OPINIÃO
01/02/2018 10:37 -02 | Atualizado 01/02/2018 10:41 -02

Da guerra à paz do cerrado: Como vivem as mães refugiadas no DF

Vindas de diferentes países, mulheres enfrentam desafios para aprender a língua, trabalhar, cuidar dos filhos e reconstruir a vida em terra estrangeira.

Ana Cristina Pereira
Cecile e a filha de 12 anos: reencontro depois de três anos de separação.

*Artigo escrito por Ana Cristina Pereira, jornalista pós-graduanda em Jornalismo Digital e Produção Multimídia.

Tudo ficou para trás. Família, amigos, casa, pertences. O caminho percorrido por refugiados até um lugar seguro, longe de guerras, conflitos e perseguições, é repleto de histórias tristes. De dor e separação. Mas também de esperança em reconstruir a vida em terra distante e estranha. "Para não morrer, tive que fugir, deixando meus cinco filhos. Fiquei três anos sem vê-los", conta Cecile, 43 anos, viúva, refugiada da República dos Camarões, em Brasília há um ano.

"Minha história é de muita dor e sofrimento. Tive que ter muita coragem", diz ela, com os olhos marejados. O marido de Cecile foi assassinado em consequência de disputa de poder entre membros de um grupo étnico. "Sabia que seria a próxima a morrer. Precisava sair de meu país. Queria ir para a Alemanha, onde tinha parentes. Mas consegui visto para Cuba", relata Cecile. (Os nomes das entrevistadas da reportagem foram trocados para preservar a identidade).

Desembarcou em Havana, capital de Cuba, completamente sozinha. "Em poucos dias, o dinheiro acabou. Sem notícia de meus filhos, chorava dia e noite". Os cinco filhos ficaram em Camarões, com a mãe de Cecile. Com a morte da avó, ficaram sozinhos. Os filhos menores, gêmeos, na época da partida da mãe, tinham sete anos. O mais velho, de 20 anos, cuidou dos quatro menores.

"Em Cuba, um estudante de Benin me ajudou". Em seguida, com apoio de diplomatas do Benin, juntou a documentação necessária para ir ao Haiti. "A situação no Haiti foi mais difícil do que em meu próprio país". Depois de um ano no Haiti, Cecile obteve refúgio no Brasil.

Em maio de 2017, Cecile conseguiu trazer os cinco filhos para a Brasília. Foi quando a encontrei pela primeira vez, na inauguração do ateliê Mulheres que Inspiram o Mundo, na Asa Norte, criado com apoio do Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH) e Coletivo Bambuo. A mãe não continha a alegria de estar com todos os filhos perto.

Ana Cristina Pereira
Cecile e os três filhos mais novos.

"Meus filhos estão salvos, comigo", diz emocionada. Os desafios, agora, são muitos: arrumar trabalho, colocar os filhos na escola, aprender bem o novo idioma. Cecile fala francês, sua língua materna, e inglês.

São 22,5 milhões de refugiados no mundo

Cecile é um dos cerca de 230 refugiados que vivem no Distrito Federal, segundo o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), órgão interministerial presidido pelo Ministério da Justiça. No Brasil, são cerca de 10,5 mil refugiados.

Dados mais recentes da Agência da ONU para Refugiados (Acnur), divulgados em 20 de junho, dia em que se comemora o Dia Mundial do Refugiado, mostram que até o final de 2016, havia cerca de 65 milhões de pessoas vivendo fora de seus locais de origem, em virtude de algum tipo de conflito. Do total, 22,5 milhões são refugiados, número mais alto de todos os tempos.

A Síria continua sendo o local de origem de grande parte dos refugiados no mundo. Segundo a ONU, são 5,5 milhões de refugiados, em consequência da guerra civil, que já dura seis anos. Samira, 27 anos, é um deles. Ainda grávida, ela e o marido deixaram a capital síria Damasco, cruzando a fronteira em direção ao Líbano, onde nasceu sua primeira filha, hoje com quatro anos. Tempos depois, vieram para o Brasil. Em Brasília, Samira teve o segundo filho, que tem um ano.

Ver o país ser destruído pela guerra, separar-se da família, perder pessoas queridas são situações traumáticas. Os pais e o irmão de Samira e a família do marido também deixaram a Síria em momentos diferentes. Conseguiram refúgio na Suécia.

Apesar de gostar do Brasil e estar com filhos e marido, sente muita falta de tudo que deixou para trás. Indagada sobre qual é seu sonho, não hesita em responder: " voltar para a Síria, assim que a situação por lá melhorar".

Ana Cristina Pereira
Aisha:

A marroquina Aisha também teve uma filha no Brasil. No Marrocos, era professora. Apesar de estar há cinco anos em Brasília, fala pouco português. "É uma língua difícil. Minha filhinha se comunica bem em português. Em casa, falamos árabe e inglês". Diz que sente saudade da família e de seu país, mas vive feliz no Distrito Federal. "O importante é ter liberdade para mim e para minha filha".

Diferença entre refugiado e migrante

Segundo o Acnur, refugiados necessitam se deslocar para salvar suas vidas ou preservar a liberdade. Eles não têm proteção de seu próprio Estado e, muitas vezes, é seu próprio governo que ameaça persegui-los. Por isso, estão em situação muito vulnerável e têm proteção do Acnur.

Já os migrantes internacionais escolheram viver no exterior, principalmente por motivações econômicas e podem voltar com segurança a seu país de origem, se desejarem. Migrantes e refugiados são tratados de maneiras diferentes perante o direito internacional moderno.

Mãe de um menino de nove anos, a colombiana Rosário chegou a Brasília há três anos. Rosário, o marido e o filho deixaram o país pelos conflitos causados pela guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). "Estávamos sofrendo muitas ameaçadas e perseguições das Farc e viemos para o Brasil", explica.

Ana Cristina Pereira
Rosário e o filho de nove anos: preconceito contra o refugiado.

Atualmente, vivem em uma cidade satélite de Brasília, em uma pequena casa que conseguiram comprar com o dinheiro da rescisão do marido. Rosário pede para não ser identificada nem ter o rosto fotografado. Não quer ser apontada como refugiada em seu bairro, onde a presença de estrangeiro chama a atenção.

Rosário diz que, muitas pessoas têm um conceito equivocado de refugiado. "Somos pessoas de bem que não podem mais viver em seu país. Quero criar meu filho, trabalhar e levar uma vida normal". Rosário costura e vende comidas típicas da Colômbia.

Dificuldade para conseguir trabalho

Dona de uma loja de roupas na República dos Camarões, Cecile ao chegar a Brasília trabalhou em casa de família, onde também morava. Deixou o emprego e, com a vinda dos cinco filhos, mudou-se para uma casa pequena e começou a costurar e vender artesanato em feiras organizadas pelo Instituto Migrações e Direitos Humanos (IMDH) e entidades de apoio a imigrantes e refugiados. "Encontrar trabalho é muito difícil. Aqui tudo é caro", afirma.

Samira e seu marido também estão sem trabalho. Ela é formada em ciências financeiras e bancárias. O marido estudou rede de computadores na Síria. "Há muita dificuldade em encontrar trabalho. Aqui as coisas são mais caras que na Síria. Essa situação me deprime", desabafa Samira.

A médica síria Laila, o marido e a filha chegaram há oito meses. Também estiveram no Líbano, antes de vir para o Brasil. Laila tem um filho que estuda na China e uma filha, que permanece na Síria. "Na China, meu filho está seguro e pode terminar os estudos. Estamos vendo a documentação para que minha outra filha possa vir. Quero reunir minha família", diz Laila.

O Acnur, em parceria com entidades da sociedade civil, como o IMDH, promove e desenvolve projetos de capacitação para facilitar o acesso de pessoas refugiadas ao mercado de trabalho. Esses órgãos também incentivam a contratação de refugiados pela iniciativa privada e viabilizam a revalidação de diplomas.

Aprender a língua é passo importante

Saber falar português é requisito importante para conseguir trabalho e integração social. "A inserção no mercado de trabalho dificilmente é dentro dos parâmetros esperados, conforme a capacitação do imigrante ou refugiado. Por isso, entendemos que se a pessoa sabe a língua, pode conseguir um posto melhor", explica a professora Lúcia Barbosa, coordenadora do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Português para Estrangeiros (Neppe) da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo a professora, a maioria dos alunos do Neppe tem ao menos ensino médio. Outros, mestrado e doutorado. Aqueles ainda sem curso superior ou que não terminaram a graduação sonham em estudar na Unb.

Lúcia destaca que faltam políticas públicas para imigrantes e pessoas que buscam refúgio no país. O IMDH, diz a professora, dá assistência inicial aos refugiados. Alunos que necessitam de algum tipo de apoio também são encaminhados ao IMDH.

Eventualmente, a professora oferece ajuda pessoal aos alunos. Há algumas semanas, doou uma máquina de costura para uma aluna formada em moda. Outra iniciativa do Neppe foi um acordo com o DFTrans, para que os alunos recebam passe estudantil. Professores do Neppe também elaboram currículos profissionais para os alunos.

Pelas salas de aula do Neppe, já passaram 397 imigrantes desde sua criação em 2013. No primeiro semestre deste ano, dos 120 inscritos, de 17 nacionalidades, 14 são mulheres. O Neppe é um dos sete locais de ensino da língua portuguesa para refugiados e imigrantes. "Muitas mulheres não podem vir ao curso porque ficam em casa, cuidando dos filhos".

Sonho de rever a filha

Em um dos centros de ensino de português, encontrei a congolesa Lydie, 37 anos. Deixou a República Democrática do Congo há um ano e meio, por causa de conflitos armados e instabilidade politica. A única filha, de 14 anos, ficou na capital Kinshasa com a avó.

Lydie tem dom para costurar. Formou-se em moda e era professora em uma escola profissionalizante de moda, desenho e costura. "Quero voltar a estudar e me adaptar à moda feita no Brasil", diz com sotaque francês. Em Brasília, não trabalha em sua área de formação. Conseguiu emprego em um restaurante no Lago Sul. Quer trazer a filha para o Brasil.

Arquivo Pessoal
Foto que Lydie (à dir.) leva no celular.

Enquanto aguarda os trâmites burocráticos, ameniza a saudade por meio de redes sociais e fotos no celular, onde mãe e filha aparecem lado a lado em montagem unida por desenhos de corações e flores.

O que deseja Lydie? Um reencontro como o de Cecile com os filhos (do início da reportagem). Para uma foto, real, em que mãe e filha estejam unidas pelas mãos.

Arquivo Pessoal
Lydie e a filha: sonho de reencontro.