OPINIÃO
11/11/2015 20:24 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

#FirstHarassment é a prova de que sexismo não tem fronteiras

Traduzida para #firstharassment, a hashtag viajou o mundo e virou tema de matérias em sites, rádios e TVs em diferentes países como Inglaterra, Estados Unidos, Paquistão, Índia, Irlanda, Espanha, Portugal.

Em uma manhã de outubro descobri que alguns homens usaram suas redes sociais para escrever mensagens de cunho sexual para uma menina de 12 anos.

Ela é participante de um reality show de culinária chamado MasterChef Júnior, programa de TV que cujo elenco é todo infantil. Mas para esses desconhecidos, protegidos pelo seu anonimato na internet, ela já tinha idade suficiente para receber comentários sobre seu corpo e ser sexualmente desejada.

Foi detestável. E, para mim e para a maioria das brasileiras, foi... muito familiar.

Para contar a minha própria história em frente a um público de 450 pessoas - sem contar as câmeras que eternizaram o momento - durante minha palestra no TEDxSão Paulo, precisei juntar coragem.

Aos 11 anos, escutei comentários grotestos sobre meu corpo de um estranho na rua.

Falar sobre o primeiro assédio é sempre dolorido. Relembrar que minha infância foi injustamente atravessada por interações de cunho sexual dá raiva. Mas o pior é carga de culpabilização que a lembrança acompanha. "O que será que eu fiz para provocar isso?", me questionava. Vivo a vida como mulher, é a explicação.

Apesar da minha primeira experiência com o assédio ter acontecido na infância, foi apenas aos 27 anos que eu consegui falar sobre ele.

A motivação veio após uma amiga reclamar de assédio sexual em locais públicos em um post no Facebook. Foi quando tive forças para transformar aquela experiência em palavras. Naquele momento, decidi que não voltaria para um lugar de silêncio e medo.

Mas qual não foi minha surpresa quando alguns seres questionaram a veracidade do meu #PrimeiroAssedio? Como se a sexualização de meninas não fosse algo absolutamente normatizado na sociedade!

Assim, o caso MasterChef Júnior jogou luz em um problema absolutamente frequente, mas ignorado ou tratado como questão de menor importância.

A hashtag como meio de transformação

Uma menina de 12 anos se inscreve no programa de televisão, pois ama cozinhar. Na internet, homens se sentem atraídos por sua aparência e, ignorando sua idade, resolvem tecer comentários de cunho sexual sobre a criança. O fato gera revolta nas redes sociais, mas não é preciso ir longe para encontrar histórias parecidas: basta pedir para que as mulheres olhem para o próprio passado.

Quando elas são convidadas a contar a história da primeira vez que sofreram assédio, descobrimos que esse comportamento é muito mais comum do que se imagina - e só é preciso imaginar pois esse terror vive escondido sob um manto de culpa e segredo tecido pelo machismo para acobertar os homens e culpar as vítimas.

Não se pode lutar contra o que não acreditamos ou negamos ter acontecido. Uma engrenagem funciona para reverter a lógica e manter as vítimas no silêncio.

Essa engrenagem não é operada por um supervilão, mas se manifesta cada vez que somos convencidas de que reclamar é um exagero, que é preciso esquecer, que "o que passou, passou", e que reclamar disso é "vitimismo".

Quando somos vítimas desde os cinco anos de idade de um comportamento invasivo e desumano, então existe algo muito poderoso em se descobrir vítima.

É a partir daí que a mulher começa a se despir das mordaças: entende que o que aconteceu é errado, que o suporte que não recebeu ou teve medo de buscar na época são também frutos do machismo, bem como qualquer noção de que tivesse provocado ou permitido que o fato acontecesse.

Descobrem-se, enfim, vítimas de assédio sexual, ainda na infância. E, finalmente, podem enxergar com clareza que existe um culpado, e que esse culpado não é ela.

Tudo isso pode acontecer no momento em que ela descobre que não está sozinha. Por isso, criamos a hashtag #primeiroassedio no Twitter. Ali, eu, Juliana, dividi sobre meu primeiro assédio, aos 11 anos, e outros casos que ocorreram ainda na infância, pré-adolescência e adolescência. Convidamos nossas leitoras a fazer o mesmo.

Não é uma missão simples, indolor, fácil. Mas se apoderar da própria história é importante, de forma que a vítima assim se reconhece como vítima. Não é vitimismo. É o empoderamento de enxergar que a opressão é, de fato, uma opressão e não "parte da vida". Este é o primeiro e mais importante passo para a mudança.

A hashtag já foi replicada mais de 82 mil vezes, entre tweets e retweets.

Nós analisamos um grupo de 3.111 histórias compartilhadas no Twitter e chegamos à constatação de que a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos.

Sexismo sem fronteiras

Traduzida para #firstharassment, a hashtag viajou o mundo e virou tema de matérias em sites, rádios e TVs em diferentes países como Inglaterra, Estados Unidos, Paquistão, Índia, Irlanda, Espanha, Portugal.

Ainda mais mulheres compartilharam suas histórias que, por sinal, são muito semelhantes às nossas. Afinal, o sexismo não tem fronteiras. Ele independe de cor, religião, etnia, idade, forma física.

O caldo do assédio é a desigualdade entre gêneros, que gera um jogo de poder no qual a mulher não tem direito à cidade. E não falamos de São Paulo, Nova York ou Mumbai. Falamos de espaços públicos!

Porque, historicamente, esses espaços foram concebidos e construídos segundo uma perspectiva patriarcal, que não incluía as mulheres como beneficiárias.

Esta foi a largada de um movimento catártico e gigantesco de mulheres que, em até 140 caracteres, ajudaram a mostrar que o que aconteceu com a pequena cozinheira de 12 anos é a simples realidade de todas as meninas. E o quão absurdo é que uma criança tenha que passar por isso.

Leia mais no blog da Olga.

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