OPINIÃO
06/07/2015 14:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Os gregos votam 'não' e deixam duas opções para a Europa: perdoar parte da dívida ou, pior, encarar a saída do país do euro

As horas podem estar passando, mas a verdade é que um acordo razoável é possível. O governo grego aceitou a maioria das condições apresentadas pelos seus chamados parceiros europeus. O que os credores europeus precisam reconhecer é algo que é amplamente aceito: a Grécia não tem como pagar tudo o que deve.

ARIS MESSINIS via Getty Images
Girls celebrate with Greek national flags in front of the parliament on July 5, 2015 in Athens after early results showed those who rejected further austerity measures in a crucial bailout referendum were poised to win. Greek voters headed to the polls July 5 to vote in a historic, tightly-fought referendum on whether to accept worsening austerity measures in exchange for more bailout funds, in a gamble that could see the country crash out of the euro.FP PHOTO /ARIS MESSINIS (Photo credit should read ARIS MESSINIS/AFP/Getty Images)

DUBLIN - O resultado do plebiscito grego está confirmado, e ele será um choque para o establishment político europeu. O governo grego fez campanha pelo "não", pedindo que os eleitores rejeitassem as propostas apresentadas pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional em 26 de junho. A população grega abraçou a posição do governo, e o "não" teve cerca de 60% dos votos. O que vai acontecer agora?

O governo argumentou que o voto pelo "não" daria melhores condições de negociação com os credores, ao mesmo tempo mantendo o euro como a moeda do país e permitindo a reabertura dos bancos. É possível que parte disso - ou até mesmo tudo isso -- aconteça, mas deve demorar alguns dias. Mas é igualmente possível que nada disso aconteça, e a Grécia saia do euro em meio a distúrbios econômicos e rancor político.

O primeiro-ministro Alexis Tsipras agora vai usar o mandato esmagador que recebeu da população para negociar um acordo que envolva perdão de parte da dívida e menos austeridade. De fato, 60% dos votos significa que o apoio a Tsipras é bem maior que o recebido por seu partido de esquerda, o Syriza.

Mas é pouco provável que isso faça muita diferença para os credores gregos. Os líderes dos países europeus que emprestaram dinheiro para a Grécia vão afirmar que também têm eleitores e mandatos. Dirão que o plebiscito não muda as coisas tanto assim. Portanto, quem espera que as negociações com os credores sejam concluídas rapidamente provavelmente ficará decepcionado.

"O que os credores europeus precisam reconhecer é algo que é amplamente aceito: a Grécia não tem como pagar tudo o que deve."

Uma complicação prática é que, mesmo que os gregos tivessem votado "sim", as propostas de 26 de junho já não valiam mais nada. Elas diziam respeito a mais transferências de recursos como parte de um programa existente com a UE e o FMI. Esse programa se encerrou em 30 de junho. Para a Grécia receber mais recursos para evitar novos calotes, um novo programa de ajuda terá de ser aprovado pelos parlamentos de todos os países que integram a zona do euro. Portanto, mesmo que as negociações sejam construtivas, a Grécia pode não receber recursos a tempo de pagar a parcela de 3,5 bilhões de euros devida ao Banco Central Europeu e cujo vencimento é em 20 de julho. Um calote dessa natureza pode ser o evento que vai selar a saída da Grécia do euro.

De qualquer modo, parece improvável que as negociações entre Tsipras e os credores sejam construtivas. O governo do Syriza não conta com a boa vontade dos outros países europeus, muitos dos quais estão ameaçados por partidos populistas de esquerda e, portanto, querem mostrar que uma abordagem radical não funciona. Por exemplo, aqui na Irlanda, o governo de coalizão de Enda Kenny tem medo de perder votos para os oposicionistas do Sinn Fein (de esquerda) caso um endurecimento por parte dos gregos demonstre que a Grécia conseguiu condições mais vantajosas que as da Irlanda. O Sinn Fein se alinhou ao governo do Syriza e mandou representantes para a sede do partido grego na noite de domingo. Alguns líderes europeus parecem acreditar que a solução é incentivar uma mudança de governo na Grécia, para então firmar um acordo com um governo novo e mais "razoável".

Tudo aponta para um impasse nas próximas semanas. O ponto chave neste período serão os bancos gregos. O Banco Central Europeu limitou a quantidade de dinheiro que os bancos gregos podem tomar emprestado. Sem um aumento desse limite, os bancos não podem reabrir. O BCE decidiu que aumentar o limite antes de um acordo da Grécia com seus credores está além de seu mandato.

"Forçar a Grécia a sair do euro é provavelmente uma estratégia que vai minimizar o dinheiro devolvido aos credores."

Enquanto isso, fica claro que as restrições bancárias na Grécia são extremamente severas e têm efeito disruptivo substancial na economia. Parece provável que os bancos gregos não tenham dinheiro nem mesmo para continuar oferecendo saques de 60 euros por dia, como na semana passada.

Isso significa provavelmente que há menos tempo para novas negociações antes que o governo grego considere dar os primeiros passos para a emissão de sua própria moeda. Um passo seria emitir notas promissórias para pagar pensionistas. O governo também poderia anunciar que essas promissórias poderiam ser usadas para pagar impostos, o que criaria demanda por elas.

Se a crise continuar por muito tempo, essas notas promissórias podem se tornar uma moeda paralela - e, no fim das contas, todas as contas bancárias do país poderiam ser convertidas para essa nova moeda. O governo, então, poderia gerar liquidez para os bancos, permitindo que eles reabram. O governo grego poderia afirmar que isso não significa uma saída do euro, mas simplesmente uma maneira de manter a economia em funcionamento. Na prática, porém, o país teria deixado a zona do euro.

"O governo do Syriza não conta com a boa vontade dos outros países europeus, muitos dos quais estão ameaçados por partidos populistas de esquerda e, portanto, querem mostrar que uma abordagem radical não funciona."

Mas não precisa ser assim. Os governos europeus deveriam recomeçar as discussões com Tsipras em boa fé. A natureza decisiva do "não" deveria convencê-los a abandonar as tentativas de forçar uma mudança de governo e a se concentrar nas implicações práticas de uma saída da Grécia do euro.

As afirmações confiantes dos líderes europeus de que eles "blindaram" o resto da Europa das consequências de uma "Grexit" são fanfarronice. Eles não têm um plano claro para lidar com as consequências da saída de um país do euro (e possivelmente da UE). Caso isso aconteça, é provável que haja muitos efeitos colaterais imprevistos.

As horas podem estar passando, mas a verdade é que um acordo razoável é possível. O governo grego aceitou a maioria das condições apresentadas pelos seus chamados parceiros europeus. O que os credores europeus precisam reconhecer é algo que é amplamente aceito: a Grécia não tem como pagar tudo o que deve. Um acordo sensato, que envolva perdão de parte das dívidas, vai dar a Tsipras margem de manobra política para aceitar condições muito parecidas com as que foram rejeitadas no plebiscito, pois parecerá um acordo justo, não a mera imposição de políticas de austeridade a perder de vista nos termos dos credores.

A alternativa - forçar a Grécia a sair do euro -- é provavelmente uma estratégia que vai minimizar o dinheiro devolvido aos credores. O argumento econômico e moral para perdoar dívidas é claro. Os líderes europeus precisam ter coragem para aceitar a realidade e parar de fingir que a Grécia vai pagar tudo o que deve.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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