OPINIÃO
23/04/2015 15:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:53 -02

É hora de nos comunicarmos melhor

Vivemos na era do viés de confirmação, algo que vai na completa contramão do método científico. Se queremos avançar a discussão e o nosso entendimento a respeito do mundo, precisamos romper essa bolha. Mas como vamos fazer isso? Como fazer para que informações novas e desdobramentos científicos sejam reconhecidos ou, ao menos, ouvidos com a justa atenção que merecem? Como convencer os céticos de que existe uma outra perspectiva apontada pela ciência?

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Quando fui diagnosticado soropositivo para o HIV, em outubro de 2010, percebi que passei a fazer parte de um novo grupo, das pessoas que vivem com o vírus e, também, de alguns médicos, enfermeiros e cientistas que estão próximos de nós. Uma vez parte desse grupo e sendo impossível dele me separar até que descubram a cura, me pareceu natural procurar entender meu novo meio, compreender essa nova realidade à minha volta. Percebi que ela é muito sustentada e amparada pela ciência. Precisamos dela. A minha vida e a vida de todas as pessoas que vivem com HIV depende dela.

Cada novo medicamento, cada descoberta, cada passo em direção à sonhada cura, é acompanhado por muitos de nós. Com isso, aprendi um pouco sobre as pesquisas e a metodologia científica. Percebi o quão defasado era o meu conhecimento sobre HIV/aids antes do diagnóstico e que hoje, quatro anos depois de receber o resultado positivo, as coisas continuam assim para a maioria das pessoas soronegativas, aquelas que não vivem com HIV. Muitos não têm ideia dos avanços da ciência nessa área. Longe disso, até duvidam dela. E, por isso, a reportagem de capa da National Geographic deste mês de abril de 2015 veio a calhar.

"Vivemos em uma época na qual todo tipo de conhecimento científico - desde a segurança do flúor e das vacinas até a realidade das mudanças climáticas - enfrenta oposição organizada e, muitas vezes, virulenta. Acirrados por fontes de informação próprias e por interpretações peculiares de pesquisas, os contestadores declararam guerra ao consenso dos especialistas."

O artigo também lembra que foi seguindo este raciocínio que, no filme Interestelar, a Nasa do futuro é mostrada como uma organização obrigada a trabalhar na clandestinidade: ninguém nem sabe que ela existe. O mundo passou a ser um lugar reinado pelas crenças leigas, incrédulas do conhecimento científico, incluindo total descrédito, por exemplo, pela viagem do homem à Lua. É oculta no subsolo que a Nasa modifica geneticamente as plantas para que resistam às pragas cada vez mais combativas, que aniquilam nossas últimas fontes de alimento, e constrói foguetes para nos levar para longe da morredoura Terra a algum lugar habitável no espaço.

Mas não é fácil subir até as estrelas. Antes, é preciso vencer a gravidade, a força que gruda nossos pés no chão e que, como consequência, nos impede de perceber o mundo tal como ele é de verdade: uma esfera. Por milhares de anos, nosso planeta foi tido como plano e quadrado. Contava-se histórias de que monstros marinhos habitavam nas beiradas do desconhecido e engoliam os desbravadores que ousassem chegar até lá. Aparentemente, foi só com a experiência do navegador português Fernão de Magalhães, que fez a primeira viagem de circum-navegação ao globo de que se tem notícia, entre 1519 e 1522, que a teoria de um mundo plano foi por água abaixo. O medo dos monstros que habitariam na linha do horizonte mostrou-se imaginário, e não real. (A primeira observação direta de que a Terra é redonda só viria muito depois, com o astronauta russo Yuri Gagarin, que em 12 de abril de 1961 foi o primeiro homem a ir para o espaço e dizer: "A Terra é azul".)

Superada a teoria da Terra plana, uma coisa ainda permanecia indiscutível: nosso planeta era certamente o centro do universo. O mundo gira ao nosso redor, e não o contrário. Como poderia ser diferente? A observação direta comprova isso: vemos o Sol e Lua em movimento no céu, e uma Terra parada. É o senso comum.

"No princípio do século 17, ao sustentar que a Terra gira em seu próprio eixo e também ao redor do Sol, Galileu não estava apenas rejeitando a doutrina oficial da Igreja. Estava pedindo às pessoas que não acreditassem em algo que não se encaixava no senso comum -- afinal, as aparências, sem dúvida, mostram o Sol girando em torno da Terra e, além disso, não dá para sentir o planeta rodopiando em seu eixo."

Dito isso, você deve se lembrar do que aconteceu com Galileu: quase foi levado à fogueira. 359 anos depois, a mesma igreja que o condenou reconheceu estar errada. Hoje, podemos até achar absurdos os questionamentos dos nossos antepassados a respeito das descobertas científicas de suas épocas. Quem sabe, até dar risada de suas ideias antiquadas. Mas podemos ter certeza que, diante das descobertas atuais, não continuamos fazendo exatamente a mesma coisa que nossos antepassados faziam?

Ainda hoje, uma legião de pessoas é contra a vacinação, tem dúvidas a respeito da fluoretação da água, do aquecimento global, da viagem do homem à Lua e, alguns, chegam a questionar a real existência do HIV ou negam a sua relação como agente causador da aids -- mesmo décadas depois do surgimento da terapia antirretroviral e de seu incontestável sucesso em evitar milhares de mortes decorrentes da doença. "Há um limite para o debate de ideias, especialmente quando se aplica à saúde pública", diz o Dr. Esper Kallás, meu médico infectologista e professor associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP. "É legítimo questionar se a vacina contra o sarampo é eficaz? Deveríamos debater o estímulo ao cigarro em escolas? Ou o uso do amianto em incubadoras de berçários? É preciso ter o mínimo de bom senso quando se fala de um assunto tão grave em saúde pública."

Isso quer dizer que assuntos como este não deveriam nunca ser questionados? "Todo mundo deveria questionar", disse Marcia McNutt, editora da revista Science, para a National Geographic. "Mas todos deveriam recorrer ao método científico, ou confiar naqueles que usam o método, para se posicionar em relação a essas questões." Afinal, existem questionamentos que são sabidamente irredutíveis. "A evolução aconteceu mesmo. O clima está mudando. As vacinas salvam vidas. Faz diferença ter razão -- e a tribo dos cientistas tem um alentado histórico de ter, afinal, entendido o que estava ocorrendo."

Antes de Fernão de Magalhães, muitos dos navegadores que partiam em busca do desconhecido de fato nunca mais voltavam, reforçando, através da observação pura e simples, a teoria dos monstros que habitavam nos extremos dos oceanos -- e desacreditando os gregos, que séculos antes já haviam observado meticulosamente as estrelas e concebido, a partir delas, a ideia de que a Terra era redonda. Isso mostra, conforme lembra a revista, que "o método científico nos leva a verdades pouco evidentes por si mesmas e que, muitas vezes, são de difícil aceitação." Hoje, a única diferença é que essas verdades são mais complexas que no passado -- menos evidentes que a Terra esférica, a qual navios e aviões agora circundam todos os dias. E assuntos complexos, como sabemos, são temas de especialistas.

A convite do Dr. Esper Kallás, estive na última semana no X Curso Avançado de Patogênse do HIV, que aconteceu na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo. Assisti a algumas palestras. (Afora as apresentações mais técnicas, como aquela que falava sobre o processo de transcrição do HIV, por exemplo, as demais eram possíveis de ser compreendidas por alguém, como eu, que não usa o jaleco branco no dia a dia.) Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, falou sobre a segurança oferecida pelo tratamento como prevenção (ou TasP, do inglês treatment as prevention). "Foi uma das maiores descobertas da ciência, quando a gente viu que, se a gente conseguisse derrubar a carga de vírus que tem na pessoa com o medicamento, essa pessoa teria menos vírus circulante -- e, portanto, o vírus no sangue, o vírus no sêmen, o vírus na secreção vaginal ou o vírus no leite materno chegaria com mais dificuldade. Portanto, essa pessoa não poderia transmitir o HIV."

"Nós descobrimos isso em 1996: chegamos à conclusão que, se a gente desse um medicamento para um ser, a gente protegia outro ser. Só que, naquela época, a gente achava que isso só acontecia dentro do próprio corpo. Então, a gente dava o medicamento para a mãe para proteger o bebê", explicou Fábio. Ele se referia à transmissão vertical, o nome que se dá à transmissão do HIV da mãe para o feto ou para o bebê, no momento do parto. Desde que surgiu o tratamento antirretroviral, em 1996, a transmissão vertical pode ser prevenida graças a esses medicamentos, sempre que a mãe portadora do vírus segue o tratamento corretamente durante a gravidez. "A lógica era exatamente esta: a gente derrubava a carga viral da mãe e o bebê não nascia contaminado. A gente nunca pensou que, se esse ser estivesse do lado de fora do corpo, a gente também estaria protegendo este outro ser. Anos depois -- entre 1996 e 2011 -- a ciência concluiu que, se esse ser estiver do lado de fora do corpo, é exatamente a mesma coisa: derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe", explicou Fábio, antes de concluir: "É mais poderoso que a camisinha."

Quem subiu ao palco logo em seguida foi o Dr. Drauzio Varella, que começou sua fala concordando com a eficácia do tratamento como prevenção. "Nós tínhamos essa sensação exata, que foi demonstrada muito mais tarde e que todos que trabalhavam na área sabiam: se a gente zerasse a carga viral, a chance de transmissão era muito menor. Isso já havia sido demonstrado nas mulheres grávidas. E, se valia para a transmissão materno fetal, que é dentro de um corpo só, imagina a chance de funcionar para o outro? É muito maior!"

Mas quanto uma afirmação dessas é capaz de reverberar na mente e no coração dos leigos e mudar suas concepções a respeito dos soropositivos e do HIV/aids? Será que explicar que quem tem HIV, faz tratamento e tem carga viral indetectável é um parceiro sexual seguro, com base em extensas evidências científicas que temos hoje, tira todo o medo que nós, que vivemos com HIV, percebemos na face das pessoas para quem contamos ter HIV?

Há algumas semanas, uma leitora do meu blog, a quem vou chamar de J., foi diagnosticada soropositiva. Quando contou para seus pais, estes separaram alguns dos talheres da casa só para ela usar, sem misturá-los com os demais. Deram bronca, dizendo que contraíra o vírus porque afastara-se de Deus. Quando avisou ex-namorados, estes disseram que sentiam muito e lembraram que ela ainda poderia se satisfazer sexualmente, se masturbando ou se relacionando com outros soropositivos. J. então explicou a eles que bastava usar camisinha e que, em breve, uma vez iniciado o tratamento, ela provavelmente se tornaria indetectável e não apresentaria mais risco consistente de transmitir o HIV. Mas a resposta que escutou foi clara: "J., o quanto você acredita que o indetectável realmente funciona?"

É curioso como, apesar de todo o avanço da ciência e da precisão da metodologia científica, resultados de estudos - ou mesmo de uma série de estudos que comprovam o mesmo resultado -, terminam o dia no mesmo lugar que a crença e o dogma religioso: não adianta explicar, é preciso acreditar. "A ciência faz um apelo à nossa racionalidade, mas as nossas crenças são motivadas sobretudo pela emoção - e a motivação mais forte é ficarmos juntos e sermos aceitos por nossos pares", explica a National Geographic. "Continuamos na escola secundária", diz Marcia McNutt. "As pessoas sentem a necessidade de fazer parte e isso é algo tão forte que os valores e as opiniões mais imediatas se sobrepõem às conclusões científicas, sobretudo quando não há desvantagem evidente em ignorar os dados científicos."

Mesmo quando se leva em conta dados científicos, existe o problema daquilo que é chamado de "viés de confirmação", que nada mais é que a tendência de buscar e enxergar apenas os indícios daquilo que nós - ou o nosso grupo - acreditamos. Você sabe do que eu estou falando. O melhor exemplo do viés de confirmação está nas redes sociais, com as amizades que se encerram e grupos que se fecham a cada postagem de conteúdos que refletem opiniões divergentes. O resultado é um conjunto de pessoas que compartilha entre si informações que corroboram sempre com a opinião que já é uníssono entre aquele grupo. Os petistas sempre postarão conteúdos petistas, lidos e comentados por petistas. Com os tucanos, sim, os "coxinhas", a mesma coisa - provavelmente também falando mal de petistas. Os vegetarianos postarão sobre os benefícios da dieta sem carne, e receberão likes de outros vegetarianos. Os místicos falarão sobre as últimas da física quântica. E assim por diante.

Vivemos na era do viés de confirmação, algo que vai na completa contramão do método científico. Se queremos avançar a discussão e o nosso entendimento a respeito do mundo, precisamos romper essa bolha. Mas como vamos fazer isso? Como fazer para que informações novas e desdobramentos científicos sejam reconhecidos ou, ao menos, ouvidos com a justa atenção que merecem? Como convencer os céticos de que existe uma outra perspectiva apontada pela ciência?

"Insistir em apresentar-lhes mais fatos de pouco adianta. Segundo Luz Neeley, da organização Compass, que ajuda a treinar cientistas para que se comuniquem melhor, o que os céticos precisam é ouvir os fatos da boca de pessoas que confiam, e que partilham dos mesmos valores fundamentais." Por isso, ainda que restrita a um encontro entre especialistas, são de extrema importância falas sobre o tratamento como prevenção, com as de Fábio Mesquita e do Dr. Drauzio Varella, ou mesmo sua subsequente palestra a respeito do que a ciência sabe hoje a respeito das relações biológicas do sexo -- na qual ele explica, baseado em uma revisão da revista Nature, que a definição de gênero entre homem e mulher, apenas, é simplória demais para o que se sabe hoje a respeito do assunto: biologicamente, a sexualidade é muito mais diversa do que se imagina. Também é valiosa sua última coluna na Carta Capital, onde escreveu sobre a profilaxia pré exposição (PrEP), numa matéria intitulada: Um comprimido promete fundar a era pós-camisinha da prevenção ao HIV.

Mas ainda é preciso mais. Assuntos científicos carecem de ser melhor divulgados pelas pessoas e imprensa em geral. Descobrimentos tão revolucionários, como a eficácia do tratamento para o HIV em uma pílula única, o TasP, a PrEP e a profilaxia pós exposição (PEP), as quais são capazes, respectivamente, de prevenir o HIV ou evitar a instalação da infecção do vírus após um acidente de risco, ainda sofrem com uma inexplicável reticência dos meios de comunicação. Essas notícias não são divulgadas com a mesma facilidade e destaque, por exemplo, que matérias a respeito do "clube do carimbo", o grupo restrito de soropositivos que afirma transmitir intencionalmente o HIV.

É romântica, mas é verdadeira a fala do protagonista de Interestelar, Cooper: "Costumávamos olhar para o céu e imaginar qual seria o nosso lugar nas estrelas, agora só olhamos para baixo e nos preocupamos com o nosso lugar na terra." Ainda preferimos falar dos monstros no horizonte, ao invés de falar do mundo como ele é. Do que já aprendemos sobre ele. É como se fosse proibido dizer que o HIV, hoje, é diferente do que foi no passado. É como se fosse perigoso dizer que hoje o vírus pode ser tratado com uma única pílula por dia - e, em breve no Brasil, prevenível também sob uma única pílula por dia. É como se tivéssemos receio de dizer que, hoje, há algo mais seguro que a camisinha - mesmo podendo, com isso, evitar e prevenir mais infecções pelo HIV. Será que ainda temos medo dos monstros no horizonte ou, depois de falar sobre as últimas descobertas, de sermos lançados à fogueira, assim como Galileu? Bom, eu penso que não. Se aprendi alguma coisa com a matéria da National Geographic, é que é hora de aprendermos a nos comunicar melhor. Pelo menos, é o que eu acredito. Tá bom, o grupo a que pertenço acredita nisso também.