OPINIÃO
26/03/2014 13:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

O profundo desconhecimento da epidemia

É razoável existir algum descompasso entre o conhecimento leigo e o que os médicos e cientistas sabem. Eu mesmo era um completo ignorante a respeito de HIV e aids e, quando recebi o diagnóstico positivo, morri de medo de meu futuro. Foram preciso horas e mais horas de conversa com meu médico e tantas outras de pesquisa em fontes confiáveis para que esse medo diminuísse ou fosse delimitado ao seu devido lugar. No entanto, com o que aprendi desde então, percebi que no que diz respeito ao HIV e aids o descompasso do conhecimento leigo entre o médico e científico é gigantesco. Melhor dizendo, é abissal. E é aqui que nasce o medo injustificado, responsável pelo estigma, o preconceito e a discriminação. Agora, já é tempo disso tudo acabar.

Nas últimas semana, esteve bastante em pauta uma conversa entre os participantes do "BBB14", na qual ficou claro o profundo desconhecimento a respeito da epidemia, da vida de um soropositivo nos dias de hoje e do risco de transmissão do vírus. Um dos participantes disse que uma pessoa que vive com HIV "geralmente não dura mais de 40 anos", ao que uma participante sugeriu "matar todo mundo". Por fim, ela ainda diz-se irritada pelo fato da origem da doença ter vindo por "um idiota que foi transar com um macaco."

Vamos por partes. Sim, o HIV veio de fato do macaco, mas não necessariamente por via sexual. Acredita-se que o hábito de algumas tribos africanas de se alimentarem deste animal, em processos que envolviam grande contato com seu sangue, é que tenha possibilitado a mutação do SIV, o vírus da imunodeficiência símia, para o HIV, o vírus da imunodeficiência humana. Como se sabe há algum tempo, a proximidade do homem com qualquer animal é sempre passível de criar condições de adaptação de vírus e bactérias entre as espécies, tal como aconteceu recentemente com as gripes suína e aviária.

Já a sugestão de "matar todo mundo" para acabar com a epidemia não é tão simples assim. Ela teria de vir acompanhada de testagem compulsória de todo e qualquer ser humano. Afinal, acredita-se que para cada soropositivo diagnosticado existam três que não foram diagnosticados. Com isso, surgem aqui dois problemas. O primeiro é o mais evidente: em grande parte do planeta, costuma ser ilegal matar, que dirá matar portadores de enfermidades. Em segundo, pelo menos no Brasil, também é ilegal realizar a testagem compulsória e inclusive exigir o teste de HIV para admissão em emprego ou contratação de qualquer bem e serviço.

Matar apenas os voluntariamente diagnosticados também não resolveria em nada. Pois, como já é sabido pela comunidade médica e científica, aqueles que fazem o diagnóstico e se cuidam não são o problema. Ao contrário: aqueles que vivem com o vírus e não sabem, pois não fazem o teste de HIV e portanto não se cuidam, é que são os maiores responsáveis pela transmissão do HIV. E digo isso sem qualquer exagero e com respaldo de importantes pesquisas científicas.

Dois grandes estudos, HPTN 052 e PARTNER, têm mostrado que o tratamento antirretroviral "reduz drasticamente a transmissão do HIV", conforme explica o pesquisador, infectologista e imunologista (e meu médico), Dr. Esper Kallás. Segundo ele: "No estudo HPTN 052, dos 39 casos de pessoas que contraíram o vírus, 11 se infectaram de outra pessoa que não seu parceiro sexual fixo que estava no estudo. Isso foi comprovado com análises genéticas do vírus, num procedimento restrito à pesquisas científicas. A conclusão é que é fundamental sempre fazer sexo com proteção, independentemente da pessoa com quem se relaciona. Ainda assim, a única infecção que aconteceu em quem era parceiro de alguém positivo para o HIV e que vinha se tratando se deu na fase inicial do uso dos remédios, quando a quantidade de vírus ainda vinha diminuindo. Isso reforça a clara relação entre a quantidade de vírus no corpo e a possibilidade de transmissão."

Vale lembrar que o HPTN 052 analisou mais de 1750 casais sorodiscordantes (quando apenas um dos parceiros é positivo para o HIV) ao longo de 78 semanas. O PARTNER, por sua vez, inclui 800 casais sorodiscordantes nos quais o parceiro soropositivo faz tratamento antirretroviral há pelo menos cinco anos. Estes já relataram mais de 30 mil relações sexuais, muitas das quais sem preservativo. E, até agora, em dois anos de estudo, não foi identificado um único caso sequer de transmissão do HIV entre os participantes. Ambos os estudos contrariam bastante a cartilha da Fifa que recomenda a abstinência sexual como forma de evitar o HIV -- e segue sendo distribuída nas escolas, mesmo indo contra a postura brasileira nas ações de prevenção, a qual sempre teve como base o uso do preservativo.

Mas o mais curioso desta discussão que se deu no "BBB14" é que ela é muito similar ao que se sucedeu em 1987, numa pequena cidade de 5600 habitantes do estado da Virgínia Ocidental, nos EUA. À época, o jovem Mike Sisco tinha acabado de ser diagnosticado positivo para o HIV e retornava para sua cidade com o objetivo de passar seus últimos dias ao lado da família. Com o calor, ele resolveu dar um pulo na piscina pública da cidade, o que acabou gerando um grande alvoroço: mães correram para tirar seus filhos da água e o prefeito ordenou a interdição da piscina, para esterilizá-la. A história ganhou grande repercussão e foi parar na TV, no programa de Oprah Winfrey, onde um médico foi convidado para participar e esclarecer à população que Mike não representava uma ameaça. Mesmo assim, neste programa que aconteceu há 27 anos, pelo menos dois dos moradores entrevistados sugeriram que soropositivos deveriam ser colocados em quarentena, e um deles acrescentou que, feito isso, "a natureza cuidaria de extinguir todos os portadores do vírus da face da Terra." Mike Sisco terminou por deixar a cidade e viveu ainda por mais sete anos.

Desde então, o tratamento melhorou enormemente e a nossa expectativa de vida também. Hoje, contrariando o brother, não é verdade que um soropositivo "não dura mais de 40 anos". Um estudo recente analisou 22.937 participantes e concluiu que, pelo menos no continente norte-americano, a expectativa de vida dos soropositivos já é quase a mesma dos soronegativos. Uma das exceções, isto é, os que ainda não tem a expectativa tão próxima do normal, diz respeito ao grupo no qual eu estou inserido: aqueles que iniciaram o tratamento antirretroviral com contagem de células CD4 do sistema imune, as mais afetadas pelo HIV, em número menor que 350. A contagem saudável dessas células é de pelo menos 500 e sua quantidade costuma decair de acordo com o tempo de exposição sem tratamento ao vírus. Ainda assim, conforme explica o Dr. Esper, "este é um assunto em evolução, já que os avanços vêm se acumulando ano após ano. Isso significa que teremos que constantemente rever os dados de expectativa de vida, cuja tendência é a de se equiparar com os que não vivem com HIV."

Com tudo o que aprendi a respeito de HIV e aids desde meu diagnóstico, entendo que a melhor forma de controlar a epidemia é usando camisinha, inclusive debaixo dos edredons da casa mais vigiada do País. E paredão, só mesmo dentro do BBB. Fora dali, eliminar quem quer que seja não é a solução. Ao contrário: é preciso motivar o maior número de pessoas a cuidarem de sua saúde, fazendo voluntariamente o teste de HIV. Para tanto, todo indivíduo precisar ter consciência de que existe vida depois de um eventual diagnóstico positivo e que, conforme a Dra. Rosana Richtmann explicou aos brothers, essa vida pode sim ser completamente normal. Para isso, quanto antes for feito o teste de HIV, melhor. "Fazer o teste é o método mais efetivo para controlar a doença: diminui a mortalidade de quem tem o vírus e reduz o risco da transmissão", afirma Alexandre Grangeiro, sociólogo que atua na área da prevenção na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, em uma excelente matéria publicada no portal MdeMulher.