OPINIÃO
11/02/2018 22:45 -02 | Atualizado 11/02/2018 22:45 -02

Um manifesto pela liberdade aos caracóis

Cansadas de danos causados por alisamentos, mulheres contam suas experiências ao adotar o cabelo cacheado natural.

*Artigo escrito por Maria Clara Oliveira, jornalista pós-graduanda em Jornalismo Digital e Produção Multimídia.

A história é comum: os caracóis do cabelo passam por uma química e as madeixas ressurgem lisas, amparadas periodicamente por um caloroso secador e pelo abraço apertado da chapinha. Com o tempo, essa mudança traz danos: fragilizado, o fio corre mais riscos de se queimar e se quebrar. É aí que muitas mulheres decidem fazer o caminho inverso, retornando a seu cabelo natural.

Leila Raquel Rodrigues passou por esse processo. "Meu cabelo foi alisado quando eu tinha 10 anos. Minha mãe usava assim, então virou uma sequência, passando de mãe para filha", conta.

Maria Clara Oliveira
Leila alisou o cabelo por influência da mãe — e voltou aos cachos por pedido da filha.

A decisão de mudar veio em 2016 (mais de 30 anos depois do primeiro alisamento), quando Leila levou a filha de 11 anos a um salão especializado em cabelo cacheado: "Ela me disse 'poxa, mãe, eu queria tanto que você se parecesse comigo!' — Olha só a inversão de papéis, né? Acabei cedendo". Leila entrou no salão e, desde então, não fez nenhuma química. "Estou aqui só fazendo luzes para disfarçar os fios brancos", confessa.

Assim como Leila, várias mulheres buscam ajuda profissional na transição do liso para os fios cacheados. "A progressiva tem um efeito colateral, então as pessoas já vêm pedindo socorro e a gente meio que é um hospital", explica Raquel Lemos, cabeleireira do Espaço Cacheei — onde Leila é cliente.

Maria Clara Oliveira
Ao abandonar o alisamento, Raquel adotou os cachos com cores vibrantes.

Raquel entende bem a necessidade desse "hospital". Antes de ter os fios encaracolados e coloridos de roxo, a jovem também passou anos com as madeixas artificialmente esticadas. "Fiz cinco progressivas, passava a chapinha bem na raiz. Um dia, hidratei o cabelo, deixei com creme e vi uns cachos; estava tão bonito! Me olhei no espelho e me apaixonei. Endoidei, pedi para cortar", conta.

Hospitais dos fios

Localizado em Samambaia, o Espaço Cacheei não é o único salão do Distrito Federal dedicado aos cabelos enrolados. No centro de Brasília, a publicitária Rosi Ribeiro fundou o Via Cachos. filha de esteticista, ela aliou a profissão da mãe à experiência pessoal para montar o salão.

"Eu fazia uma selagem aqui, outra ali e o cabelo começou a cair", explica Rosi. Pensando em mulheres que poderiam estar com o mesmo problema, ela fez pesquisas sobre estrutura do cabelo e investiu na reconstrução capilar de suas clientes.

A cabeleireira Andreia Oliver e suas irmãs também se inspiraram na própria relação com os fios para criar a Cachos Brasil, que tem franquias no Plano Piloto, em Taguatinga e Ceilândia. Ao contrário de Rosi e Raquel, ela nunca adotou os fios lisos: "a gente teve sorte de já nascer com o cabelo crespo". A ideia do salão surgiu quando ela e as irmãs perceberam que algumas profissionais não sabiam lidar com cachos. "As próprias cabeleireiras vizinhas fizeram a gente descobrir que esse ramo era bom, mandavam o pessoal no meu salão", relata.

Maria Clara Oliveira
Para Andreia, os fios crespos são uma sorte — que se converteu em conhecimento para atender outras cacheadas.

Se para as cabeleireiras os salões são um trabalho e uma forma de ajudar outras pessoas, para as clientes, esses locais são um espaço de incentivo e aprendizado. "Acho que se eu não tivesse recebido apoio aqui, não teria conhecido o meu cabelo cacheado", afirma Leila Raquel Rodrigues.

Ruim, não!

Voltar aos cachos é nadar contra a maré da progressiva. Para Andreia Oliver, a cobrança pelo alisamento aumenta quando o cabelo é crespo. "Uma vez um homem perguntou 'Nossa, um salão tão chique para cabelo ruim?'. A gente falou que não; para cabelos crespos, cacheados e volumosos!", relata. Ela acredita, porém, que esse preconceito já começou a diminuir: "Eu ouvi, a vida inteira, que meu cabelo era ruim; hoje, as pessoas querem ter um cabelo desses".

Leila discorda dessa mudança; para ela, o cabelo afro ainda causa impacto. "O cacheado nem tanto, mas o crespo, que você usa alto, parece que ainda está agredindo as pessoas. Você tem que ter a personalidade muito forte para usar um cabelo desse jeito e impor a sua presença", diz. Ela explica: "Foram anos achando que não era bonito, que não era para usar em ambiente social; o crespo ainda vai ser aceito, mas acho que esse é um movimento que ainda tem que acontecer com um pouco mais de força".

Maria Clara Oliveira
Voltar aos cachos é nadar contra a maré da progressiva.

O alisamento das madeixas de Rosi Ribeiro foi consequência de sua vida profissional. "Fui vendedora de imóveis e era cobrado que eu tivesse bom carro e bom cabelo", diz a publicitária. Na época, ela arrumava os cachos em tranças e ouviu que o penteado não passava confiança, mas "quando chegava com o cabelo lisinho, realmente fechava vendas".

Hoje, contudo, ela garante que todos podem usar o cabelo como querem — desde que não agridam regras básicas. "Não dá para trabalhar em um restaurante e chegar com um black power. No dia a dia, você deixa o cabelo como gosta; no trabalho, adequa ele à sua realidade. Isso é totalmente possível, sem perder o seu estilo e sem danificar o cabelo", afirma.

Cuidado especial

Maria Clara Oliveira
Rosi passou por um alisamento para atender às expectativas em sua vida profissional.

Assumir os cachos não se trata apenas de deixar o cabelo livre, é preciso aprender uma nova rotina de cuidados com os fios. "Lavo no domingo, hidrato. Na segunda–feira, só dou uma ajeitada, não penteio. No dia seguinte, amarro com um coque para manter o cacho. Lá pela quarta–feira, lavo de novo, finalizo e começo outra vez", conta Leila Raquel.

Andreia Oliver explica que "o cabelo cacheado é seco, mas tudo depende da cor, da mistura da família". Mesmo assim, é preciso tomar cuidados: "Não lavar com água quente nem colocar creme que não é apropriado. Pentear o cabelo todo dia, também não pode", alerta a cabeleireira. Para saber que creme usar, ela explica que as pessoas precisam conhecer a classificação de seu cabelo.

Cada cabelo, uma sentença

Cabelos são classificados em quatro tipos diferentes, cada um com três subdivisões. Do liso ao crespo, os fios são divididos quanto à estrutura molecular entre os tipos 1 a 4 e subtipos A a C, sendo que quanto maior o número ou letra, mais cacheado.

"Não é regra, mas quanto mais crespo o cabelo, mais finos os fios são", explica Rosi Ribeiro. Essa característica é a razão para o cabelo cacheado ser mais seco e sensível e para as diferenças entre os produtos indicados para cada pessoa. A cabeleireira Raquel dá exemplos: "Um cabelo 4C geralmente tem que usar um produto com mais óleo, para devolver a oleosidade. Um cabelo tipo 2, mais ondulado, geralmente é mais oleoso, tem que usar um produto um pouco mais leve para não ficar pesado", explica.

De comer ou passar na cabeça?

Com as redes sociais, receitas de beleza viralizam na internet, transformando a cozinha em loja de cosméticos. Leila Raquel já seguiu algumas dicas que usam comida como hidratante: "Coloquei mel no cabelo, pus uma touca, deixei 15 minutos; coloquei o creme de hidratação, deixei mais 15 ou 20 minutos e lavei. Ficou brilhoso, macio, hidratado".

Essas dicas, compartilhadas em redes sociais, WhatsApp e YouTube, dividem a opinião das cabeleireiras. "Não gosto dessas coisas, tiram nossa credibilidade; é melhor vir a um salão", recomenda Andreia Oliver. Uma das tendências que ela já notou na internet é o corte a seco. "Ele não é indicado para todo tipo de cabelo, mas falam que fica bom em qualquer um", diz — para ajudar as clientes, ela mesma publicou vídeos falando sobre o assunto.

Quanto às comidas usadas como cosmético — como o mel testado por Leila –, Rosi Ribeiro recomenda que os ingredientes sejam usados na alimentação. "Ao invés de bater tudo no liquidificador e passar no cabelo, se você consumir tudo no dia a dia e conciliar com bons tratos, vai ter um cabelo impecável", garante. Ela dá sugestões de alimentos que auxiliam o cabelo: "não sou nutricionista, mas sempre aconselho frutas e verduras, como beterraba, cenoura, laranja; o próprio abacate e o mamão, que são hidratantes".

Cacho sem obrigação

Com os cuidados necessários, conhecimento sobre o próprio fio e vontade de abandonar produtos químicos, Leila afirma que se libertou ao voltar para seu cabelo natural: "Os cachos são um sinônimo de liberdade! Já não me preocupo em sempre escovar o cabelo; hoje, é como se eu tivesse um tempo livre".

Mas não pense que, para usar o cabelo cacheado, é preciso abdicar de vez de fios lisos. "Não tem que ter uma imposição", alerta Rosi Ribeiro. "Se você quiser ir a um evento e usar o seu cabelo liso, a gente dá dicas. Identidade é uma coisa muito particular de cada um e tem que ir de você com o mundo, com a sua auto–estima", garante.

Quanto custa?

Os três salões de beleza mostrados nesta matéria são voltados exclusivamente ao tratamento de cabelos cacheados e crespos. O Cachos Brasil oferece vários serviços que podem ser feitos de forma única ou em pacotes semanais. O corte custa R$ 50 e a hidratação, a partir de R$ 60.

No Espaço Cacheei, os clientes precisam fazer uma avaliação dos fios, para definir o custo final de cada serviço. Procedimentos de hidratação custam cerca de R$ 120, mas os cortes de cabelo têm sempre o mesmo valor de R$ 50.

O Via Cachos também pede que cada cliente inicie o atendimento avaliando seu tipo de cabelo, para definir qual o tipo de tratamento necessário. O corte tem valor mínimo de R$ 30 e os outros procedimentos, de R$ 100, dependendo do resultado da avaliação capilar.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.