OPINIÃO
01/04/2015 19:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A Nigéria é um retrato da democracia

- via Getty Images
Women show their new electoral cards while queuing at a accreditation center in Abuja on March 28, 2015. After weeks of delays over an Islamic insurgency, Nigerians head to the polls on March 28 to elect a president for Africa's biggest economy. AFP PHOTO / STRINGER (Photo credit should read -/AFP/Getty Images)

Muhammadu Buhari derrotou o presidente Goodluck Jonathan para se tornar o novo presidente da Nigéria, segundo os resultados anunciados na terça-feira. É a primeira vez em 54 anos de história que um presidente se candidata à reeleição e não sai vitorioso.

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A comunidade internacional elogiou o processo eleitoral, considerado pacífico e justo, apesar de dificuldades técnicas e violência isolada. Isso é auspicioso não só para a Nigéria e para o continente africano, mas para todos aqueles que acreditam nos princípios da democracia e no direito de ir às urnas.

Temos de reconhecer a coragem e o heroísmo dos eleitores nigerianos. Em Borno, Estado do nordeste do país devastado pela violência do Boko Haram, o grupo terrorista ameaçou colocar bombas nos locais de votação e matar que ousasse ir às urnas. Ainda assim, na cidade de Maiduguri, capital de Borno, refugiados andaram quilômetros para votar. Uma das seções eleitorais teria testemunhado reuniões emocionantes entre pessoas que encontraram amigos que eles acreditavam ter sido vítimas de massacres do Boko Haram.

"Nesse momento, estou empolgado. Meus compatriotas me inspiraram, e sou grato por isso."

A população de Borno, cujas crianças foram roubadas e assassinadas em Chibok, cujos mercados foram bombardeados, cujas casas foram saqueadas, cujas mulheres foram estupradas, que sofreram as piores consequências da onda de violência do Boko Haram, manteve o queixo erguido. Centenas de milhares de pessoas rejeitaram o extremismo e exerceram o mais fundamental dos direitos humanos.

Imagens de perseverança e poder popular tomaram conta das redes sociais. Bisavós votaram.

Aqueles que não conseguiam caminhar eram ajudados por enfermeiros.

Os empreendedores aproveitaram para aumentar a renda vendendo comida e bebida.

Os jovens dançaram e cantaram. Muitos que não conseguiram votar no sábado voltaram no dia seguinte, graças à extensão do horário de votação, e esperaram horas pela sua vez.

A violência esporádica não os deteve. A chuva não os deteve. O calor não os deteve. As filas enormes não os detiveram. Intervenção militar e possíveis intimidações por parte de autoridades do governo Jonathan também não os detiveram.

"A violência esporádica não os deteve. A chuva não os deteve. O calor não os deteve. As filas enormes não os detiveram."

As cenas na Nigéria mostravam exatamente o que deveria ser o poder popular. Era bonita, era vibrante, e sinta-se à vontade para achar que sou inocente, analisando o evento através de lentes cor-de-rosa. A Nigéria não é um paraíso político idílico, você dirá, e eu concordo. Concordo que uma única eleição não vai recuperar uma naira que só despenca e uma economia em crise, não vai acabar com a corrupção insidiosa e certamente não vai fazer o Boko Haram desaparecer num passe de mágica. Para ser sincero, as opções de candidatos a presidente não eram exatamente empolgantes.

Jonathan vem sendo um presidente ineficaz desde 2010, e Buhari é um militar que orquestrou um golpe de Estado em 1983 e governou sem o consentimento democrático da população nigeriana até 1985. Consequentemente, a escolha dos nigerianos era entre um presidente ineficaz e um adversário com tendências ditatoriais. Essa qualificação, devo acrescentar, é contestada pelos seus correligionários, que acreditam que Buhari é um democrata que vai transformar o país.

Mas o que aconteceu no dia da eleição solidificou para mim a crença de que os nigerianos estão levando o país na direção certa. Do #OccupyNigeria em 2012, uma campanha nacional que forçou a mão de Jonathan quando ele tentou acabar com os subsídios dos combustíveis, ao #BringBackOurGirls em 2014, quando ativistas denunciaram Jonathan e forçaram seu governo a afirmar publicamente o valor da vida dos nigerianos, essa eleição é mais um exemplo que mostra que a população do país de fato está disposta a cobrar responsabilidade do seu governo.

Estão chegando ao fim os dias em que os nigerianos aceitavam passivamente a má administração, a incompetência e a elite cleptocrática. Um novo dia se aproxima, se é que já não chegou.

"Maior economia da África, como mais de 173 milhões de habitantes, a Nigéria é um indicador da viabilidade das outras democracias do continente."

E quer saber? Um novo dia na Nigéria significa um novo dia para a África. Maior economia da África, como mais de 173 milhões de habitantes, a Nigéria é um indicador da viabilidade das outras democracias do continente. Como diz um analista, a África segue o caminho da Nigéria. Uma eleição livre e justa, sem violência pós-eleitoral, vai encorajar democracias em crise em todo o continente. Com eleições tensas por vir este ano na Costa do Marfim, no Togo e em Burkina Faso, os nigerianos que votaram deram um exemplo para seus vizinhos.

Finalmente, a implicação da eleição nigeriana vai muito além da África. Além do imenso papel na luta global contra o terrorismo, a Nigéria é a 26ª maior economia do mundo. Mesmo com a crise atual, estima-se que a Nigéria tenha o maior crescimento per capita entre as economias emergentes entre 2010 e 2050.

Isso significa que o país com a maior população negra do mundo vai ter mais influência e poder de negociação na comunidade internacional. Isso é muito importante.

Além disso, com quase 80% do país arável e uma população jovem e empreendedora,uma Nigéria estável tem o potencial de ser uma produtora de alimentos para o mundo e ao mesmo tempo uma fonte de inovação.

"É a primeira vez em 54 anos de história que um presidente se candidata à reeleição e não sai vitorioso."

Talvez tenha sido essa crença no potencial do país que encheu de coragem os milhões que esperaram horas na filas e ignoraram o cinismo daqueles que não acreditaram em seu poder político. Espero que essa crença em nosso potencial e num amanhã melhor para a Nigéria continue a sustentar o país nos próximos dias. Rezamos por um período pós-eleitoral pacífico enquanto esperamos que Jonathan reconheça a derrota.

Não tenho como prever o futuro da Nigéria. A história tumultuada do meu país significa que tudo pode acontecer, e estou ansioso, temendo violência pós-eleitoral.

Mas, nesse momento, estou empolgado. Meus compatriotas me inspiraram, e sou grato por isso. Cada voto leva a democratização para mais perto de um mundo mais justo e menos desigual.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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