OPINIÃO
27/04/2015 18:06 -03 | Atualizado 29/01/2017 13:28 -02

'Vocês viram o que aconteceu na quadra da Pavilhão 9? Eles eram meus amigos'

Uma pessoa é assassinada. Seja pela polícia, por uma facção criminosa, seja inocente ou não, é uma pessoa. A mídia porém busca rotular o indivíduo não como indivíduo, mas como coisa, palavra chamativa nas manchetes. Isso quando não um mero número. A imprensa dirá: "Um dos mortos na chacina era suspeito de tráfico" ou "já tinha passagem pela prisão". Ou seja, será que faz diferença? Será que a história de vida de um dos falecidos muda o cenário social de violência de um Estado?

EDISON TEMOTEO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

"Vocês viram o que aconteceu na quadra da Pavilhão Nove? Eles eram meus amigos." A voz embargada de Mariana Ramos, 20 anos, silenciou o zunido comum do início das aulas de novas tecnologias dos terceiros anos de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. "Não é a primeira vez que perco pessoas em situações tão violentas. Já vi amigos de infância morrerem assim. E tenho certeza de que não será a última." O choro contido da única aluna negra da turma mobilizou os colegas que nunca passaram por algo semelhante. A aula teórica deu lugar a um exercício prático: "produzir uma narrativa multimídia analítica: como a mídia tem reportado o tema e como poderia ser feito?" A sala foi dividida em grupos para produzir o conteúdo abaixo.

Uma pessoa é assassinada. Seja pela polícia, por uma facção criminosa, seja inocente ou não, é uma pessoa. A mídia porém busca rotular o indivíduo não como indivíduo, mas como coisa, palavra chamativa nas manchetes. Isso quando não um mero número.

A imprensa dirá: "Um dos mortos na chacina era suspeito de tráfico" ou "já tinha passagem pela prisão". Ou seja, será que faz diferença? Será que a história de vida de um dos falecidos muda o cenário social de violência de um Estado?

A voz de quem apenas gostaria que o filho tivesse boa educação, espaço no mercado de trabalho, e precisa aceitar à força a violência ao lado de casa, essa voz a mídia não escuta. Não chega até a classe média, senão pelos meios mais audaciosos. Enquanto isso, jovens de classe média traficam centenas de quilos de drogas, mas não são, pela imprensa burguesa, considerados traficantes, mas jovens da periferia, com gramas de drogas, podem acabar na prisão, ou até na vala.

Infográfico produzido pela revista TRIP com base na pesquisa de opinião pública realizada em 2012 pelo Datasenado

O jornalismo, em sua essência primária, informa. Muitos afirmam que se esse for o caso, detalhes além dos imprescindíveis não são necessários. Como, hoje em dia, duas fontes são consideradas bases razoáveis para criar uma matéria? Como em notícias representando todo um país, a maioria entrevistada é de origem branca e de classe privelegiada? A dualidade, que representa inúmeros pontos de vista em reportagens, está desaparecida entre o que proporciona audiência e o que a afasta. A chacina, em termos jornalísticos, é uma "pauta quente" que daqui uma semana será esquecida entre os links dos sites e arquivos dos jornais.

Mariana é a única estudante negra de uma turma de 44 estudantes de uma das melhores faculdades de comunicação do Brasil. A proporção não é tão diferente de outras salas da Cásper ou de faculdades renomadas, privadas e públicas, pelo país, um dos indícios do racismo estrutural que vivemos. Mas não podemos desconsiderar os avanços. Há algumas décadas estudantes e professores negros nem estavam presentes, o que reforçava, em ambientes intelectualizados, o mito da democracia racial. Sem uma aluna negra impactada pelo assassinato de jovens negros, dificilmente teríamos nos debruçado nesta análise. A presença da Mariana evidencia a responsabilidade que todas e todos temos como futuros jornalistas, de reportar o genocídio de jovens negros no Brasil. Afinal as mortes do Pavilhão 9 não são um caso isolado. Na mesma semana foram registradas outras três chacinas, somente na cidade de São Paulo.

Esperamos que essa análise contribua para que mais jornalistas se comprometam a investigar e reportar a verdade que está por trás das mortes noticiadas. Reunimos algumas ideias de fontes para colaborar com quem quer fazer boas resportagens, sem silenciar vozes:

Pessoas:

- Mães das vítimas (em especial de Marco Antônio Corassa Júnior [Marquinhos]/ Matheus Fonseca de Oliveira)- ambos tinham 19 anos

- Esposa do Mydras Schmidt Rizzo

- Amigos dos dirigentes falecidos

- Phillip Gomes Lima (presidente da Pavilhão 9)

- Testemunhas

Organizações e movimentos da sociedade civil:

Movimento Mães de Maio / Rede Nacional)

Douglas Belchior (UNEAFRO / Comitê )

Juninho (Círculo Palmarino)

Coletivo Quem / grupo de psicólogos em apoio às vítimas

Rapper Pirata: (Fórum Hip-Hop / Comitê / Campanha)

Tais Herdy - assessora de comunicação da Anistia Internacional

Escritório da ONU em SP - 2505-5215

Especialistas:

Núcleo de Estudos da Violência da USP

Sueli Carneiro, doutora em educação e diretora do Geledés

Denis de Oliveira - ECA/USP

Poder público:

- Eduardo Suplicy: secretário municipal de direitos humanos

- Gabriel Medina: secretário nacional de políticas para a juventude

- Seppir: (Comunicação Social Telefone: (61) 2025-7043 Fax: (61) 2025-7088 E-mail: seppir.imprensa@seppir.gov.br

Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito da Violência contra Jovens Negros, deputado Reginaldo Lopes (PT-MG)

Páginas que podem ajudar a compreender a questão:

Campanha Jovem Negro Vivo

Contra o Genocídio

Por Amanda Gomes Lemos, Bianca Santana, Gabriella Baliego, Isabella Marinelli, José Felipe Adorno

Juliana Machado, Leticia Orciulo, Mariana Canhisares, Mariana Nogueira, Mariana Ramos, Michelle Prazeres, Natália Tomé Scalzaretto, Octavio Milliet, Rodolfo Vicentini, Stephanie Vapsys, Thais Nascimento, Vitória Vaccari.

Um agradecimento especial à professora Tatiana Ferraz que colaborou com os cortes dos vídeos.