem-estar. Não, suas explosões de raiva e xingamentos se concentravam em como sua vida era dura, como ela trabalhava como uma escrava todos os dias, como as cartas estavam marcadas contra ela e como era melhor não dizermos nada para Sam que pudesse ser a menor crítica a ela. Por mais defeituosa que fosse, dizia, ela era nossa melhor chance de uma vida feliz. "Eles vão levar vocês e colocá-los com alguma família adotiva de m*rda que vai deixar vocês apodrecerem", ela gritava. Um de seus castigos preferidos era nos fazer ficar imóveis no meio da cozinha durante horas enquanto ela fazia suas coisas, gritando contra nós como um animal ferido quando sua raiva fervia por ter de por as roupas na lavadora ou realizar alguma outra tarefa doméstica. Para mim, ela era ainda mais fervente: "E nenhuma família adotiva vai pagar para você ir à faculdade, então pode esquecer isso".

Ela devia saber que a faculdade já estava firme em minha mente como via de escape, a melhor saída para uma garota inteligente que se empenhava nas tarefas escolares porque literalmente não podia sair de casa por qualquer outro motivo. Quando controlava a raiva, minha mãe dedicava grande afeição ao meu intelecto. Ela me lisonjeava, dizendo que eu era mais inteligente que minha irmã e meu pai; que meus dons eram raros; que eu precisava de extremo cuidado, das melhores oportunidades, as quais, é claro, ela era a única qualificada para identificar. Éramos ela e eu contra o mundo, como ela via as coisas; era ou a faculdade e minha mãe ou nada.

Então eu fiquei muito boa em mentir, em ficar amortecida durante os surtos imprevisíveis e dizer a mim mesma que não era tão ruim. Ela queria o melhor para mim - como isso poderia ser abuso? Eu ignorava os gritos incoerentes, os móveis derrubados e pratos atirados, as noites passadas no chão, sem permissão para sair daquela sala. Não era nada que eu não pudesse controlar. Logo me tornei a maior defensora de minha mãe, vendo Sam e sua espécie como verdadeiras ameaças para meu futuro. Ela me moldou nesse papel; precisava de uma defensora, porque realmente não tinha mais ninguém.

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"Ela é sua mãe; você vai querer se conectar algum dia." As palavras são tão universais que eu não consigo indicar quem foi a pessoa que as disse; é o que todo mundo me diz. Geralmente me dizem para mudar meu modo de pensar em um de dois cenários: se eu tiver filhos, ou quando ela estiver morrendo. Talvez eles tenham razão. Talvez eu lamente profundamente cortar esses laços, quando eu mesma trouxer uma nova vida para este mundo e perceber... O quê? Que jamais quero fazer para meu filho o que minha mãe fez para mim? Que jamais quero que um filho meu sofra, duvide de si mesmo e aprenda a mentir e a obedecer sem reagir, como eu fiz? Que no mesmo momento em que eu pensasse que minha mãe poderia representar uma ameaça para meu filho ela estaria de volta em minha vida?

O outro cenário, aquela imagem sacrossanta de reconciliação no leito de morte... Essa é difícil rejeitar. Eu poderia querer ver minha mãe de novo, em algum dia hipotético e distante. Mas as poucas pessoas a quem confiei detalhes do meu passado - detalhes que talvez eu nunca coloque por escrito, pelo menos não para consumo do público - não dizem "Ela é sua mãe". Elas dizem "Você tem certeza? Tem certeza de que quer vê-la, mesmo que soubesse que é sua última chance?" Elas ouvem todo aquele amor filial, todo aquele desejo de fazer a coisa certa pela pessoa que me carregou durante nove meses, e pesam isso contra o que eu lhes contei. E para todas as pessoas a quem contei, a balança não se equilibra.

Por isso não sei. Talvez eu nunca mais veja minha mãe. Um vasto nada silencioso se abre em mim quando penso nisso.

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Não falei sobre meu passado durante muito tempo, não apenas porque era cru demais, mas porque sempre havia um sentimento assombroso de que a raiva dela e suas regras infinitas não eram um motivo suficiente para justificar o afastamento. Talvez se eu tivesse cicatrizes físicas me sentisse justificada. Talvez se ela não tivesse nos lembrado com tal frequência de como sua vida seria mais fácil se não tivéssemos nascido, as palavras penetrando profundamente nosso inconsciente enquanto balançávamos no mesmo lugar em silêncio na cozinha - talvez então eu não me perguntasse se o problema era eu, afinal. Mais importante, talvez se ela não tivesse sido tão carinhosa quando estava em um bom dia - e os bons dias não eram tão raros. Certamente um pai abusivo seria ruim o tempo todo, e ela não era. Eu sabia que minha mãe me amava e queria coisas boas para mim. Como um filho adulto reconcilia esse amor, por mais retorcido que seja, com a necessidade de escapar de sua influência maligna?

Eu não conto para a maioria das pessoas os motivos pelos quais minha mãe não faz parte da minha vida, ou pelo menos não lhes conto tudo. Para mim, o passado é um espaço a que hoje só eu tenho acesso, um lugar que ela não mais ordena para mim. Somente eu tenho as chaves e concedo o acesso a muito poucas pessoas. Com quem mais eu poderia compartilhá-lo? Conheço algumas pessoas também afastadas de suas mães, e essa experiência compartilhada é reconfortante, mas não gostamos de mergulhar nesse assunto habitualmente. Durante algum tempo eu aliviei meu estresse e minha dor no Dia das Mães saindo com uma amiga cuja mãe tinha morrido subitamente. Isso era o mais perto que eu tinha de alguém que podia entender meus sentimentos complexos sobre essa festa - alguém cuja mãe estava morta.

O espaço que o passado ocupa permanece basicamente vazio, exceto por conversas ocasionais com minha irmã, rápidas porque ainda hoje é assombrado para nós, desagradável de ocupar. "Você tem pesadelos com mamãe? Sim, tenho." Fim da conversa. Não descrevemos os pesadelos. Não mencionamos que eles não param.

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Enquanto eu aprendia a definir meu próprio espaço longe de minha mãe, descobri que tinha de ser absoluto. Eu costumava receber telefonemas que me deixavam paralisada de medo; troquei meu telefone. Eu costumava vê-la durante as férias; isso terminou depois que meu avô morreu e ela começou uma dura guerra por herança com minha tia, que também levou a seu afastamento. Não sei o que minha mãe faz nos feriados hoje. Talvez ela os passe com a família de seu namorado, um homem que certa vez se esgueirou por trás de mim, beijou minha nuca e me fez um olhar estranho quando eu me virei assustada. Não sei se ela ainda está com ele. Não sei quase nada sobre ela.

Depois do desabamento gradual de toda a família do lado de minha mãe, eu procurei minha tia; hoje eu passo os natais com ela. Também procurei os membros dispersos do lado do meu pai, que tinham perdido o hábito de comemorar as festas juntos, embora não por motivos de discórdia. Eu tive a ideia de reunir os membros distantes e solitários dessa família em Indiana nos feriados: hoje essa reunião depois do Natal se tornou uma tradição anual, com mais de 15 convidados.

E eu ainda me preocupo: família não é o suficiente. Não é o bastante para compensar o que eu perdi.

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Eu me formo na faculdade este mês. Tenho 30 anos; voltei a estudar depois de adulta para finalmente terminar meu bacharelado. A família do meu pai vai festejar comigo; meus amigos também estão planejando comemorações. A primeira vez em que tentei a faculdade - ainda era uma filha obediente - não suportei o estresse e desisti. Eu tinha me mudado para o outro lado do estado, mas ela ainda tentava controlar meu espaço. Lembro que minha irmã me ligou para avisar que mamãe estava dirigindo para me ver. No calor do momento, deixando a filha mais moça com quem ela pouco se importava para perseguir a mais velha que ela estava decidida a controlar. Escapei para um espaço que ela não alcançaria, o dormitório de uma amiga, e dormi lá o fim de semana inteiro enquanto ela vagava pelo campus à minha procura.

Não voltei para o espaço dela; escavei um espaço para mim mesma. Trabalhei duro e economizei. Mudei-me para Nova York. Entrei para uma escola melhor, por meu próprio mérito, apesar das previsões dela. Fiquei perto de minha família e fiz bons amigos. Hoje eu sei que não era verdade: eu não precisava dela para ter sucesso na faculdade ou na vida. Eu posso levantar a cabeça e dizer: "Fiz tudo isso sem você". Mas as palavras ecoam, como que pronunciadas em voz alta em uma sala enorme, completamente vazia. Sem você.

Texto publicado originalmente no blog The Archipelago.

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