OPINIÃO
02/07/2015 15:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:35 -02

A Argentina mostra para a Grécia que pode haver vida depois do calote

Até um certo ponto, a Grécia está diante de uma situação mais difícil que a da Argentina em 2001. O calote argentino foi acompanhado de uma grande desvalorização da moeda, que tornou o país mais competitivo e que, junto com a reestruturação da dívida, criou as condições para uma recuperação econômica sustentada. No caso da Grécia, o calote e a saída do euro exigiram a reimplementação da moeda doméstica.

ARIS MESSINIS via Getty Images
Pro-euro protesters hold European Union flags during a demonstration in front of the parliament in Athens on June 30, 2015. European leaders want to 'sink' Greece's ruling Syriza party to block the rise of other far-left, anti-austerity parties such as Podemos in Spain, Greece's Labour Minister Panos Skourletis said Tuesday. AFP PHOTO / ARIS MESSINIS (Photo credit should read ARIS MESSINIS/AFP/Getty Images)

Quando a crise grega começou, cinco anos atrás, a Europa estendeu a mão para ajudar. Mas foi um tipo de ajuda muito diferente que se gostaria, muito diferente da que se esperaria se houvesse o mínimo de humanidade e de solidariedade europeia.

Segundo as propostas iniciais, a Alemanha e outros "salvadores" na verdade lucrariam com a crise grega, cobrando taxas de juros muito mais altas que seus custos de capital. Pior: eles impuseram condições à Grécia - mudanças em políticas macro e microeconômicas - que seriam exigidas em troca dos empréstimos.

Tais condicionantes eram padrão nas práticas do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Tipicamente, ao impor essas condições, eles têm pouco conhecimento do funcionamento real das economias; frequentemente, as demandas também embutiam política. Às vezes havia um elemento de neocolonialismo: os velhos europeus brancos ditando o que suas colônias deveriam fazer. Na maioria dos casos, as políticas não funcionavam como se esperava. Havia enormes discrepâncias entre o que os especialistas ocidentais esperavam e o que acontecia de fato.

Esperava-se mais do "parceiro" de zona do euro da Grécia. Mas as exigências eram igualmente intrusivas, e as políticas e os modelos, igualmente imperfeitos. A disparidade entre o que a troika achava que iria acontecer e o que de fato ocorreu foi notável - e não porque a Grécia deixou de fazer o que deveria, mas porque fez, e os modelos estavam muito, muito errados.

No fim das contas, depois de anos de chantagens sobre a Grécia e de exigências de ainda mais austeridade que levaram o país a uma depressão econômica catastrófica, a troika finalmente levou o país à beira do calote.

A situação tem semelhanças importantes com o calote argentino de 2001 - e algumas diferenças, também. Em ambos os países, a recessão virou depressão por causa das políticas de austeridade - tornando a dívida ainda mais insustentável. Em ambos os casos, as políticas eram uma condição para o recebimento da ajuda. Os dois países tinham arranjos monetários rígidos que os impediam de praticar políticas monetárias expansionárias durante a recessão. Em ambos os casos, o FMI estava errado, oferecendo previsões perigosamente erradas em relação aos resultados das políticas impostas. O desemprego e a pobreza explodiram, e o PIB despencou. De fato, há até mesmo uma similaridade incrível entre a queda do PIB e o aumento das taxas de desemprego.

Na Argentina, houve em particular um aumento enorme no desemprego entre os jovens, que se manteve alto por vários anos. A falta de oportunidades destruiu motivações e foi um imenso desperdício dos talentos de milhões. Com o desemprego entre os jovens em torno de 50% na Grécia, uma saga similar acontece no país europeu.

Calotes são difíceis. Mas a austeridade é ainda mais. A boa notícia para a Grécia é que, como mostrou a Argentina, pode haver vida depois do endividamento e do calote.

A saga que levou ao calote grego nos lembra das importantes lições sobre gerenciamento de crises de dívidas soberanas que deveríamos ter aprendido com eventos parecidos do passado. A primeira é que a capacidade de pagamento da dívida não vai melhorar se não houver recuperação econômica. Ao mesmo tempo, não há recuperação econômica sem sustentabilidade da dívida.

Tanto na Argentina como na Grécia, restaurar a sustentabilidade da dívida exigiu profundas reestruturações das dívidas soberanas. Em ambos os casos, finalizar uma "boa" reestruturação da dívida, uma reestruturação oportuna e suficientemente capaz de permitir a recuperação econômica, com acesso aos mercados de crédito internacionais, provou-se quixótica. A culpa não recai sobre os países, mas sim sobre deficiências nos processos de negociação.

Em ambos os casos, as instituições credoras fingiam que a sustentabilidade poderia advir de "ajustes estruturais". Sob pressão intensa, os programas impingidos aos países foram aceitos e implementados - mas obviamente não funcionaram. Trocar fundos de "salvamento" - fundos que era essencialmente usados para pagar os mesmo credores que o criaram - por ajustes (e promessas de ajustes ainda mais profundos) colocou os países em espirais que enfraqueceram suas economias ainda mais. No caso da Argentina, depois de anos de sofrimento, a população foi para a rua.

Em ambos os casos, a corrida aos bancos acabou em congelamento parcial dos depósitos bancários, que, no caso argentino, levou a uma crise completa do sistema bancário e à subsequente conversão dos depósitos denominados em moeda estrangeira para moeda local, o que levou a uma reestruturação das vulnerabilidades domésticas - a um altíssimo custo para os poupadores domésticos. Na Grécia, as consequências ainda são desconhecidas.

Contratos de dívidas são trocas voluntárias entre credores e devedores. Eles são feitos em um contexto de incerteza: quando o devedor promete pagar uma certa quantia no futuro, todo entendem que a promessa depende da capacidade de pagamento do devedor. Há riscos envolvidos - a razão pela qual os credores exigem maior compensação (taxas de juros mais altas) que se estivessem emprestando sem nenhum risco.

Reestruturações de dívidas são parte necessária da relação entre credor e devedor. Elas aconteceram centenas de vezes, e continuarão acontecendo. A maneira pela qual elas são resolvidas determina o tamanho das perdas. O mau gerenciamento de crises de endividamento, tais como exigir políticas de austeridade durante recessões - apesar das evidências teóricas e empíricas mostrando que a austeridade só aprofunda as recessões - inevitavelmente leva a mais perdas e mais sofrimento.

Quem é salvo pelos pacotes de ajuda financeira (como os bancos franceses e alemães, no caso da Grécia) em geral mencionam os riscos morais para evitar reestruturações. Eles afirmam que isso significaria criar incentivos perversos; outros devedores também "abusariam" dos empréstimos e deixariam de pagar o que devem. Mas esse argumento do risco moral é conto-de-fadas. Quando deram o calote, tanto Argentina como Grécia já tinham pagado um preço altíssimo por seus problemas. Nenhum país do mundo gostaria te se ver na mesma situação.

A experiência da Grécia também nos ensina o que não deve ser feito numa reestruturação de dívida. O país "reestruturou" sua dívida em 2012, mas da forma errada. Não foi suficientemente profundo para permitir a recuperação da economia, mas também mudou a composição da dívida - de credores privados para credores oficiais --, o que tornou novas reestruturações mais difíceis.

Até um certo ponto, a Grécia está diante de uma situação mais difícil que a da Argentina em 2001. O calote argentino foi acompanhado de uma grande desvalorização da moeda, que tornou o país mais competitivo e que, junto com a reestruturação da dívida, criou as condições para uma recuperação econômica sustentada. No caso da Grécia, o calote e a saída do euro exigiram a reimplementação da moeda doméstica. Criar uma nova moeda em meio a uma crise não é a mesma coisa que desvalorizar uma moeda existente. Essa camada extra de incerteza aumenta a pressão que a troika pode exercer sobre o governo Tsipras.

Quando a dívida é insustentável, é necessário um recomeço. Esse é um princípio básico. Até agora, a troika exclui essa possibilidade. E não pode haver um recomeço com austeridade.

Neste domingo, os cidadãos gregos vão debater duas alternativas: austeridade e depressão sem fim, ou a possibilidade de decidir seu próprio destino em um contexto de enorme incerteza. Ambos podem levar a rupturas sociais ainda piores. Mas uma das alternativas oferece esperança, e a outra, não.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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