OPINIÃO
08/01/2015 19:46 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

10 lições que aprendi em 17 anos de vida no exterior

Fuse via Getty Images

Dezessete anos vivendo no exterior, primeiro na Irlanda, depois na França, agora no Panamá, me ensinaram...

1. Paciência... do tipo que você aprende com o passar do tempo...

paciência

Outro dia eu estava junto ao balcão de uma pequena mercearia na Cidade do Panamá, observando o rapaz do outro lado que tentava calcular minhas compras. Um artigo que eu havia escolhido estava sem a etiqueta de preço, então o rapaz saiu de trás do balcão e foi até os fundos da loja para encontrar um artigo igual que tivesse o preço. Vários minutos depois, ele voltou.

Quando olhou para a calculadora para marcar o valor (a loja não tinha uma caixa registradora), ele percebeu que estava sem papel. Saiu de trás do balcão novamente, e desta vez desapareceu atrás da porta à esquerda. Vários minutos depois, voltou com um rolo de papel para a calculadora.

Quando ele começou a trocar o papel na máquina, o telefone tocou, então ele deixou o rolo de papel sobre o balcão para atendê-lo. Vários minutos depois, terminou a conversa e apanhou o rolo de papel de novo. Vários minutos depois disso ele conseguiu instalar o papel na máquina.

Depois de somar minhas poucas compras, ele alcançou atrás do balcão um saco para colocar as mercadorias, mas percebeu que os sacos haviam terminado, então saiu de trás do balcão e desapareceu novamente pela porta à esquerda. Vários minutos depois, ele voltou com um único saco plástico. Havia mais quatro clientes na fila atrás de mim. Acho que ele imaginou que os outros não quisessem sacolas.

Depois de colocar minhas compras no saco, o rapaz olhou para mim. "São 12 dólares e 65", disse em espanhol.

Eu lhe entreguei uma nota de US$ 10 e outra de US$ 5. O jovem procurou atrás do balcão a caixa de charutos onde guardava o troco. Não tinha nada. Ele chamou a jovem que abastecia as prateleiras, que terminou o que estavam fazendo, então veio até o balcão e contou o troco para mim, tirando-o do bolso de seu avental.

Esse é o tipo de cena que acontece o dia inteiro, todos os dias, em todo o mundo em desenvolvimento. Você precisa ter paciência para não perder a calma. Ou saia do mundo em desenvolvimento.

2. Aceitar as ambiguidades...

A mercearia da esquina vai abrir às 9 da manhã, como indica a placa? Ou mais tarde... se é que vai abrir?

A senhora atrás do balcão do Departamento de Imigração vai aceitar os documentos que preparei, ou vai solicitar outros que não indicou em qualquer de minhas quatro conversas anteriores com ela?

O caixa do banco vai descontar meu cheque ou vai questionar a assinatura (como acontece comigo com caixas na Cidade do Panamá algumas vezes por mês)?

O carro à minha frente na pista da direita vai virar à direita, ou vai virar à esquerda, cruzando duas faixas de trânsito?

O entregador vai aparecer na quinta-feira, como prometeu? Em algum momento desta semana?

A garçonete vai trazer o meu pedido?

Passei a considerar essas questões como filosóficas, em vez de práticas, e me treinei para não me surpreender quando a resposta contraria minhas expectativas, como acontece com frequência.

3. Não me importar por não entender o que acontece ao meu redor...

telefone mudo

Por que aqueles trabalhadores estão cavando mais um buraco no meio da rua? Eles abriram um buraco no mesmo lugar e depois o cobriram na semana passada... Por que cavar mais um... e agora, durante a hora de maior tráfego na manhã?

Por que o governo mudou um feriado nacional da sexta-feira para a segunda (como aconteceu no mês passado no Panamá, sem advertência ou explicação)?

Por que o telefone fixo fica mudo toda vez que chove?

Por que a eletricidade acabou... e quando será restabelecida?

4. Não me incomodar com coisas que não importam...

Ver acima.

5. Saborear os momentos "Nutella"...

momentos nutella

As frustrações e os desafios de viver em um país estrangeiro, especialmente no mundo em desenvolvimento, são muitos, mas também há muitos momentos extraordinários de descoberta e prazer. Um deles foi ver a alegria no rosto de meu filho de 5 anos na primeira vez em que ele experimentou um crepe de Nutella, quando morávamos em Paris. Assim como comemorar o 16º aniversário de minha filha em um café na margem esquerda do Sena com vista para o Louvre... A primeira vez que meu marido e eu jantamos em um restaurante na cobertura em Istambul, dando para o Bósforo... A cena de carneiros brancos nas colinas verdes diante da janela do meu quarto na Irlanda durante tantos anos... A longa fila de navios aguardando a vez para passar pelo Canal de Panamá que vejo pela janela do meu quarto hoje todas as manhãs... Andar de caiaque com as crianças pelo rio Macal em Belize... Ver meus filhos aprenderem a andar a cavalo no campo atrás de nossa casa na Irlanda... Balançar em uma grande cadeira de vime na varanda do Hotel Alhambra, dando para a praça principal de Granada, na Nicarágua, a cidade mais antiga das Américas, enquanto a vida transcorre do mesmo jeito nesse lugar há séculos...

6. Desprendimento...

Minha mãe me ajudou a organizar as coisas de minha casa em Baltimore antes de minha mudança dos Estados Unidos para a Irlanda, anos atrás. De pé sobre uma banqueta diante de um armário de cozinha aberto, ela perguntou: "O que você quer fazer com tudo isto?"

Eu olhei e lhe disse para colocar tudo o que havia no armário em uma caixa e levar para a casa dela.

"Mas todos os seus chás e seus temperos!", respondeu ela. "Você não pode simplesmente se desfazer de tudo isso!"

Para fazer a mudança de Baltimore para Waterford, tive de esvaziar uma casa de três quartos, um porão, um sótão e uma garagem. Isso exigiu muito desprendimento. Na época, pareceu difícil me desfazer de tanta coisa. Hoje eu sorrio e balanço a cabeça ao pensar que se relutasse em me afastar daquela parafernália naquela altura poderia ter impedido o início da nova vida que desfrutei todos esses anos desde então.

7. Florescer no lugar onde me plantei...

florescer onde me plantei

A Irlanda era úmida e cinzenta na maior parte dos dias, e Waterford, onde ficamos instalados durante sete anos, é um lugar parado no tempo. A Cidade do Panamá, onde vivemos há mais de seis anos, é quente e úmida todos os dias do ano. Também é uma cidade bem-sucedida, o que significa congestionamento, caos e trânsito maluco.

Na Irlanda eu poderia ter me queixado de que sentia falta do sol e das atrações de uma cidade de verdade, como fiz, e hoje aqui na Cidade do Panamá eu poderia me queixar do tumulto. A verdade é que às vezes faço isso. Então me lembro dos motivos principais pelos quais estou aqui. A Irlanda foi o melhor lugar para mim e minha família quando estivemos lá, apesar do clima e da vida noturna, e o mesmo vale hoje para a cidade do Panamá.

8. Encolher quando necessário...

Comecei a aprender sobre desprendimento naquela tarde com minha mãe na cozinha em Baltimore. Minha aula de formatura no exercício de redução de escala foi em Paris. Mudamos com duas crianças de uma casa de 465 metros quadrados em Waterford para um apartamento de 102 metros quadrados na Cidade Luz. Eu guardava as roupas de meu filho no armário na sala de jantar e seus brinquedos e jogos embaixo de sua cama. Meu marido e eu dividíamos uma escrivaninha na sala quando trabalhávamos em casa (o que era frequente), e nós quatro jantávamos toda noite em uma pequena mesa que parecia tirada de "Alice no País das Maravilhas".

E eu não trocaria um único dia em Paris ou uma única memória dos anos que passamos lá por qualquer número de metros quadrados a mais de espaço para viver.

9. Pedir ajuda...

Sou uma mulher americana agitada, autoconfiante e cheia de recursos. Posso cuidar de mim mesma. No entanto, morando no exterior, aprendi que às vezes a vida é mais fácil e mais divertida quando eu não cuido. Aqui no Panamá podemos pagar uma empregada em tempo integral. É um luxo que eu não teria considerado se vivesse nos Estados Unidos, mas ter alguém para ajudar na casa certamente é muito bom.

10. Abandonar qualquer ideia que eu jamais tive sobre o que é "normal"...

Qual é a maneira "normal" de comemorar o aniversário de uma criança (no Panamá, a piñata é vital) ou comprar uma árvore de Natal (na Cidade do Panamá, compramos a nossa de um açougueiro que tem uma câmara refrigerada)? Falando sério, qual é a maneira normal de criar filhos ou dirigir uma empresa? Minha família achou que eu estava louca de mudar minha filha de 8 anos de Baltimore para Waterford e de ter meu segundo filho na Irlanda. Eles ainda acham que sou louca, creio eu, por viver e ter uma empresa no Panamá.

Eu costumava me preocupar que nosso estilo de vida pudesse se traduzir mais à frente em anos de psicoterapia para nossos dois filhos. Hoje, porém, os dois falam três línguas e têm uma visão global que me deixa orgulhosa e otimista sobre suas perspectivas futuras. Seja o que for que a vida lhes ofereça, eles estarão bem.

Talvez não normais... mas bem.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

Curta a gente no Facebook |
Siga a gente no Twitter

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.