Opinião

'Se não começarmos a construir um diálogo, tenho dúvidas se poderemos sobreviver ao caos'

Acabei de finalizar um curso sobre revolução cognitiva com o Nepô, engajado professor carioca que vem tentando travar uma batalha pela melhor uso da tecnologia para resolver problemas enfrentados pela complexidade demográfica: em pouco mais de 100 anos, passamos de uma população de 2 para 7 bilhões de pessoas.
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I'm from the Glasgow area originally but lived in Edinburgh the last twenty years, back home at the moment taking care of my dad after hospital stay, had little trip into the city centre this afternoon to get out for a wee while, taking some street scenes and being reminded just how vastly busier Glasgow is than Edinburgh on a Saturday...
I'm from the Glasgow area originally but lived in Edinburgh the last twenty years, back home at the moment taking care of my dad after hospital stay, had little trip into the city centre this afternoon to get out for a wee while, taking some street scenes and being reminded just how vastly busier Glasgow is than Edinburgh on a Saturday...

Acabei de finalizar um curso sobre Revolução Cognitiva com o Nepô, engajado professor carioca que vem tentando travar uma batalha pela melhor uso da tecnologia para resolver problemas enfrentados pela complexidade demográfica: em pouco mais de 100 anos, passamos de uma população de 2 para 7 bilhões de pessoas.

Toda a discussão no Clube do Nepô tem sido de grande valia, pois me faz enxergar de fora e de cima o que estamos vivendo. Ele usa uma metáfora para explicar o mundo atual: imagine duas cidades sem conexão entre si. Entre elas um vale imenso, impossível de transpor.

De repente, alguém constrói uma ponte. O que muda?

Se uma das cidades é pacata e a outra agitada, as características de cada uma delas começa a ser incorporada na outra. Produtos, serviços, empreendedores, assassinos e ladrões ganham passe livre para ir e vir. Essa é a internet na nossa vida, essas são as novas tecnologias que inventamos para conectar ideias e pessoas. Tudo está conectado e quanto mais partes tem um sistema, quanto mais ligações existem, mais a complexidade aumenta.

Saímos de um mundinho linear para um mundo extremamente complexo, com muito mais gente falando, buscando, consumindo e produzindo, tudo ao mesmo tempo. A pergunta é: como lidar com isso?

"Não há regras simples para lidar com o que é complexo." Yaneer Bar-Yam.

Presidente fundador do Instituto de Sistemas Complexos da Nova Inglaterra, desde 1980, Bar-Yam desenvolve uma grande variedade de modelos quantitativos para comportamentos do sistema complexos, tais como a dinâmica de rede, a instabilidade do mercado e as crises globais de alimentos, entre outras. Ele diz que todo sistema complexo tem duas características: a escala e a complexidade, e para explicar, faz uma analogia com os sistemas de proteção do corpo humano.

"De um lado, temos o sistema neuromuscular que age por escala - cérebro comandando nervos que acionam músculos que movem ossos. A lógica é hierárquica, centralizada e linear - o cérebro manda, nervos e músculos obedecem, todos juntos, orquestrados, somando esforços numa mesma direção, para gerar uma ação em grande escala (defender de um soco, por exemplo).

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Do outro lado, temos o sistema imunológico que lida com a complexidade - glóbulos brancos independentes agindo cada um por conta própria e em todas as direções - que serve para nos defender de inimigos minúsculos, tais como bactérias, vírus e fungos. Cada célula age com liberdade e se comunica com as outras, o que gera milhões de ações a cada segundo, uma diferente da outra, cada uma delas microscópica, em pequena escala - e o resultado final é uma imensa complexidade, com o corpo protegido de uma quantidade quase infinita de possíveis ameaças."

Para viver saudável é preciso ter os dois sistemas: neuromuscular e imunológico. Não há nada que um bíceps forte possa fazer para matar uma bactéria, assim como glóbulos brancos sarados são inúteis numa briga.

É assim com todo sistema complexo: precisamos de algo hierárquico para lidar com a escala das coisas, e de algo conectado em rede para a complexidade.

Lidar com o sistema de escala é confortável para nós. Desde Henry Ford, já experimentamos, erramos, acertamos e por isso sabemos como agir. Mas no novo sistema complexo, ainda estamos tateando no escuro.

Na educação, o ensino padronizado já não combina com alunos desatentos e ansiosos para produzir e participar. Algumas soluções? Transformar professores em facilitadores, ouvir mais os alunos, valorizar as diferenças e usar a tecnologia em sala de aula.

No mundo corporativo, para vencer a alta rotatividade e desmotivação de funcionários, as corporações estão, pouco a pouco, levantando a bandeira do protagonismo, do senso de dono, da capacitação e da meritocracia.

Temos visto manifestações, panelaço, muita gente querendo, de forma equivocada e ainda confusa, gritar por sua participação nas decisões que afetam suas próprias vidas. Isso é o sistema complexo: cada pessoa tentando, cada um a seu jeito, vencer as ameaças que chegam por todos os lados.

Tudo o que existe hoje vai sofrer alguma mutação diante da revolução cognitiva e estamos no meio da mudança. Estamos tateando no escuro porque não temos repertório anterior. Essa mudança é dolorosa porque exige mudar a cultura, mudar a essência, acabar com a dependência e ganhar autonomia.

Mas nossa educação não cria autonomia, nosso governo não cria autonomia, nossas leis não dão autonomia, as empresas não sabem lidar com autonomia. Como indivíduos, não aprendemos a ser autônomos.

Autonomia exige pensamento estratégico, exige analisar o que deu certo, o que deu errado, ter opinião sobre as coisas, ter repertório e mais do que nunca, estar aberto a ouvir outras análises. Justamente por isso, a ferramenta mais importante para a autonomia é o diálogo.

Quais as premissas para estabelecer o diálogo? Estamos preparados para essa mudança?

Um bom diálogo deve ser útil para todos.

Ou seja, deve partir de problemas e necessidades de todos. Se as pessoas não se enxergam no assunto, simplesmente perdem o interesse.

Ouvir passa a ser mais importante que falar.

Quantas vezes o outro está falando e nós, ao mesmo tempo, ficamos "matutando" qual será a resposta perfeita? No diálogo real é preciso abrir mão da individualidade e levar em consideração a experiência de todos. A riqueza está justamente na construção em conjunto.

O resultado do diálogo é um processo que ninguém consegue controlar.

Quando dois ou mais lados estão trazendo informações e você está realmente aberto à experiência de troca é impossível saber onde vai dar. A solução provavelmente não vai ser nem a que você queria, nem a que o outro queria, mas uma junção de ambas as ideias. Você fala, o outro fala e a solução vocês constroem juntos.

Justamente por isso, cada diálogo é único e nunca mais vai se repetir.

A complexidade está aí, escancarada, só não vê quem não quer. Se realmente não começarmos a ouvir e construir um diálogo real que ajude a desconstruir o modelo atual e reconstrua junto os novos caminhos da humanidade, tenho dúvidas se poderemos sobreviver ao caos.