OPINIÃO
01/12/2014 20:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:01 -02

Nós não estamos sendo objetivos a respeito de HIV/aids

Por alguma razão, a epidemia de HIV/aids tem essa associação de culpa e punição. É como se o imaginário aterrorizante do vírus tivesse uma força gravitacional muito forte, da qual até médicos não escapam, que dirá jornalistas que os entrevistam para cobrir suas matérias.

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Você já parou para se perguntar: por que a epidemia de HIV/aids continua a crescer? Uns dizem que o principal motivo é o comportamento sexual dos jovens, que acham que ninguém mais morre de aids e que, se pegar o vírus, basta tomar "um remédio". Outros acreditam que o problema é confiar nos parceiros. A imprensa nos lembra dos maquiavélicos soropositivos, que contaminam propositalmente seus parceiros sexuais e, depois, avisam por SMS. Ou os que não avisam e, depois de mortos, fazem mulheres sair correndo de um funeral para fazer o teste de HIV, quando descobriram que o falecido, um jovem "mulherengo", era portador do vírus. E ainda acham surpreendente o marido que não se infectou ao "arriscar contrair o vírus HIV" depois de transar com sua esposa, portadora do vírus.

Passaram-se mais de três décadas desde o início da epidemia e, de lá pra cá, muita coisa mudou. A principal mudança veio graças à ciência e à medicina, que desenvolveu e aprimorou os medicamentos antirretrovirais. No começo, eles eram muito tóxicos e causavam severos e até irrecuperáveis efeitos colaterais, incluindo redução da densidade óssea e lipodistrofia, que é o acúmulo e a distribuição desproporcional de gordura pelo corpo. Para piorar, era preciso tomar dezenas de comprimidos, em horários precisos ao longo do dia.

Hoje, é mais simples. Esses mesmos remédios já são combinados numa única dose, que pode ser tomada uma vez ao dia e é muito menos tóxica do que no passado. O Dr. Drauzio Varella está certo ao ter lembrado, ontem no Fantástico, que os antirretrovirais ainda causam efeitos colaterais. Isso é verdade! Eles costumam incomodar, especialmente no início do tratamento. Em geral, isso inclui irritações na pele, diarreia, náusea, vômito e fadiga. No entanto, é verdade também que esses efeitos costumam diminuir bastante ou passar completamente com o tempo. Não fosse verdade, o CDC americano não teria criado a recente campanha de prevenção e tratamento, na qual anuncia: "O Tratamento de HIV Funciona".

Se o incômodo com o tratamento não passa, é quase sempre possível trocar a combinação de medicamentos, alternando para uma que seja mais adaptável para o organismo de quem está tomando e que não cause qualquer efeito colateral - então, se existe esta alternativa, por que é que ainda se fala tanto nos efeitos colaterais?

Uma das razões é que há um vício em tratar a epidemia de HIV/aids através da mesma história que sempre foi contada, de culpa, medo, dor, tragédia e sofrimento. E não se iluda: isso acontece tanto com quem conta a história, como com quem vive a história. Me lembro que meu primeiro infectologista, Dr. O., insistiu num coquetel de antirretrovirais que me causava dores de barriga, vômitos e diarreias como eu nunca experimentara antes. Durante os quatro meses em que segui o tratamento recomendado pelo doutor, sofri todos os dias, ininterruptamente. Tentei melhorar a situação, mudando toda a minha dieta, mas não funcionou. Cheguei a ser hospitalizado por tanto vomitar e emagreci 15 quilos, não por causa da aids, mas - me perdoe a sinceridade - por tanto defecar! Enquanto isso, o doutor insistia que era para ser assim. E isso não se deu só comigo. Num livro que vai ser publicado em breve, intitulado provisoriamente "Histórias da Aids", da jornalista Naiara Carmo e do infectologista Artur Timerman, uma das soropositivas entrevistadas lembra que, quando reclamou dos efeitos colaterais que sofria, sua médica sentenciou:

"- Não se cuidou... agora aguenta!"

Por alguma razão, a epidemia de HIV/aids tem essa associação de culpa e punição. É como se o imaginário aterrorizante do vírus tivesse uma força gravitacional muito forte, da qual até médicos não escapam, que dirá jornalistas que os entrevistam para cobrir suas matérias. É fácil percebê-lo ao ler as notícias acima. Nenhuma delas de fato checa ou questiona pontos tão fundamentais. Será mesmo que a razão da falta de uso de camisinha entre os jovens vem da ideia de que o HIV está "longe"? Afinal, é importante lembrar que, no Brasil, a tendência de aumento nas taxas de diagnóstico não se concentra apenas entre jovens de 15 a 24 anos, mas também em adultos com 50 anos ou mais, os quais viram o terrível começo da epidemia. Nesse sentido, não seria coerente pensar que todos temos a ideia de que o HIV está distante de nós? E, se isso for verdade, qual a razão dessa sensação de distância? Será que não estamos falando o suficiente sobre HIV? Ou, pior: será que estamos mesmo falando de maneira correta, objetiva e atualizada?

Até quando vamos continuar falando que a razão das contaminações é o excesso de "confiança" no outro? Ninguém mais é adulto e responsável por sua própria saúde? Não é hora de pararmos de falar em "confiar", vitimizando-nos e apontando o dedo para culpar terceiros, quando a responsabilidade de usar camisinha é, igualmente, das partes envolvidas no ato sexual? Será que já não é hora de fazer jornalismo sério quando o assunto é HIV/aids e, antes de publicar sobre o suposto risco vivido pelo marido que queria engravidar a esposa soropostiva, checar com especialistas e fontes especializadas? O sexo desprotegido entre um soronegativo e uma pessoa soropositiva e indetectável é uma realidade possível e segura, que apresenta risco de transmissão mínimo, senão negligenciável, segundo diversos consensos médicos, como americano, britânico, canadense e sueco. E, uma vez que o tratamento antirretroviral é comprovadamente capaz de reduzir para próximo de zero a transmissibilidade de quem tem HIV, por que não passamos a incluir esse dado tão importante nas notícias deste jornalismo "policial" a respeito daqueles que teriam transmitido o vírus propositalmente a seus parceiros e parceiras? Afinal, se transmitiu, é porque, além de não usar camisinha, não fazia tratamento; e, se não fazia tratamento, essencial para manter-se vivo e reduzir a transmissibilidade, e mesmo assim transava sem camisinha, é porque há ali possivelmente um distúrbio psiquiátrico muito grave. Isso não é em nada relevante numa matéria séria?

A imprensa não está sendo objetiva a respeito da epidemia de HIV/aids, perdendo-se em questionamentos antiquados e não trazendo à tona assuntos atuais e importantes. Não é mais tempo de procurar, entre os soropositivos, os monstros transmissores de HIV: segundo a Unaids, "a epidemia de HIV é nutrida pelas infecções por HIV não diagnosticadas e não pelas pessoas que conhecem seu status positivo para o HIV." O risco de ser contaminado pelo HIV está sabidamente no sexo desprotegido com pessoas de sorologia desconhecida, que não fazem o teste de HIV com frequência e respeitando o período da janela imunológica. Por isso, no resto do mundo, o aumento da oferta de testes e o estímulo ao tratamento antirretroviral de quem eventualmente for diagnosticado positivo tem se mostrado um caminho eficaz, e que tem ganhado grande espaço na mídia.

Se todos fizerem o teste de HIV e se, quem precisar, iniciar o tratamento, a epidemia está controlada, sem a necessidade de causar mais medo e pânico. Enquanto não incluirmos essa mensagem nova e atual em nossas campanhas e nas notícias de jornal, a epidemia de HIV/aids vai continuar a crescer.

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