OPINIÃO
25/11/2014 23:18 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Fui assediada no trabalho durante três anos e não percebi

Vou admitir. Dizer que não percebi é provavelmente impreciso, um insulto ao meu nível de inteligência. Então. Como um ser humano relativamente equilibrado, sério e consciente de si mesmo não percebe que está sendo assediado?

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Vou admitir. Dizer que não percebi é provavelmente impreciso, um insulto ao meu nível de inteligência. Então. Como um ser humano relativamente equilibrado, sério e consciente de si mesmo não percebe que está sendo assediado?

Bem.

Ela pode ter 23 anos. Ela pode estar seriamente endividada com os empréstimos que fez para pagar a faculdade. Ela pode não querer ser o tipo de pessoa nervosa demais para tocar no assunto, então ela ignora esse fato a respeito de si mesma e continua quieta.

O negócio é que, desde cedo, sempre me mantive sob controle. Tive ótimas notas na escola, saúde mental e física em ordem, vida social ativa. Nunca me considerei um capacho - num relacionamento ou em qualquer outra área da vida. Casei com o homem mais gentil que conheci, me formei na faculdade, consegui meu primeiro emprego de verdade numa corporação incrível, mas não aguentava o longo deslocamento até o trabalho e arrumei meu segundo emprego de verdade trabalhando como prestadora de serviço para o exército.

O emprego era um sonho.

Podia usar minha formação em geociência ambiental, fazer mapas e trabalhar com pessoas extremamente motivadas, a maioria mulheres, numa instalação do exército. "Isso é incrível!", pensava. Vindo de uma força de trabalho saturada de homens (engenheiros e especialistas em sistemas de informações geográficas), foi uma novidade trabalhar com mais mulheres - especialmente mulheres determinadas, inteligentes e divertidas.

Achei que me encaixaria bem naquele ambiente, e foi o que aconteceu. Ficou fácil ignorar as coisas - coisas que, em retrospecto, reviram meu estômago, mas na época pareciam só pequenos incômodos.

O problema era meu chefe. Vamos chamá-lo de Craig. "Agora você recebe salário", explicou Craig calmamente depois da minha primeira semana no emprego. "Assalariados não saem às 16h30 em ponto. Eles são apaixonados pelo trabalho. Eles ficam porque querem."

Afiando minha ética de trabalho.

"Não acredito que você convidou seu marido para um evento depois do trabalho", riu Craig. Me senti uma idiota. O pessoal do escritório se reuniu para uns drinques numa sexta, em um bar da instalação. Meu marido, que é da Força Aérea, trabalhava na mesma rua. Ele nunca se sentiu fora do lugar em encontros com colegas meus de outros trabalhos. Não sabia que seria estranho convidá-lo.

Afiando minha ética depois do trabalho

"Você pediu um aumento para Sam?", perguntou Craig, exasperado. "Sam" era meu chefe na empresa prestadora de serviços. Tecnicamente, como funcionário do governo, Craig não deveria saber meu salário, muito menos interferir nele. "Se precisar de alguma coisa, fale comigo. Eu decido o que acontece com meus funcionários." Me senti pequena.

Afiando minha escada.

O que não percebi na época é que Craig estava cultivando meticulosamente uma cultura de lealdade inquestionável, de moral baseada em elogios e de competição estratégica entre suas funcionárias. Ele era inspirador e carismático, simpático e compreensivo, um líder no sentido puro da palavra. Craig liderava, as pessoas seguiam.

Fui promovida e virei, essencialmente, o braço-direito de Craig. Ele me chamava de sua Menina Sexta-Feira.

A questão

Craig não queria que as famílias fossem convidadas para as festas de fim de ano. Para Craig, era errado deixar a vida pessoal entrar no espaço de trabalho, mas era OK me mandar mensagens dizendo sentir saudades de mim quando eu estava de férias. Era OK para ele me obrigar a fazer reuniões tête-à-tête em bares, depois que todo mundo tinha ido embora. Era OK me segurar no escritório por horas falando de trabalho e brincar que os colegas provavelmente suspeitassem de alguma coisa entre a gente.

Não posso falar pelos outros, mas sinto que não era a única mulher a achar que o comportamento dele era pelo menos um pouco errado. Ainda assim, lá estávamos nós, um harém de mulheres intelectuais, de boa formação, atraentes - todas claramente conscientes da bizarrice da situação - e nenhuma de nós fazia nada a respeito. Talvez porque ele nunca tenha chegado em nenhuma de nós muito abertamente. Talvez porque não fosse ruim o suficiente para que abríssemos mão dos nossos empregos. Talvez a sensação de sermos especiais fosse suficiente para suplantar uma situação detestável, pelo menos no dia a dia. Conseguíamos nos convencer de que tudo estava bem - quando claramente não estava.

Mas acho que elas deviam saber. Não falávamos a respeito porque achávamos que seria traição. É um fenômeno parecido com a síndrome de Estocolmo - quando os presos sentem simpatia ou até mesmo empatia por seus captores, e as vítimas confundem falta de abuso com um ato de bondade.

Craig me deixava pouco à vontade, claro, mas ele não fazia nada abertamente. Portanto, o comportamento dele não era assédio.

Era?

Craig gostava de tocar. Não era incomum que ele chegasse por trás de uma funcionária, colocasse a mão no ombro dela e desse uma apertadinha. Abraços, para ele, eram uma maneira adequada para um chefe se despedir de um funcionário. Eu dava abraços com um só braço, com um tapinha nas costas e tudo, mas não era suficiente. Ele disse. Lembro de brincar (porque é o que faço quando estou pouco à vontade) que só amigos tinham direito ao contato com dois peitos, mas é claro que essa brincadeira virou uma coisa nossa. Uma piada interna. Depois disso, ele vinha direto para o contato de dois peitos porque eu tinha feito a piada. Eu dei a liberdade.

Não?

Às vezes, Craig tinha algo importante a dizer - uma piadinha ou alguma observação sobre o trabalho - só para mim. Ele chegava bem perto, colocava a boca no meu cabelo e sussurrava - pronunciando bem os "Ps", com um sopro de ar quente na minha orelha.

Eu ficava revoltada.

Mas não o empurrava. Não pedia para ele parar. Ele era meu chefe, e éramos amigos. Eu era a Menina Sexta-Feira, afinal de contas, e ele estava sendo ele mesmo. Ele não tinha passado a mão na minha bunda ou dito que eu só teria um aumento se a gente dormisse junto. Não havia abuso, portanto ele era gentil.

Não era?

A incrível capacidade de não entender a linguagem corporal era só um traço infeliz da personalidade dele. A desaprovação de familiares em encontros sociais era só resultado de um casamento infeliz. Havia uma razão para tudo. Tudo tinha explicação.

Craig acabou sendo demitido por - olha essa - assédio sexual. Não oficialmente.

Todas fingimos surpresa.

Uma ex-funcionária que tinha trabalhado com ele anos antes de mim revelou o affair sórdido dos dois porque a mulher de Craig, compreensivelmente suspeita, passou a persegui-la no trabalho. O caso exigiu investigação. Pediram que eu participasse de uma entrevista com o chefe de Craig - um homem que preferiria ter ficado fora do radar, na dele, até chegar a hora da aposentadoria. Se eu tivesse falado tudo, ele fingiria estar chocado. Mas não tenho certeza se ele acreditaria em si mesmo.

Mas não falei tudo. Defendi Craig. Eu era a Menina Sexta-Feira, devia minha carreira a ele.

Ainda assim, tinha aquela outra menina. A corajosa. E ela não podia ser ignorada. Tenho vergonha de não tê-la ajudado. Como costuma acontecer no governo, pediram que Craig deixasse seu cargo para aceitar uma promoção em outro Estado. Longe dos olhos, longe do coração.

Problema resolvido.

Antes da saída dele, tivemos uma conversa. Ele não acreditava que isso pudesse estar acontecendo com ele. Ele tinha trabalhado tão duro para construir tudo e agora teria de assistir, de longe, um burocrata complacente levar o programa para a obscuridade.

"Mas você", disse ele com um sorriso e uma piscadela, "você vai longe".

Alívio. Depois de anos, meu trabalho - minha tolerância - pareceu validada. Um dia, ele sabia, eu chegaria ao topo. Eu era inteligente. Era motivada. Era -

"Você pode ser assistente de um dos caras top de qualquer grande empresa. Minha Menina Sexta-Feira. Você vai me dar orgulho."

Perceber que ele não me levava a sério como executiva - que eu era uma serva, não uma aprendiz - foi o que finalmente dissipou uma névoa de ilusão que durou três anos. Em retrospecto, talvez o assédio não tenha sido sexual. Talvez, como disse uma colega, fosse só uma maneira de ele se sentir poderoso o suficiente para andar fora da linha.

De qualquer modo, foi hilário.

E humilhante.

E estou muito feliz que tenha acabado.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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