OPINIÃO
15/06/2018 15:13 -03 | Atualizado 15/06/2018 15:20 -03

Por dentro da resolução que regulamenta a terapia virtual

Uma nova resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) deve tornar o atendimento psicológico virtual uma realidade.

Zinkevych via Getty Images

O Brasil é o País com os maiores índices de ansiedade no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, e pelo menos 9% dos brasileiros sofrem com algum transtorno ansioso ou depressão. Além disso, até 2020, estima-se que a depressão será a doença que mais incapacita pessoas ao redor do mundo.

Se, por um lado, a atenção sobre o tema da saúde mental aumenta a cada ano, por outro, o atendimento psicológico permanece visto como um serviço apenas para a elite. A tecnologia, diante disso, pode servir como um atalho para quem nunca pensou em buscar a terapia.

Já pensou em fazer psicoterapia via plataformas digitais? Já se consultou com seu psicólogo via videochamada? Pois esta prática pode se tornar cada vez mais comum.

Uma nova resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) deve tornar o atendimento psicológico virtual uma realidade. A resolução CFP nº 11/2018, publicada pelo Diário Oficial em maio, elimina o limite de consultas digitais entre pacientes e psicólogos - que antes era de até 20 consultas -, e atribui ao atendimento online a mesma eficácia das consultas presenciais. A nova regra entra em vigor em novembro de 2018.

O objetivo da mudança é ajudar a democratizar o atendimento psicológico, e também facilitar a fiscalização de uma prática que já acontece pelos Conselhos Regionais de Psicologia. "O atendimento online poderia ser interessante, por exemplo, para caso o usuário esteja viajando, doente ou com alguma dificuldade de locomoção, e, de alguma forma, pode tornar desmistificar o acesso ao atendimento psicológico. Afinal, o serviço ainda é visto como elitizado", afirma Rosane Granzotto, psicóloga e conselheira do Conselho Federal de Psicologia.

Hoje, muitas clínicas e profissionais independentes já atendem seus pacientes ocasionalmente via internet. Há também startups que possibilitam o atendimento virtual, como Terapia de Bolso, Zenklub e Lüzz. Para Rui Brandão, médico e CEO da Zenklub, uma plataforma que funciona como um "Uber" que conecta psicólogos e pacientes, o sucesso do atendimento online ainda depende de uma quebra de tabus.

"Para muitas pessoas, ir a uma consulta com um psicólogo ainda carrega muito estigma. Muitas não estão dispostas a se deslocar para ir a um consultório. É claro, com o atendimento online, perde-se um cumprimento, um abraço e a proximidade do presencial. Mas, por outro, lado estamos trazendo o serviço para mais perto do cotidiano das pessoas. Em uma cidade como São Paulo, muitas vezes o paciente precisa de uma hora de deslocamento e paga caro por uma consulta particular. Também pode haver o estigma de ir até o consultório. Essa dificuldade de inserir o atendimento na rotina impede que as pessoas comecem ou deem continuidade ao tratamento. Vemos este tipo de serviço como uma porta de entrada ao sistema de saúde, para pessoas que não buscariam um especialista se não fosse pela plataforma", diz ele.

O Zenclub tem parcerias com mais de 100 psicólogos e, desde 2016, mediou cerca de 15 mil sessões por videoconsultas. Com o crescimento de transtornos de ansiedade entre adolescentes e jovens, principalmente, Rui acredita que a popularização do tratamento psicológico é mais do que necessária.

"Saímos de uma sociedade de estresse físico vindo do trabalho agrícola e fabril para um contexto de total estresse emocional e mental, onde as pessoas ficam 10 horas sentadas na frente de um computador ou onde passam parte do dia se relacionando com o trabalho", diz.

Barreiras Culturais

A migração dos consultórios para as telas, contudo, pode ser uma mudança de hábito difícil também para os psicólogos. "É uma mudança que interfere em uma prática de mais de um século de contato terapêutico presencial, porém a busca pela terapia online já é uma realidade", afirma Rosane, do CFP. Países como Estados Unidos, Austrália, Canadá e Reino Unido são alguns mercados que já regulamentaram práticas de saúde mental via plataformas, e que já adotaram o atendimento virtual em maior escala.

Um risco que se corre com a digitalização dos serviços psicológicos é a precarização da atividade dos psicólogos. Os valores das consultas virtuais tendem a ser consideravelmente mais baixos e, a longo prazo, podem vir a se tornar valores-padrão, o que por um lado torna a psicoterapia mais acessível, mas, por outro, exige que psicólogos trabalhem mais. "Se há alguma reação às plataformas em larga escala, esta se refere à exploração mercadológica dos serviços psicológicos, precarizando as condições de trabalho destes profissionais", explica a a psicóloga.

Situações de Emergência

Apesar de acabar com uma série de barreiras de acesso, o atendimento psicológico online não é indicado para situações de emergência e para pacientes em situação de crise. "Também é vedado o atendimento de pessoas e grupos em situação de violação de direitos ou de violência, devendo a prestação desse tipo de serviço ser executado por profissionais e equipes de forma presencial", explica Rosane Granzotto.

O sigilo, a proteção dos dados do paciente e a certificação dos psciólogos também devem ser rigorosos no atendimento virtual. O Zenklub, por exemplo, desenvolveu um padrão de criptografia para garantir a segurança das videochamadas, e também faz a checagem de credenciais dos psicólogos cadastrados. De acordo com o CFP, o contrato de prestação de serviços psicológicos deve conter, inclusive nos atendimentos virtuais, informações sobre sigilo e confidencialidade.

A terapia virtual não é um consenso. Diversas instituições defendem que a prática deve ocorrer apenas em situações temporárias e de exceção. "A população que não pode se deslocar para os consultórios presenciais tem sido muito beneficiada, uma vez que o atendimento não teria sido possível de outra maneira", explica ao HuffPost Brasil a psicanalista e professora Cláudia Catão Alves Siqueira, doutora em Psicologia Clínica e afiliada à Associação Americana de Psicologia.
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