OPINIÃO
19/03/2015 16:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Sexo ágil

Passar batido por uma multidão carnavalesca, sem ser importunada, é uma calma que mulheres não costumam desfrutar. Não estou falando de paquera, flerte, olhar de "que gata", olhar de tesão, de gostosura, de querência. Estou falando de assédio, que significa violência, significa tratar o outro não como um igual mas com uma superioridade violenta, um tanto faz para a conexão que ela sentir ou não.

#PergunteÀMinistra, mas não sobre aborto, pois "o aborto não está na agenda do governo". Palavras de Eleonora Menicucci, ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres. Políticas para as mulheres sem falar sobre aborto.

Um dos dias mais inteiros de minha vida foi nesse Carnaval, fantasiada de Papangu, pelas ladeiras de Olinda.

Pra quem não conhece, Papangu é um tipo de palhaço monstro, que quem conhece também não reconhece. Que quem fica dentro dele quem olha de fora não vê de jeito nenhum. O disfarce perfeito, um calor dos inferno, a maior alegria. Roupa de uma peça só, colorida que só ou preta, cor tanto faz, castanhola nas mãos, luvas ou não, meião ou não.

Papangu Karina Buhr, por Priscilla Buhr

Lá ia eu andando, pulando, correndo, sem ninguém saber que eu era mulher, logo, ninguém preocupado em reger meus movimentos, com a roupa frouxa do monstrinho e a máscara que cobre a cabeça e o cabelo e que nem sua mãe consegue te reconhecer dentro dela, a um palmo do nariz.

É isso, um dos dias mais intensos da minha vida foi quando passei pelas ruas sem ser mulher diante de olhos assediadores. Usar burca por obrigação não é bom pra seu ninguém, mas entender que tenha mulher que use por que gosta às vezes fica mais fácil, até sem se preocupar com algum deus específico, um profeta, uma lei dos céus.

O monstro bem que podia ser só o papangu...

Passar batido por uma multidão carnavalesca, sem ser importunada é uma calma que mulheres não costumam desfrutar. Pra quem me lê de primeira viagem, a legenda básica, maternalzinho...é:

não estou falando de paquera, flerte, olhar de "que gata", olhar de tesão, de gostosura, de querência, que cada um que tenha o seu, que invista nele inclusive, indo e voltando principalmente e seja feliz!

Estou falando de assédio, que significa violência, significa tratar o outro não como um igual mas com uma superioridade violenta, um tanto faz para a conexão que ela sentir ou não. A gente sabe, chega de explicação.

Volto ao meu papangu de andada. Se locomover sem o assédio presente a cada passo, foi uma sensação de liberdade tão grande na vida, acho que a mais forte, a melhor!

Sempre choro no Carnaval de Olinda porque o Carnaval é o Carnaval, mas naquele primeiro dia chorei antes de ver qualquer orquestra de metal e tambor. Chorei de uma alegria que não conhecia.

De ser uma pessoa que costura a multidão e a multidão acolhe mais quentinho.

E senti também na pele o tanto de difícil que pode ser pra um homem entender isso que falo que senti até chorar. Se eu pudesse ter andado a minha vida inteira como naquela tarde papangu, talvez eu não tivesse a manha de fazer a menor noção de que pudesse ser de outro jeito. Será que eu diria "eu adoraria receber elogios todos os dias nas ruas, não sei do que essas mulheres reclamam"?

Era Carnaval e chorei logo na entrada, pra aumentar a umidade debaixo da máscara quente. Que coisa boa, minha gente!

Cruzei a multidão experimentando outras movimentações, entronchando o ritmo dos passos. Completei a fila atrás de grupos de homens que cortavam caminho entre as pessoas, dando semi cotoveladas, como se fosse um deles. Os movimentos brutos meus, agindo como eles, os caras que passam em trenzinhos apressados, costurando a rua. Sem causar reação por estar no lugar "errado" e não num corpo de pastora, bruxa, ou bailarina e eles também me aceitando como um deles, com naturalidade, com uma certa cumplicidade, um certo tipo de proteção, que, estivesse eu vestida de menina, muito provavelmente estaríamos indo pro lado contrário.

Vaca Profana. Dandara Pagu por Beto Figueiroa

E aconteceu mais, dentro do dia já suficientemente impressionante pra mim. Lá pras tantas eu estava com um grupo de amigas e estourando de calor, abri os 3 botões de cima da roupa, aparecendo alguns centímetros do sutiã do biquíni que usava por baixo. Em poucos segundos, talvez um segundo pra cada centímetro aberto, um homem botou a cara colada nos meus peitos e susurrou alguma coisa.

Papangu paralisada, amigas idem!

Eu estava há horas no sossego da fantasia monstra, há horas sem ser julgada, assediada e não consegui passar um minuto aparentando aos olhos de fora ser uma mulher sem serem quebradas as barreiras dos meus limites corporais de transeunte fêmea.

Foram poucos segundos. Uns 3. É muito grave...

É preciso vir um prumo.

A rua pode ser na paz do mundo e mulheres fazem parte desse mundo.

Saio com a plaquinha mesmo, exigindo o direito, encho os sacos, me faço repetir, cansar ouvidos, mas o cansaço mesmo arde é nos ombros de quem não pode simplesmente passear sossegada.

O cansaço é nosso, de cada mulher, que não conhece na pele o direito de ir simplesmente indo.

Interação e tesão é uma maravilha, minha gente e isso não tem nada a ver com assédio, é simples, só complica quem não tá nem aí pra mulher ficar tranquila, pra quem acha que o normal é ser homem e que mulher é exótico, é detalhe, é enfeite.

Nossos passos são limitados por essa vigilância eterna.

A sorte é que a gente voa.

Publicado originalmente aqui.