OPINIÃO
02/06/2014 14:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Comunicação, simplicidade e Amyr Klink

Amyr não usou vídeos, nem animações e nem textos em seus slides, somente fotografias. Cada foto criou conexão visual e nos levou a navegar em suas histórias. Os detalhes tornaram palpáveis cada momento. Sem isso, não teríamos nos envolvido tanto.

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PARATY, BRAZIL - JULY 03: Brazilian expeditionist Amyr Klink rides a boat on July 3, 2009 in his hometown of Paraty, Brazil. (Photo by Marina Klink/LatinContent/Getty Images)

Esse é o meu primeiro post aqui e confesso que fiquei nervosa. Em primeiro lugar, porque é uma oportunidade muito bacana, e em segundo, porque é uma responsabilidade enorme fazer algo que contribua, provoque ideias e reflexões.

Nesse ínterim, já escrevi 4 textos, mas hoje aconteceu algo que me fez decidir de vez sobre o que escrever.

Hoje assisti a uma palestra do navegador Amyr Klink. O que vi nela me fez perceber o quão significante e inspiradora pode ser uma apresentação quando junta ingredientes como simplicidade, fotografias e boas histórias. Isso ele faz muito bem.

Apesar de um currículo impressionante, Amyr se ateve a contar suas aventuras de maneira muito singela, com exemplos que demonstraram sua percepção diferente sobre o mundo. Não usou textos, números, não se vangloriou e nem sequer escreveu seu nome no slide. Tudo bem, ele pode, mas poderia ter sido diferente.

Em sua palestra, ele nos chama a atenção sobre as tecnologias que surgem da necessidade cotidiana e que isso, só se consegue vivendo a realidade.

Para ilustrar, ele fala sobre a diferença entre ver uma foto de milhões de pinguins-reis reunidos e de estar realmente entre eles - como adendo ele explica que as fotos são de sua mulher, Marina, que se especializou em tirar fotos de pinguins-rei. Amyr comenta que o mais relevante nessa hora é o cheiro das milhões de fezes ao redor. Um cheiro que entra na alma e causa a falência de suas narinas em 5 minutos. Um cheiro único, indescritível e que ele deseja ardentemente sentir todos os anos, pois vicia. Descreve também como é ouvir milhões de filhotes gritando por seus pais até que enfim, se encontrem.

"O que mais me impressiona nos pinguins é a fragilidade individual, mas juntos eles conseguem sobreviver e por isso se unem."

Por trás de cada história tem um aprendizado, tem uma frase que fica na cabeça e cria identificação com cada pessoa na plateia.

"A gente nunca supera o medo. Apesar de você ser muito bom no que faz, está sempre sujeito a errar e, por isso, é importante descer do salto alto para não se machucar. Quanto mais se sabe, mais se tem para aprender. Esse é o desafio".

Ser pessoal e trazer sua esposa para a apresentação humanizam o conteúdo. Dessa maneira, ele mostra que é "gente como a gente", algo essencial para criar conexão.

Em outro momento, Amyr define: "Tecnologia é a capacidade do ser humano de usar o que conhece para fazer coisas novas e nunca estivemos tão atrasados porque o conhecimento está todo aí, mas estamos muito aquém do que podemos fazer."

Novamente ele vem com uma história para ilustrar seu ponto: "Em uma viagem para uma cidade litorânea assisti a uma corrida de canoas. Fiquei tão impressionado com a velocidade alcançada e simplicidade das canoas que quis comprar uma delas. Ninguém vendia: eles precisavam delas pra viver."

Com pitadas de bom humor, Amyr descreve com detalhes a saga que foi comprar um pau para construir a canoa, depois achar quem fizesse a canoa e, por fim, a discussão com o rapaz que a fez, sobre a altura da proa (mais de 3 metros), que ele achava totalmente desnecessária. Quando a canoa ficou pronta, ele precisou levá-la ao Rio de Janeiro e foi justamente a altura da proa que salvou sua vida no trajeto quando ele enfrentou uma tempestade. No meio de ondas de 6 metros, nenhuma gota entrou na canoa. O engenheiro naval que estava junto, em meio a tempestade, impressionado com a tecnologia da canoa, gritava: "Temos que levar esse rapaz para o Rio de Janeiro para estudar na universidade!". E Amyr, apesar de só pensar que iria morrer tão perto de casa, depois de ter feito 22 viagens para a Antártica, gritou de volta: "Temos é que levar os professores da universidade pra aprender com o rapaz!"

A necessidade: os rapazes da região aprendem sobre canoas com os antigos porque querem sair para festas, e de canoa é mais rápido para chegar. Daí, tiramos uma conclusão brilhante: o conhecimento não está mais preso na academia e sim na prática, ou seja, nas descobertas feitas a partir da necessidade cotidiana.

De maneira muito simples, Amyr descreveu o principal diferencial da MIT - (Massachusetts Institute of Technology), considerada hoje a melhor universidade de tecnologia do mundo: pensamento e prática precisam andar juntos. E ele nem precisou falar isso!

Mas vejam o poder dessa história! Quando eu estava na palestra não anotei nada, mas lembro de tudo e só escutei uma única vez. Por que eu gravei? Porque a história foi simples e tinha elementos visuais que me ajudaram a lembrar de um ponto que amarra outro ponto.

A partir da canoa, da dificuldade em construí-la, foi possível amarrar todos os detalhes. Os conflitos instigaram o pensamento e criaram envolvimento e compreensão. Nem preciso dizer que o público nem piscava nesse momento.

Amyr não usou vídeos, nem animações e nem textos em seus slides, somente fotografias. Cada foto criou conexão visual e nos levou a navegar em suas histórias. As pitadas de interpretação e emoção em sua voz nos guiaram em seu veleiro, fazendo com que nos apaixonássemos por cada aventura. Os detalhes tornaram palpáveis cada momento. Sem isso, não teríamos nos envolvido tanto.

No fim de tudo, Amyr nos presenteia com o grande desafio de sua vida: a capacidade de juntar pessoas. Ele nos diz que tecnologia, planejamento, engenharia, logística e orçamento é fácil, o difícil é criar em cada pessoa o orgulho de fazer aquilo que se faz e fazer bem feito.

É a necessidade que cria essa paixão e na comunicação, é a paixão que ajuda a criar a necessidade.

Obrigada Amyr Klink

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