OPINIÃO
18/05/2015 18:39 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

É verdade ou mentira?

De onde vem a ideia de negar que o HIV causa da Aids? "Tudo surgiu, até certo ponto, legitimamente, no início da identificação da Aids, no fim dos anos 70 ao início dos anos 80", conta o Dr. Esper Kallás, meu médico infectologista e professor associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP. "Naquela época, o conhecimento era muito restrito e carente de técnicas laboratoriais capazes de avaliar o sistema imune. A virologia era uma ciência nascente."

Shutterstock / wavebreakmedia

Uma professora na faculdade uma vez falava sobre o impacto das legendas nas fotografias publicadas nos jornais e revistas. Era uma aula de Semiótica, a ciência que nos ajuda "a compreender que o significado das mensagens fotográficas é culturalmente determinado e sua recepção necessita de códigos de leitura", explicava a professora. Nos slides que ela apresentava, diferentes fotos eram mostradas com e sem legenda e nós, os alunos, percebíamos a influência do texto em direcionar o olhar sobre a imagem, e vice-versa.

Dentre todos os slides apresentados pela professora, três se destacavam: uma foto aérea, uma imagem obtida a partir de microscopia eletrônica e uma foto tirada por uma sonda espacial, em algum planeta distante. Chamou a atenção como todas essas careciam muito de alguma explicação para que fossem compreensíveis, uma legenda que indicasse do que é que se tratava. A primeira, uma vista aérea do Afeganistão, tirada por um avião militar norte-americano em busca de alvos do Taleban. A segunda, uma imagem de um vírus infectando seu hospedeiro. Por último, o planeta em questão era Marte. E, sem uma legenda, era totalmente impossível para qualquer leigo nestes assuntos compreender sobre o que eram e onde foram tiradas essas fotografias.

Micrografia eletrônica da transmissão do HIV.

 

A você e eu, leitores comuns, leigos em tantos assuntos, nos resta acreditar na grande maioria das coisas que vemos e lemos - ou duvidar, que é a semente de um mundo sem fim de questionamentos, da imaginação que nos leva para longe, das pesquisas no Google que nos levam à paginas e páginas repletas de explicações que parecem tão fundamentadas, das teorias da conspiração que, por que não?, podem ser plenamente verdadeiras, retratadas num sem-número de filmes de ficção que, quem sabe, podem ser profundamente reais. Afinal, como já disse Peter Brook: "Quando tudo é simulação, o teatro é real."

Parece que é por causa dessa premissa que tem circulado pelas redes sociais, nos últimos dias, um post de um blog com mais de 20 mil seguidores, chamado Segundo Sol, e intitulado: "Bomba! 'O HIV é um vírus inofensivo e não transmite a aids', afirma ganhador do Nobel". O texto gira em torno de uma entrevista de Peter Duesberg, professor de biologia molecular da Universidade da Califórnia, à revista SuperInteressante e quem, diferentemente do que sugere o título do post, nunca foi ganhador de um prêmio Nobel. Duesberg concebeu a ideia de que o HIV seria inofensivo em 1987 e concedeu essa entrevista no ano 2000.

Mas de onde vem a ideia de negar que o HIV causa da aids? "Tudo surgiu, até certo ponto, legitimamente, no início da identificação da aids, no fim dos anos 70 ao início dos anos 80", conta o Dr. Esper Kallás, meu médico infectologista e professor associado da Disciplina de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da USP. "Naquela época, o conhecimento era muito restrito e carente de técnicas laboratoriais capazes de avaliar o sistema imune. A virologia era uma ciência nascente."

O decorrer da história também não ajudou. As incertezas sobre a nova doença e a disputa pela descoberta do HIV, entre Luc Montagnier e Françoise Barré-Sinoussi, do Instituto Pasteur, em Paris, e Robert Gallo, do Instituto Nacional do Câncer, em Maryland, prejudicavam o controle da epidemia, um momento bem retratado no filme E a Vida Continua (1993). Em 1987, a Federal Drug Administration (FDA) aprovou, às pressas, o primeiro antirretroviral para tratar o HIV: o AZT, ou Zidovudina, um medicamento inicialmente desenvolvido para tratar câncer, mas que acabou nunca indo para o mercado para essa finalidade. Num estudo "duplo cego", em que um grupo de pacientes toma o medicamento verdadeiro e outro toma placebo, sem que saibam quem está tomando o quê, os benefícios observados em quem estava tomando o AZT já se mostravam tão evidentes que pareceu injusto aguardar o término do estudo para que os pacientes sob placebo pudessem usufruir do medicamento. O AZT foi logo liberado. Afinal, naquela época, quase todos os que eram diagnosticados positivo para o HIV estavam morrendo, aos milhares, e o desespero era enorme: qualquer medicamento era bem-vindo - tal e qual mostra o filme Clube de Compras Dallas (2013).

Entretanto, o preço do AZT ainda era exorbitantemente alto e, sem um estudo mais rigoroso, acabou sendo prescrito em altas toses, as quais vieram a se provar tóxicas, causando severos efeitos colaterais e, muitas vezes, sem conseguir evitar a morte das pessoas diagnosticadas positivas para o HIV àquela altura. A teoria negacionista se nutriu disso, afirmando que quem causa a Aids seriam os próprios remédios.

Nesse período, surgiram muitas terapias alternativas de tratamento e os negacionistas começaram a suspender seu tratamento convencional com antirretrovirais. A fim de convocar cada vez mais soropositivos a fazê-lo também, lançaram a revista Continuum, em 1992. Em 1999, a americana Christine Maggiore, publicou o livro "E se tudo o que você ouviu sobre a Aids estiver errado?", influenciada por um encontro que teve com Peter Duesberg, quando parou de tomar seus medicamentos e assim seguiu, mesmo durante a gestação e amamentação de sua bebê. Naquele mesmo ano, o então presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, aderiu à teoria dissidente, convocou Peter Duesberg para um encontro e reduziu o acesso aos antirretrovirais em seu país.

A iniciativa de Mbeki vinha dois anos depois da morte do músico nigeriano Fela Kuti, portador do HIV e um dos negacionistas de maior liderança na África. A autópsia mostrou que Fela morreu de complicações relacionadas à Aids. Em 2001, ainda durante o governo de Mbeki, a revista Continuum teve de ser encerrada, porque todos seus editores haviam morrido: Karri Stokely, em 28 de abril de 2011, por conta de uma pneumonia grave; Scott Zanetti, em 6 de outubro de 2002, aos 52 anos; Tony Tompsett, aos 39 anos, em decorrência de Sarcoma de Kaposi, toxoplasmose e pneumonia; Huw Christie, de Sarcoma de Kaposi, em agosto de 2011, aos 41 anos de idade; e Jody Wells, fundadora da Continuum, em 1995. Todas, sem exceção, eram mortes decorrentes de doenças típicas da Aids.

Em 2005, faleceu a filha de Christine Maggiore, aos quatro anos de idade. Em 2008, foi a vez da própria Christine, ainda negacionista, que morreu em decorrência de uma pneumonia. Nesse mesmo ano, um estudo de Harvard concluiu que a falta de acesso ao tratamento antirretroviral durante o governo de Mbeki resultou em 300 mil mortes decorrentes de aids, que poderiam ter sido evitadas com acesso aos medicamentos.

"Este é um debate extremamente perigoso", lembra o Dr. Esper Kallás. "Os negacionistas da relação entre o HIV e a Aids não fazem ideia da inconsequência de seus atos. Hoje, os que negam a relação entre o HIV e a aids se nutrem de uma teoria de conspiração. Vários vídeos na internet estimularam as fantasias de muitos e se aproveitam da ignorância de outros." Entre estes vídeos está o documentário House of Numbers, do jovem diretor Brent W. Leung, lançado em 2009.

"Por que você acredita que o HIV causa a Aids?", pergunta o diretor a pessoas comuns. "Porque essa é a informação que eu recebi", responde um deles, seguindo exatamente o mesmo argumento daquela aula de Semiótica: quando somos leigos em um assunto, nos resta acreditar naquilo que assistimos ou lemos, ou questionar, abrindo espaço para o mundo de especulações.

A reportagem de capa edição do mês de abril da revista National Geographic trata sobre esse assunto: o descrédito da ciência. "Vivemos em uma época na qual todo tipo de conhecimento científico - desde a segurança do flúor e das vacinas até a realidade das mudanças climáticas - enfrenta oposição organizada e, muitas vezes, virulenta. Acirrados por fontes de informação próprias e por interpretações peculiares de pesquisas, os contestadores declararam guerra ao consenso dos especialistas."

A matéria lembra que, ainda hoje, uma legião de pessoas é contra a vacinação, tem dúvidas a respeito da fluoretação da água, do aquecimento global, da viagem do homem à Lua e, no que diz respeito ao HIV/aids, questionam sua real existência. "Há um limite para o debate de ideias, especialmente quando se aplica à saúde pública", diz o Dr. Esper Kallás. "É legítimo questionar se a vacina contra o sarampo é eficaz? Deveríamos debater o estímulo ao cigarro em escolas? Ou o uso do amianto em incubadoras de berçários? É preciso ter o mínimo de bom senso quando se fala de um assunto tão grave em saúde pública."

Isso quer dizer que, quando o assunto é esse, não deveríamos nunca questionar nada? "Todo mundo deveria questionar", afirma Marcia McNutt, editora da revista Science. "Mas todos deveriam recorrer ao método científico, ou confiar naqueles que usam o método, para se posicionar em relação a essas questões." Em relação à teoria dissidente, no entanto, há poucos cientistas que defendem essas ideias: entre os entrevistados no filme House of Numbers, Robert Gallo, Joseph Sonnabend, Robin Weiss, Niel Constantine e Daniel R. Kuritzkes reclamaram publicamente da edição das entrevistas, acusando o diretor de manipulação e distorção dos fatos. Em 2013, a mesma revista brasileira que publicou a entrevista com Duesberg divulgou uma nota de esclarecimento, na qual afirma:

"Em 2000, publicamos uma entrevista com o biólogo e químico Peter Duesberg, que defendia a tese de que a aids não era causada pelo vírus HIV. A entrevista foi conduzida por Flavio Dieguez, um dos maiores jornalistas científicos que já trabalhou conosco, e está fundamentalmente correta. Mas, ao longo dos últimos 13 anos, as teses de Duesberg caíram em descrédito e hoje temos muita clareza de que não deveríamos ter dado espaço a elas. Em parte esse descrédito se deve à tragédia de saúde pública que se abateu sobre a África do Sul, país que adotou as ideias de Duesberg em suas políticas de combate à aids. O resultado foi que o vírus se disseminou. Gostaríamos então de afirmar que, aqui na Super, não temos mais dúvidas de que a aids é causada pelo HIV e de que todo cuidado para evitar a transmissão desse vírus é fundamental para a saúde pública. Percebemos que esta entrevista foi redescoberta e está circulando nas redes sociais. Que fique claro que não concordamos com as ideias expressas nela."

Mas existe algo que você e eu, leigos, podemos fazer para verificar a real existência do HIV e sua relação com a Aids. Sem o aparato científico, podemos começar pela observação, pura e simples: o sucesso da terapia antirretroviral. Diga para alguém que descobriu ter HIV em decorrência de aids avançada, por exemplo, magro e debilitado na cama de um hospital, diagnosticado já com neurotoxoplasmose, uma doença oportunista da aids, que o HIV não é o responsável por sua condição de saúde. Faça a pergunta poucos meses depois do início do tratamento com antirretrovirais, quando pessoas assim recuperam a saúde, ganham peso e voltam a se sentir bem.

Se o HIV não causa a Aids, como dizem os negacionistas, como é possível que o remédio que combate vírus seja capaz de melhorar quem está doente, evitar mortes, manter a expectativa de vida quase igual a de soronegativos e de prevenir novas infecções?

Entre o AZT e o coquetel com três antirretrovirais houve um salto enorme no tratamento e na qualidade de vida. Os negacionistas parecem presos aos anos 80, tendenciosamente lembrando do que lhes convém e esquecendo do que experimentavam os pacientes bem no começo da epidemia. "Quando comecei a trabalhar com pacientes com aids, em 1989, fiquei chocado com uma brutal e triste realidade", conta o Dr. Esper. "Vi pacientes morrerem quase todos os dias. Presenciei o sofrimento de muitos inocentes, homens, mulheres e crianças. Vi pacientes que se despediam de amigos soropositivos em leitos de morte, estes sabendo que pouco depois chegaria sua hora também. Famílias se esfacelaram. Mas nada chegou perto do que aconteceu em alguns lugares da África, onde comunidades inteiras foram dizimadas."

Hoje, basta um único comprimido por dia para tratar o HIV/Aids, e com poucas chances de efeitos colaterais. "É impressionante a claríssima demonstração do benefício dos remédios que combatem o vírus. Desde o surgimento do 'coquetel', em 1996, a queda no número de pessoas que desenvolvem aids e que morrem da doença caíram dramaticamente. Os dados impressionam. A queda na mortalidade, inclusive no Brasil, foi uma das grandes conquistas da medicina recente. O mecanismo de cada uma dessas drogas foi claramente estabelecido, sempre interferindo com a capacidade do vírus se multiplicar em células alvo. Além dos dados impressionantes da recuperação de pessoas que vivem com o HIV, o uso dessas medicações poupou inúmeras crianças, filhas de mulheres que vivem com o vírus, de se contaminarem no momento do parto. Outra vez, os números são impressionantes: foi reduzida a transmissão do HIV de 30% para menos de 1% de mãe para filho. Enfim, com o tratamento antirretroviral, houve uma revolução. Passamos a ver o controle da multiplicação do vírus e o sistema imune se recuperando. O que parecia ser inexorável, cedeu. As longas filas de macas nos prontos-socorros foram reduzindo drasticamente. A qualidade de vida das pessoas que viviam com o vírus voltou."

"Quais as consequências das posturas negacionistas?", questiona o Dr. Esper. "Provavelmente os que negam não fazem qualquer ideia. Ao negar que o HIV cause a Aids, estimulam o comportamento de risco. Fazem com que pessoas que vivem com o HIV abandonem o tratamento. Facilitam a transmissão de mães para seus bebês. Contribuem para o avanço da epidemia que ainda mata milhões. Os negacionistas precisam levar isso em consideração e saber até que ponto podem destilar o veneno de sua irresponsabilidade."