OPINIÃO
15/01/2015 11:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Por que o assassinato de 17 franceses recebe mais atenção do que o assassinato de 2 mil nigerianos

E em um país onde a tragédia do Charlie Hebdo acontece todo dia, um país que vive em um estado constante de trauma, uma nação paralisada por grandes e pequenas tragédias, não vemos imagens de mobilizações das massas, condenações ou grandes demonstrações de solidariedade. Por quê? Porque o meu povo está cansado. Por que eles entendem muito bem que aqueles que têm a responsabilidade de proteger e servi-los não respeitam em nada a sua humanidade.

ASSOCIATED PRESS
FILE- In this Sunday April. 21, 2013 file photo taken with a mobile phone, a young girl stands amid the burned ruins of Baga, Nigeria. Hundreds of bodies — too many to count — remain strewn in the bush in Nigeria from an Islamic extremist attack that Amnesty International suggested Friday is the

Sim, você tem razão. A mídia ocidental não está dando a menor bola para a tragédia na Nigéria onde a estimativa é de que pelo menos 2 mil pessoas sejam vítimas de uma chacina provocada pelo Boko Haram, segundo as Nações Unidas e algumas autoridades locais. Na manhã deste terça-feira, a primeira página do jornal New York Times trazia duas matérias sobre a tragédia em Paris, o Washington Post também publicou uma matéria sobre o acontecido e o USAToday dedicou a maior parte de sua primeira página à França, pelo quarto dia consecutivo. Eu não acompanho notícias na TV aberta ou em canais de notícias exclusivos, mas com certeza eles seguem o mesmo padrão de cobertura.

Você pode concluir, como muitos já fizeram nas mídias sociais, que isso se deve ao viés racial inerente à mídia ocidental. Ou você pode adotar uma postura mais branda e dizer que a falta de cobertura não é intencional, principalmente pelo fato dos jornalistas mais próximos estarem muito distantes do local do massacre. Ou você poderia argumentar que os relatórios oficiais - que dizem que apenas 150 forma mortos - vieram do governo nigeriano, que já foi acusado várias vezes de subestimar o número total de vítimas com o intuito de minimizar a ameaça do Boko Haram.

No entanto, a sua revolta com a mídia ocidental pela falta de cobertura da chacina em Baga erra o alvo pelas seguintes razões:

A cobertura da mídia não impedirá a campanha sangrenta do Boko Haram (veja o caso do movimento #BringBackOurGirls).

Aumentar a conscientização sobre a situação não dará ao governo da Nigéria força de vontade para lutar contra o Boko Haram (veja novamente o caso do #BringBackOurGirls).

A elite política da Nigéria não valoriza a vida de seus compatriotas (evidente no caso do <#BringBackOurGirls).

Eu entendo. É difícil entender o por quê inúmeras horas de discussões, análises e primeiras páginas são dedicadas à morte de 17 pessoas, enquanto parece haver total silêncio e desrespeito pelas 2000 pessoas em Baga que foram caçadas, alvejadas, queimadas vivas e afogadas - em sua maioria crianças, mulheres e idosos que não conseguiam correr e fugir de seus algozes. Muitos estão revoltados não só com a brutalidade e barbárie do que aconteceu no norte da Nigéria, mas também com a enorme disparidade dos números da tragédia em Paris e o massacre em Baga.

Até DUAS MIL PESSOAS. Assassinadas. Abatidas. Exterminadas. Realmente é de enlouquecer.

Mas sejamos bem sinceros. Se a questão é o número de corpos, então onde está a nossa revolta coletiva e as primeiras páginas sobre o conflito na Síria e as pelo menos 200.000 vidas ceifadas nessa interminável guerra civil? Nesse mundo tão destruído e sem alento em que vivemos, nós só acabamos nos sujando com o esgoto das 'Olimpíadas da Tragédia Global' quando nos entregamos ao bate-boca sobre a cobertura da mídia e as incríveis disparidades das estatísticas. Isso não nos leva a nada.

Peço sua permissão para ser ainda mais sincera. Essa revolta contra a mídia ocidental é absurdamente simplista e inútil, pois ela só desvia a nossa atenção da elite política da Nigéria, que está com a barriga bem cheia da sua roubalheira, sendo cúmplice desse massacre e não dando a mínima para a morte das vítimas.

Saiba que enquanto você está tuitando toda a sua indignação sobre a falta de cobertura da chacina na Nigéria, o presidente nigeriano Goodluck Jonathan, comprovadamente um imbecil inútil, não pronunciou uma palavra sequer sobre o ocorrido e está super ocupado postando fotos de festinhas no Facebook.

Enquanto a sua ira pela falta de divulgação do massacre em Baga na primeira página da CNN cozinha em fogo brando, nosso governante imbecil e inútil enviou uma mensagem com suas condolências à França, chamando o ataque ao jornal Charlie Hebdo de um ato covarde. Ele se junta a outros membros de seu gabinete e outros representantes da elite política da África que ficaram em silêncio sobre o massacre em Baga mas que enviaram mensagens similares de solidariedade à França. Seis chefes de estado africanos estiveram presentes em Paris para demonstrar sua solidariedade à França.

Além do mais, os principais jornais da região, desde o Al Ahram no Egito ao Vanguard na Nigéria e o East African no Quênia, também parecem não querer se envolver muito nessa tragédia Africana. Para que a elite Africana não recebeu a mensagem com a hashtag #BlackLivesMatter (#AsVidasDosNegrosSãoImportantes).

E em um país onde a tragédia do Charlie Hebdo acontece todo dia, um país que vive em um estado constante de trauma, uma nação paralisada por grandes e pequenas tragédias, não vemos imagens de mobilizações das massas, condenações ou grandes demonstrações de solidariedade. Por quê?

Porque o meu povo está cansado. Por que eles entendem muito bem que aqueles que têm a responsabilidade de proteger e servi-los não respeitam em nada a sua humanidade.

Consequentemente, direcionar a indignação à mídia ocidental e não à Aso Rock e aqueles em Abuja que continuamente degradam e denigrem as vidas dos nigerianos é leviano e só presta um enorme desserviço às vítimas em Baga. Pois, a não ser que haja um direcionamento coletivo e continuo da nossa ira e demanda de justiça a Abuja, embasando as nossas análises e críticas contra o governo da Nigéria que tem permitido o avanço desse flagelo, as matanças e massacres continuarão impunes.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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