OPINIÃO
11/07/2014 09:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:22 -02

Mississippi em lágrimas

SIA KAMBOU via Getty Images
A laboratory employee holds a sample from a person living with HIV in a laboratory at the AIDS Research Center of the Treichville hospital in Abidjan on on September 13, 2013, after the launch in the Ivorian capital of the Unitaid-funded project OPP-ERA, which aims at improving HIV monitoring through more affordable access to HIV viral load testing (VLT) for HIV patients and early infant diagnosis. Ivory Coast is the first country in Africa to join the two-year project, implemented by a consortium of French partners. AFP PHOTO/ SIA KAMBOU (Photo credit should read SIA KAMBOU/AFP/Getty Images)

As lágrimas não foram só na Copa. Nos últimos dias, pesquisadores que acompanham a "bebê do Mississippi", suposto caso de cura ou remissão do HIV, encontraram sinais do vírus em seu organismo. Depois de mais de dois anos sem fazer uso da terapia antirretroviral, a criança, hoje com 4 anos de idade, apresenta carga viral, que é a quantidade de vírus medida no sangue, detectável.

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A criança nasceu prematuramente numa clínica do Mississippi, em 2010, a partir de uma mãe portadora do HIV que só foi diagnosticada positiva para o vírus no momento do parto e, portanto, não recebeu tratamento antirretroviral adequado durante a gestação. Se uma mãe portadora do HIV é tratada adequadamente durante a gravidez e o parto, a quantidade de vírus no sangue é suprimida para abaixo dos níveis detectáveis e a chance dela transmitir o vírus para o bebê é inferior a 1%. Infelizmente, isso não aconteceu nesse caso e a criança começou a tomar antirretrovirais. Entretanto, no caso dela, houve uma pequena e fundamental diferença.

Em geral, bebês recém-nascidos de mães soropositivas não tratadas recebem doses menores de antirretrovirais para prevenir a infecção. Isso é feito com objetivo de evitar a exposição desnecessária da maioria dos recém-nascidos que não são infectados -- em torno de 75% -- às possíveis toxicidades de uma terapia mais poderosa em seus pequenos organismos. Até o caso da bebê do Mississippi, o senso comum vinha ditando que evitar regimes mais tóxicos em bebês não infectados superava os benefícios da terapia agressiva nos infectados, uma vez que entendia-se que eles não seriam curados de qualquer maneira.

No entanto, a Dra. Hannah Gay, astuta pediatra da bebê, pensou diferente. Julgando que a recém-nascida estava sob alto risco de infecção, ela tomou a ousada decisão de colocá-la imediatamente sob a terapia completa de drogas antirretrovirais. A bebê recebeu o agressivo tratamento já com 30 horas de idade, mesmo antes dos resultados de seus testes de HIV -- os quais, alguns dias depois, confirmaram que ela havia sido infectada ainda no útero. A bebê foi então mantida em terapia antirretroviral, mas o tratamento foi descontinuado aos 18 meses, quando a mãe interrompeu temporariamente suas visitas de acompanhamento.

A Dra. Hannah Berry Gay, pediatra da Universidade de Mississippi. (Jay Ferchaud/AP)

A surpresa veio 5 meses depois, quando a bebê foi novamente avaliada e, mesmo com a prolongada interrupção do tratamento, o HIV não foi detectado. Ao longo dos 3 anos seguintes, sob acompanhamento de médicos e cientistas, a criança não apresentou qualquer sinal da infecção pelo HIV, mesmo sem tomar remédios antirretrovirais. Este resultado surpreendente levantou a esperança de que uma cura tinha sido alcançada e, melhor, que esta poderia ser replicada em outros casos semelhantes de recém-nascidos.

Com isso, o National Institutes of Health, órgão americano que financia diversas linhas de pesquisa da cura da infecção pelo HIV, planejou um estudo clínico controlado em 12 países. O objetivo é replicar os resultados obtidos com a bebê do Mississippi em outras crianças expostas ao HIV ainda no útero, além de aumentar o entendimento sobre como buscar a cura em adultos, particularmente aqueles que são tratados no início de suas infecções.

Agora, os pesquisadores envolvidos neste ensaio clínico terão de levar a reviravolta em conta: durante a última visita médica de rotina, descobriu-se que a bebê do Mississippi voltou a ter sinais da presença do HIV. Ela não está curada. O exame de carga viral, repetido e confirmado, detectou 16.750 cópias de vírus por mililitro de sangue. Além disso, suas células CD4 do sistema imunológico, as mais afetadas pelo HIV, diminuíram de quantidade, num claro sinal de que a infecção pelo HIV voltou a se estabelecer. Também foi feito um sequenciamento genético do vírus, o qual indicou que a infecção da criança é a mesma daquela adquirida da mãe, anos atrás.

Segundo o Dr. Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, esta "certamente é uma reviravolta decepcionante para a criança, a equipe médica envolvida em seu atendimento e para a comunidade que pesquisa HIV/aids. Cientificamente, este acontecimento nos faz lembrar que ainda temos muito mais a aprender sobre os meandros da infecção pelo HIV e onde o vírus se esconde no corpo. O National Institutes of Health continua empenhado em avançar com a pesquisa da cura para a infecção pelo HIV."

A criança voltou a tomar os medicamentos antirretrovirais e a última informação é a de que ela passa bem, sem sofrer com efeitos colaterais. Ela continua a receber acompanhamento médico da Dra. Hannah Gay, especialista em HIV pediátrico do Centro Médico da Universidade do Mississippi, em Jackson, e quem esteve envolvida nos cuidados da criança desde o seu nascimento.

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