OPINIÃO
17/03/2014 14:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Populismo e República

"A crítica consumista à democracia representativa é fundamentalmente anti-democrática. Ela se baseia na premissa de que indivíduos não eleitos dotados de propósitos morais elevados têm mais direito de agir para a promoção do interesse público do que representantes eleitos em um processo político imperfeito." - Frank Furedi, sociólogo, Universidade de Kent, Reino Unido

Uma explicação recorrente para a violência que repetidamente tem eclodido no país se funda em uma premissa otimista. Os confrontos seriam produto da ampliação da capacidade de protagonismo de grupos sociais antes excluídos. Tendo experimentado, pela primeira vez, a possibilidade de acesso a bens e serviços esses grupos estariam reivindicando mais. Ao mesmo tempo, os que desfrutavam de uma posição privilegiada estariam incomodados em conviver com aqueles que antes estavam distantes. Essa narrativa sugere que os conflitos violentos são tremores de terra. Eles indicam uma reacomodação do campo social, em que novos atores desestabilizam atores tradicionais.

O apelo dessa explicação vem de ela atribuir grande importância, a meu ver com acerto, ao aumento das demandas por serviços públicos de melhor qualidade como componente central para entender as tensões atuais. A indigência das políticas públicas e a falta de planejamento de longo prazo em áreas cruciais como transporte, energia, educação, saúde tornaram insuportável a vida para milhões de brasileiros que, agora mais críticos, protestam com maior veemência.

Poderosa para iluminar causas das manifestações, tais explicações são mais frágeis ao explicar a sua dinâmica. Não há ligação necessária entre reivindicação e violência. Na luta pela redemocratização, houve manifestações muito maiores que não desembocaram em atos violentos dos manifestantes. Os esforços para compreender a violência dos embates atuais -- de rua e outros -- exige que não se minimize o papel decisivo que tem nessa crise o esgarçamento do espaço do político na sociedade brasileira.

Na raiz desse esgarçamento parece estar o abandono da ideia de república como lugar de todos. Enquanto nos primeiros momentos da retomada democrática o projeto era de reconstruir a república, a prática mais recente tem preferido a esse conceito unificador de coisa pública uma leitura redutora que supõe o corpo social nitidamente cindido entre os que desejam o bem comum e os que a ele se opõem.

Esse discurso, longe de ser novo, tem sido constitutivo do populismo autoritário latino-americano. Ao longo da história, inúmeras vezes líderes mais ou menos carismáticos no continente buscaram ampliar o próprio poder apresentando-se como únicos defensores dos interesses populares. A desqualificação moral que fazem de seus adversários torna impossível a divergência que é o índice fundamental da vitalidade das democracias. Rotineiramente, esse discurso descarta críticas aos governantes como fruto de mesquinhez e descreve opositores como gente de má-vontade. Isto não impede, entretanto, que tais líderes celebrem amiúde alianças com representantes das elites mais tacanhas.

Essa condenação da crítica e da divergência, que marca o populismo autoritário tradicional, vem se renovando na era das mídias sociais e dos Black Blocs, conforme bem observa Frank Furedi na citação transcrita acima. Tecidas em conjunto e unidas em sua descrença na possibilidade ou relevância real de diálogo, essas intolerâncias novas e antigas ajudam a compreender o tipo de violência física e verbal que vem se tornando tragicamente corriqueira no país e que constitui um desafio formidável para a vida democrática hoje. Garantir permanentemente os avanços sociais que a democracia nos trouxe exige que se recupere a capacidade de discutir a república como bem de todos.