OPINIÃO
17/10/2014 15:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Carta de um espanhol especialista em Ebola, direto de Serra Leoa

Um dado: mais de 90% dos trabalhadores de saúde infectados (e eles são muitíssimos) contraíram o vírus por não seguir o protocolo adequado ou por não usar a roupa adequada: falha humana. Os outros 10% foram infectados fora do ambiente de trabalho, por familiares, relações sexuais etc.

Medici con l'Africa Cuamm/Flickr

Freetown (Serra Leoa), 7 de outubro de 2014.

Sou um médico espanhol em Serra Leoa, trabalhando com uma ONG no combate ao ebola. Como se sabe, a doença está açoitando parte da África há mais de seis meses e agora, infelizmente, chegou à Espanha. É o primeiro caso de transmissão direta do vírus fora de um país africano na história da doença.

Estamos montando em Bo, segunda maior cidade do país, um centro de isolamento e tratamento de pacientes que têm a doença ou que sejam suspeitos de ter o vírus. Esses pacientes são acolhidos quando aparecem os primeiros sintomas, geralmente febre, que é quando a doença começa a ser potencialmente contagiosa. Os pacientes são testados e recebem cuidados até que os resultados voltem do laboratório. Em caso negativo, o paciente vai para casa, mas ele continua recebendo a visita diária de agentes sanitários, responsáveis pelo acompanhamento dele e de pessoas próximas por mais três semanas. Caso o resultado do teste seja positivo, começa o tratamento intensivo do paciente.

Assim funciona o sistema em um país em que se registraram, até o momento, mais de 2 400 casos positivos e quase 700 mortes, segundo informações do Ministério da Saúde. Mas provavelmente há mais casos, pois as comunicações não funcionam muito bem e é possível que haja muitos casos não contabilizados. Graças à grande difusão midiática do problema, sabe-se que cada pessoa pode infectar de duas a seis outras.

Senhora ministra da Saúde, com todo o respeito, alguma coisa falhou. E, sinceramente, creio que as informações divulgadas pelos meios de comunicação na Espanha sobre o triste e lamentável caso de uma colega infectada, por mais que estejam corretas, não são precisas. Aqui, no terreno, onde se vive o dia-a-dia da doença, enxergamos as coisas de outra maneira e seguramente temos respostas diferentes das apresentadas pelo governo e por alguns colegas.

Não é minha intenção gerar angústia nem criar alarme, mas a verdade está sendo maquiada. Ou as coisas não estão sendo ditas de forma clara. Não quero crer que seja proposital, prefiro pensar que seja por desconhecimento do assunto ou por não saberem do que estão falando.

A esta altura a senhora deve ter conhecimento de que os equipamentos de proteção pessoal, chamados tecnicamente de PPE (personal protection equipment, mas os chamarei de roupas, para abreviar), que foram usados como proteção não eram adequados para esta doença. Como já deve saber, a OMS tem diferentes graus de proteção, de acordo com a doença, e o ebola exige o nível mais alto, por sua gravidade, seu alto risco de contágio e, sobretudo, pelo pouco conhecimento que nós profissionais temos dessa enfermidade. A roupa adequada isola o profissional completamente de seu entorno. Nem uma micra de pele fica desprotegida, e alguns dos elementos são duplos, caso das luvas.

Os companheiros que entram regulamente em zonas de risco, zonas de isolamento ou que possam estar em algum momento em contato com pessoas suspeitas de infecção devem, além de vestir as roupas, passar por um treinamento de duas semanas em um centro adequado e com profissionais qualificados. Em nosso caso, aqui em Serra Leoa, são os Médicos Sem Fronteiras que providenciam o treinamento, provavelmente os profissionais com mais e melhor experiência, os mais bem preparados para tratar e gerir os casos de ebola.

As medidas de proteção vão muito além da roupa protetora e são constantes (spray de água clorada, recipientes para lavar as mãos com água clorada por todos os cantos, desinfecção com esse mesmo tipo de água para solas de sapatos etc.). Só para dar uma ideia: a colocação correta da roupa (PPE) leva uns 10 minutos, e sua retirada é um processo de 20 ou 25 minutos, no qual se segue estritamente uma série de passos ordenados, sob a supervisão de duas pessoas: uma, continuamente desinfectando com spray; e outra, relembrando os passos seguintes. Até mesmo os maiores especialistas no assunto, que entram várias vezes por dia nas zonas de risco - a roupa não pode ser usada por mais de uma hora, por causa do risco de desidratação --, e também os mais habituados ao longo e tedioso processo de colocar e tirar o equipamento de proteção pessoal, às vezes se esquecem de um passo ou trocam a ordem de um deles - e isso pode levar ao contágio.

Um dado: mais de 90% dos trabalhadores de saúde infectados (e eles são muitíssimos) contraíram o vírus por não seguir o protocolo adequado ou por não usar a roupa adequada: falha humana. Os outros 10% foram infectados fora do ambiente de trabalho, por familiares, relações sexuais etc.

Enfim, não quero aborrecê-los mais, porém é tudo muito complexo, e não é de estranhar que lamentavelmente tenha ocorrido um contágio. Oxalá que não vá além disso e que se aprenda com os erros (se eles aconteceram). E, acima de tudo, que a colega infectada esteja bem.

Atenciosamente,

Jose Maria Echevarría

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