OPINIÃO
24/04/2014 19:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

A outra camisa amarela

Ao longo de 1984, muitos brasileiros vestiram com orgulho uma camisa amarela e saíram às ruas. Não era a "pátria em chuteiras" que o regime autoritário quis instrumentalizar. Era a pátria pura e simples, o povo dizendo que é ele.

ALFREDO RIZUTTI/ESTADÃO CONTEÚDO

Lado a lado no palanque, Fernando Henrique, Lula, Leonel Brizola, Tancredo Neves, Mário Covas, Ulysses Guimarães entre tantos outros políticos e personalidades olham, maravilhados, para nós, essa multidão de um milhão e quinhentos mil brasileiros que se acotovela no centro de São Paulo para dizer que a democracia é vital. A maior manifestação política na história do Brasil é o ponto culminante de um movimento que se torna, em si mesmo, uma vitória porque faz mentirosa, ao menos por um instante, a crença de que somos irremediavelmente "um país sem povo".

A heterogeneidade no palanque se reflete na multidão que se espalha pelo vale. Há gente de todo tipo, em uma mistura festiva e barulhenta de crenças, classes e propostas políticas. Não há violência: no sonho comum da reconstrução da democracia, a divergência é uma riqueza, não um problema. Essa pluralidade eletrizante é uma conquista sobre o "Brasil ame-o ou deixe-o", a ideia nefasta de que há um modo único de se amar o país. Não é preciso negar ou escamotear diferenças para gritar em uníssono "Diretas Já!", pelo contrário. A luta pela democracia é a luta pelo direito à divergência.

A emenda seria derrotada, mas o povo não. Sabia-se, o tempo todo, que o objetivo maior não era o de votar para presidente mas o de reconquistar o direito à plena participação política. A campanha pelas Diretas era na verdade a luta por uma democracia cheia de vida, em sua forma e em sua substância. Por isso, era também a luta por uma vida política republicana, pautada pela transparência nos atos do governo e pela responsabilização das autoridades que cometessem desmandos ou os acobertassem; pelo fim da arrogância com que os apaniguados do poder pretendiam se eximir da submissão à lei; pela extinção da prática de sacrificar interesses públicos a vantagens privadas; pela recusa à cooptação de parlamentares por meios escusos; pelo término do nepotismo político; pelo fim da tortura; pela liberdade de expressão; pela inclusão social. A luta pelas Diretas era, assim, a luta pela afirmação da política, da grande política, como fundamento primeiro da possibilidade da construção de uma sociedade mais justa.

Passados 30 anos, há muito o que celebrar. A rotinização da vida democrática e a regularidade do funcionamento institucional permitiram que o debate aberto sobre nossos múltiplos desafios e limitações gerasse soluções melhores e mais duradouras para o país. É sempre bom lembrar que foi o retorno à democracia que permitiu a transformação econômica e social que marca positivamente nossa história recente.

Passados 30 anos, há muito o que fazer. Compreensivelmente satisfeitos com os avanços, há o risco de esquecermos que a democracia não está jamais em repouso: se ela não avança continuamente, começa a retroceder; se não se aperfeiçoa todos os dias, começa a deteriorar. Há o risco de a sociedade civil ir aos poucos esquecendo que construir as práticas democráticas é uma tarefa que não se pode delegar. Há o risco de os governantes de todos os níveis irem aos poucos esquecendo que o poder não é um fim em si mesmo, mas instrumento para o aperfeiçoamento democrático e de que o mandato que receberam impõe que o compromisso com a democracia preceda todos os demais.

Ao longo de 1984, muitos brasileiros vestiram com orgulho uma camisa amarela e saíram às ruas. Não era a "pátria em chuteiras" que o regime autoritário quis instrumentalizar. Era a pátria pura e simples, o povo dizendo que é ele, com seus múltiplos conflitos, com sua estonteante e maravilhosa diversidade, a fonte, o fundamento e a razão de ser do poder. Trinta anos depois, vale ainda lutar por essa camisa amarela.