OPINIÃO
26/09/2015 14:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

10 coisas que você descobre após uma maratona no lugar mais controverso de Brasília

O Conic foi de point respeitado de lazer a "inferninho" em algumas décadas e hoje voltou a um estado "mais ajuizado". É um verdadeiro labirinto de galerias, escritórios e espaços públicos.

* Artigo e imagens de Daniel Zimmermann, jornalista, pós-graduando em Jornalismo Digital e Produção Multimídia

O Conic é a ovelha negra da família Plano Piloto. Ele tem a mesma origem (a mente do urbanista Lúcio Costa) e quase a mesma idade de outros pontos de Brasília, mas ao longo dos quase 50 anos desde sua inauguração, o Setor de Diversões Sul acabou se firmando como um dos locais mais controversos da capital.

Ele foi de point respeitado de lazer a "inferninho" em algumas décadas e hoje voltou a um estado "mais ajuizado". Dentro do quarteirão existe um verdadeiro labirinto de galerias, escritórios, espaços públicos e todo tipo de comércio e de pessoas. Todo tipo mesmo.

Lá você encontra desde lojas de skate, quadrinhos e moda urbana até igrejas evangélicas e lojas de artigos de Candomblé.

Aposto que poucos lugares no mundo têm tanto contraste por metro quadrado quanto estes mais de 10 prédios que, espremidos, compõem o Conic  --  e tudo isso bem no coração de Brasília, entre a muvuca da Rodoviária e o Setor Comercial Sul.

Para conhecer melhor a história do local e saber como andam as coisas por lá, fiz uma "reportagem-maratona" que começou cedo de manhã e foi até a noite do mesmo dia, com direito a uma volta na madrugada seguinte. A seguir você reconstitui o que eu descobri (e redescobri) explorando o lugar:

1 .  O Conic teve um passado "nobre" como centro de lazer

Antes de bordéis, usuários de drogas e cinemas pornográficos se instalarem no Conic, o lugar era considerado um point "respeitado" de lazer.

Ele foi inaugurado em 1967 e na época fazia jus ao nome oficial de "Setor de Diversões Sul". Havia cinemas, boates e salas de jogos. Até embaixadas já tiveram sede provisória no lugar, o que dava a ele um ar sofisticado.

Marcos Pimentel, hoje dono de um fliperama no próprio Conic, tinha oito anos quando veio para Brasília. Ele está aqui desde a inauguração da capital e viu de perto essa fase.

Ele me contou, ao lado do amigo Ary Ximenes, que também frequenta o lugar há quase 30 anos, como eram as coisas naquela época:

"Antigamente aqui só tinha diversão. Cinemas, teatro... até a primeira casa de queijos e vinhos de Brasília foi aqui. Tinha tudo a ver com diversão e cultura."

Só que, como todo brasiliense sabe, isso mudou. Diversas opções de lazer foram jogando o Conic para escanteio, e o lugar acabou ganhando uma fama bem diferente da que tinha no início de sua "carreira".

2. Foi a fase "polêmica" que marcou a memória da capital

É difícil dizer exatamente quando, mas em certo momento o Conic começou a perder o posto de centro de lazer e a ganhar a fama de "inferninho". Saíram os cinemas e boates respeitadas e entraram bordéis, cinemas pornográficos, prostituição e usuários de drogas.

O lugar entrou em uma fase de "decadência moral" (e física). A gente sabe que esse lance de decadência moral é bem relativo, mas é fato que essa fase polêmica do Conic está gravada no imaginário coletivo do brasiliense até hoje.

Os comerciantes com quem eu conversei descreviam essa fase do SDS usando expressões como "lugar amaldiçoado", "cheio de putaria", "cracolândia de Brasília" e "estigmatizado".

A contracultura sempre foi forte lá, com shows de diferentes estilos musicais e a presença de seus grupos. Grupos que, às vezes, saíam na porrada, como punks e neonazistas. E além disso tudo, ainda rolavam festas bem liberais nas madrugadas...

Local onde ficava o Espaço Galleria, conhecido por abrigar festas no Conic

Robson Barbosa Jr., um rapaz que participava dessas festas, me contou que até pouco tempo elas eram frequentes no Espaço Galleria, uma casa noturna que fica dentro do Conic. "Tinha heterossexuais, gays, lésbicas, simpatizantes, travestis", ele descreveu. "Tinha um palco que ficava aberto para as pessoas dançarem, fazerem performances."

As festas liberais faziam muita gente torcer o nariz. As pessoas tinham "medo" ou vergonha (ou uma mistura de ambos) de entrar no Conic. O "x" da questão, porém, é quem se assustava e com o quê...

3. Do punk ao diplomata: É um centro de diversidade cultural

Ao longo das décadas, o Conic conseguiu manter uma de suas principais características: a diversidade cultural.

Lá você vê pessoas de diferentes ideologias dividindo o mesmo espaço.

Ives Cristiano, o camarada da foto acima, veio da Bahia há 15 anos e hoje trabalha em uma loja de artigos de reggae.

Ele explica que, além das vendas, ele transmite aos frequentadores valores rastafari e fomenta discussões, como a descriminalização da maconha, sem entrar na apologia e com caráter educativo. O Conic é um espaço ideal para esse tipo de diálogo aberto.

Também encontrei uma igreja evangélica a literalmente poucos passos de uma loja de artigos de umbanda.

Helena Mesquita, que é dona do estabelecimento, disse que a convivência é pacífica. "São seis igrejas evangélicas ao nosso redor", ela explica, "e nós conversamos numa boa, não tem discriminação. Aqui mesmo vêm pessoas de diferentes religiões comprarem nossos artigos".

Lima Neto, dono de uma loja de quadrinhos que existe há quase 20 anos no Conic, também percebe esse fenômeno no dia a dia:

"Esse é um lugar de sincretismo; a gente tem várias facções diferentes, formas de pensar diferentes no mesmo espaço. A gente falava 'do punk ao diplomata'. Tinha cliente que era punk que vinha comprar revista todo mês e tinha diplomata que vinha comprar também."

Lima Neto, dono de uma loja de quadrinhos no Conic, com uma das pérolas do local

4. Comércio, cultura e convívio social se misturam

Outro traço marcante que você percebe no SDS é como o lugar consegue borrar a linha entre comércio e cultura. Laços de amizade são criados entre vendedores e clientes e muitas vezes suas histórias se misturam.

"O Conic é um lugar onde se vende produtos subjetivos. Produtos culturais subjetivos", me contou o Lima, da loja de quadrinhos. Ele mesmo foi um leitor e cliente da loja antes de se tornar sócio. "Tem uma galera que chamamos de 'escorados da Kingdom', o pessoal que encosta aqui no balcão e fica conversando. Temos muitos amigos que também são clientes."

E essa tendência se repete em vários outros estabelecimentos. A loja de artigos de reggae, por exemplo, tinha um sarau agendado, que seria realizado ali em frente mesmo para reunir os fãs do gênero.

Em outro ponto do Conic, no fim da tarde, encontrei um grupo de senhores que conversava próximo a uma pequena banca que vende livros usados, aproveitando que o sol do Planalto Central começava a dar uma trégua. E durante o dia todo era comum ver pessoas entrando em diversas lojas apenas para bater um papo.

Reinaldo Freitas, dono de uma loja de discos com seu LP favorito

5. O rock e vários gêneros musicais estão no DNA do Conic

É impossível separar o Conic da música. Há 15 anos eu já ia lá com amigos assistir a shows de rock e lembro bem da atmosfera do lugar. Esses eventos continuam acontecendo nas áreas públicas do SDS, principalmente nos finais de semana, e trazem diversos estilos: rap, hip-hop, hardcore, reggae, metal, punk... a lista vai longe.

Reinaldo Freitas, dono de uma loja de discos e de uma coleção de cerca de quatro mil LPs, vem acompanhando a cena musical do lugar há 26 anos. Ele encarou o boom do CD em 1992 aderindo à nova tecnologia e mesmo assim conseguiu manter viva a tradição do vinil, em parte a pedido dos próprios clientes. Além de atender esse público, a loja virou um ponto de encontro de fãs de rock e outros estilos. "A loja deu muito certo", ele contou, "virou ponto de artistas, referência para músicos, para divulgação".

Independentemente se passava por uma fase de glória ou de decadência, a música e a cena alternativa sempre estiveram no sangue do Conic, e elas não vão sair tão cedo.

Rafael Megera, vocalista de uma banda de rock industrial e produtor musical com quem conversei resumiu:

"Ainda tem aquela pitada do underground no meio do Conic. Acho que isso nunca vai deixar de ser. Só se eles fechassem essas paredes e falassem que agora isso é um shopping."

O vampiro Vlad Thepes, que hoje trabalha em uma loja de discos do Conic

6. É uma fábrica de histórias: shows perdidos, mães arrependidas e até vampiro!

Com tanta gente diferente, não é de se espantar que o Conic tenha uma série de histórias interessantes para contar -- muito mais do que seria possível apurar em um dia e uma noite.

Na loja de discos que visitei, tive o prazer de conhecer uma figura ilustre do lugar: Vlad Thepes, o vampiro.

Morador de Brasília há nove anos, ele era "um metaleiro como outro qualquer" quando chegou, mas a paixão pelo estilo gótico e pela cultura do vampirismo falou mais alto. Ele assumiu o personagem, com direito a caninos afiados, unhas longas e traje caraterizado.

"Eu vivo mais o personagem na realidade do que a realidade da pessoa por trás do personagem", disse. E ele ainda aproveita o personagem para promover campanhas de conscientização.

"Se um vampiro chega para você e fala assim: 'O hemocentro precisa de doadores de sangue', não precisa nem de panfleto", completou, com bom humor.

Além da história do Vlad, me marcou uma história da dona Helena, da loja de artigos de candomblé. Ela disse que certa vez sua loja foi visitada por uma senhora bem vestida que trazia uma lista de produtos e queria recorrer à forças sobrenaturais para fazer mal à própria filha.

"Ela chegou chorando, dizendo ter sido traída pelo companheiro e pela própria filha. Eu fechei a lista e me recusei a vender o que ela queria. Disse que ela deveria se acalmar e procurar a verdade, porque aquilo poderia ser um engano."

A mulher saiu contrariada, mas descobriu que realmente tratava-se de um mal-entendido e voltou, semanas depois, para agradecer à dona Helena.

Em outro caso, o Lima da loja de quadrinhos me contou que um cliente de sua loja perdeu o primeiro show do U2 no Brasil porque ficou conversando mais do que deveria com o pessoal do estabelecimento. A excursão que o levaria ao evento acabou cansada de esperar e foi embora, deixando o rapaz que só lembrou quando já era tarde demais. "Tem essa coisa da pessoa ficar meio magnetizada [aqui]", disse ele.

Como ele mesmo completou, as histórias do Conic não caberiam em apenas um caderno -- elas renderiam uma verdadeira antologia...

7. Existe uma dinâmica urbana vibrante dentro e fora do Conic

Se um dia você comprar água mineral de um vendedor ambulante nas redondezas da Rodoviária ou em um semáforo perto de lá, pode saber que há grandes chances de a garrafa ter saído do Conic.

Apesar de ser mais conhecido pelas lojas alternativas, pelos shows e pelo tal passado "sórdido", existe um complexo ecossistema urbano funcionando dentro e fora do lugar. Na base do quarteirão encontram-se diversas distribuidoras, de bebidas alcoólicas e garrafões de água a doces e artigos para festas, e elas abastecem o comércio de toda a região.

No seu interior, diversas galerias estreitas e mal-iluminadas levam a depósitos, copiadoras, lojas de informática e até fábricas de bolos e salgados. Acima delas, inúmeros escritórios e salas comerciais se empilham nos edifícios do Conic, oferecendo todo tipo de serviço administrativo.

Do lado de fora é um verdadeiro formigueiro humano -- o que é de se esperar em se tratando de um lugar que fica entre a Rodoviária e demais regiões centrais de Brasília.

Vendedores ambulantes dividem espaço com compradores de ouro e tentam fisgar possíveis clientes em meio à multidão que passa por ali todos os dias. É um prato cheio para quem gosta de estudar a dinâmica de um grande centro urbano.

8. Por bem ou por mal, é um lugar bastante politizado

Nem o sol do meio dia nem a seca feroz desta época do ano impediram a realização de uma assembleia que presenciei na parte de trás do Conic, no dia da reportagem.

Entre palavras de ordem e votações, consegui apurar que se tratava de um encontro do Sindicato dos Processadores de Dados. Daquilo poderia sair uma greve se as negociações por reajustes salariais não funcionassem.

Isso ilustra o lado politizado do Conic. Diversos sindicatos têm sede no local, como o Sindicato dos Vigilantes, do Comércio Hoteleiro e até a CUT, a Central Única dos Trabalhadores.

Lá encontra-se todo tipo de manifestação política e ideológica, até mesmo nas paredes. Em que outro tipo de lugar você encontraria, bem perto uns dos outros, uma placa de entrega à população da época de Ernesto Geisel e da ditadura militar, um cartaz anti-fascismo e um grafite do rosto de Che Guevara?

O Rafael Megera, músico que conheci na loja de discos, soltou uma frase que sintetiza a atmosfera democrática do local: "O Conic é pro público, é pro povão, cara. É para qualquer tipo de gente."

O ponto é que, independentemente da orientação política, o lugar é aberto para a participação pública e a expressão dos mais diversos ideais.

9. Todos concordam que agora o Conic é um lugar bem mais "tranquilo"...

Se antes era "temido" e "maldito", a realidade é que hoje praticamente todas as pessoas com quem você conversa resumem o ambiente em uma palavra: "tranquilo". Já eram umas 20h30 quando encontrei o grupo de jovens da imagem acima, treinando passos de break e tirando fotos em um dos pátios internos do Conic. Perto dali, gente saindo do trabalho se encontrava nos bares para fazer um happy hour. Tudo numa boa.

Durante o dia, com o comércio aberto, você vê todo tipo de gente passeando: de hippies e metaleiros a mães com seus carrinhos de bebê. "Comparado a 15 anos atrás, isso aqui é um paraíso", disse o vigilante Renato Paes, com quem conversei no início da noite.

Trabalhando no local há 16 anos, ele explicou que hoje apenas uma entrada fica aberta durante a noite, e que pouca gente perambula pelo local depois das 23h, a não ser quando há algum evento.

10. ...mas ele ainda não é exatamente seguro de madrugada.

Depois de passar o dia e o começo da noite explorando o Conic, eu voltei de madrugada para dar um rolê e conferir se a situação noturna de lá batia com os relatos das pessoas. Não encontrei bordéis nem prostitutas nos arredores do quarteirão, algo que seria bem diferente há alguns anos.

O máximo que pude confirmar foi a presença de pessoas no estacionamento de trás do Conic, local que, segundo o pessoal que trabalha lá, é ponto de tráfico de drogas. Ainda assim havia a presença de uma viatura da PM nas proximidades.

Alguns comerciantes disseram que a criminalidade está mais alta no Setor Comercial Sul, que fica bem próximo ao SDS, e lá também foi possível ver a movimentação da polícia revistando duas garotas.

No geral, o que se aplica é o que me disseram durante o dia: "a região toda é perigosa de madrugada, mas geralmente é só o Conic que leva a fama".

* Este texto foi publicado originalmente no Medium.

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