OPINIÃO
15/02/2016 01:38 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Por que a Igreja Católica nos desrespeita ao continuar encobrindo denúncias de pedofilia

A Igreja Católica está sugerindo aos recém nomeados bispos que "não é necessariamente" o dever deles denunciar alegações de abuso infantil e que somente as vítimas e as famílias devem tomar a decisão de levar os casos à polícia.

Image Source via Getty Images

À luz do lançamento do filme Spotlight: Segredos Revelados, que trata de uma investigação de 2002 sobre os abusos sexuais infantis sistêmicos em instâncias da Igreja Católica, um guia de treinamento de bispos, detalhado na semana passada por um jornalista do Vaticano, prova que pouco tem sido feito para mudar o quadro dentro da instituição.

Para a igreja, bispos católicos não são obrigados a denunciar abusos sexuais de crianças por parte do clero.

A Igreja Católica está sugerindo aos recém nomeados bispos que "não é necessariamente" o dever deles denunciar alegações de abuso infantil e que somente as vítimas e as famílias devem tomar a decisão de levar os casos à polícia.

As recomendações são parte de um programa de treinamento com diretrizes para novos bispos, apresentado pelo jornalista do Vaticano John Allen, e ditam a maneira como os altos membros do clero devem lidar com as alegações de abuso.

Esse treinamento teve início em 2001 e tem sido feito por aproximadamente 30% dos bispos ingressantes.

As diretrizes atuais fazem apenas referências vagas a políticas de prevenção e tentam minimizar a seriedade do histórico de abusos sexuais infantis por parte de autoridades clericais.

De acordo com o The Guardian, mesmo reconhecendo que "a Igreja tem sido particularmente afetada por crimes sexuais contra crianças", o documento insiste em enfatizar estatísticas que mostram que a vasta maioria dos abusos é cometida por familiares e pessoas próximas das vítimas, e não por autoridades clericais.

Catorze anos após as investigações do Spotlight, é evidente que a instituição está longe de erradicar o problema e ainda tenta passar a imagem de que os incidentes não passam de casos isolados.

Além disso, o redator do guia de treinamento é ninguém menos que o consultor do Conselho Pontifício para a Família, o monsenhor francês Tony Anatrella, conhecido por seu posicionamento contrário à "teoria de gênero".

Para ele, a aceitação da homossexualidade nos países ocidentais está criando "sérios problemas" para crianças que estão sendo expostas a "noções radicais de orientação sexual".

Curioso também é o fato de que a Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores, criada pelo papa Francisco justamente para prevenir abusos, não está envolvida em nenhuma etapa desse treinamento.

Um oficial da Igreja familiarizado com a comissão disse ao The Guardian que a denúncia de abusos às autoridades é "uma obrigação moral, queira a lei civil ou não".

O Snap Network, um grupo de advocacia nos EUA para vítimas de abusos, tem sido muito crítico à postura do papa quanto ao assunto.

"É ultrajante e perigoso que tantos acreditem no mito de que bispos estão mudando a forma de lidar com abusos, e que tão pouca atenção seja dada quando fica evidente o contrário", disse o grupo em declaração.

As notícias vêm apenas dias depois que a comissão para abusos forçou a saída de um dos dois sobreviventes de abuso. Peter Saunders, sobrevivente e crítico da Igreja quanto a falta de ação, teve que sair do comitê após um voto de não credibilidade por parte do próprio papa.

Em 2014, o pontífice estimou que um a cada 50 clérigos é provavelmente pedófilo, num total de aproximadamente 8.000 padres globalmente. "Entre os 2% que são pedófilos estão padres, bispos e cardeais", teria dito o papa ao La Republica. "Muitos outros sabem mas ficam calados... eu considero isso intolerável", disse.

A entrevista foi depois desmentida pelo Vaticano, enquanto grupos de apoio a vítimas sugeriam que a porcentagem era ainda maior.

Mesmo alegando que não deve haver tolerância a abusos de menores e que "todo o possível deve ser feito para livrar a Igreja da praga dos abusos sexuais", o chefe da Igreja não parece ter sempre sustentado essa posição.

Em 2012, quando ainda era cardeal, ele disse ter aconselhado um bispo a suspender as licenças dos padres acusados e a começar um julgamento interno, longe dos olhares da opinião pública.

De acordo com um relatório da USCCB (conferência americana de bispos católicos), hoje a Igreja Católica gasta milhões de dólares por ano em medidas de proteção a crianças, o dobro do que gastava uma década atrás. O número de acusações é um terço do que era há uma década.

Terry McKiernan, fundador de um grupo que rastreia abusos, faz ressalvas ao avanço em entrevista ao Washington Post. "Ainda há muito a fazer. Eu prefiro que eles [a Igreja] não levem crédito por algo que relutaram tanto a fazer. Não foi uma inovação, eles foram forçados a isso", disse.

A Igreja Católica sempre teve um conflito entre suas relações públicas e as reais medidas de resolução de problemas. No esforço para deixar os impasses dentro de suas fronteiras, a instituição só atesta seu conservadorismo e o compromisso com a manutenção do próprio poder, sem mostrar preocupação real com as vítimas e com a responsabilização dos clérigos envolvidos.

Além disso, mostra um profundo desrespeito com a fé que milhares nela depositam, deturpando os valores sobre os quais se fundou.

LEIA MAIS:

- Como grupos religiosos freiam os avanços para descriminalizar o aborto

- Bispos católicos não são obrigados a denunciar casos internos de pedofilia, diz Vaticano

Também no HuffPost Brasil:

Galeria de Fotos As várias faces do papa Francisco Veja Fotos

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: