OPINIÃO
30/07/2015 15:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Donald Trump fortalece os déspotas e prejudica a imagem dos Estados Unidos no exterior

Esse especialista em autopromoção e seu muro racista não representam os Estados Unidos: eles envergonham o país e vão acabar na lixeira da política americana.

Scott Olson via Getty Images
OSKALOOSA, IA - JULY 25: Republican presidential hopeful businessman Donald Trump speaks to guests gathered for a rally on July 25, 2015 in Oskaloosa, Iowa. During his last visit to the state Trump sparked controversy when he said Senator John McCain (R-AZ), a former POW, was not a war hero. (Photo by Scott Olson/Getty Images)

LA PAZ - O Pato Donald tinha um tio velho, rico, avarento e sem coração, chamado Tio Patinhas. O personagem era obcecado por acumular dinheiro, tomava banho numa piscina de dólares e tinha sua própria série de TV.

Recentemente, um outro Donald anunciou sua pré-candidatura à Presidência dos Estados Unidos. Como o Tio Patinhas, ele é rico, adora dinheiro, ostenta sua riqueza e tem sua própria série de TV. Também é um narcisista de primeira grandeza e um racista abominável.

Quando lançou sua campanha, Trump conseguiu algo notável - nunca ninguém ofendeu tantas pessoas, tão profundamente, com tão poucas palavras. Ele afirmou que o México "... está mandando [para os Estados Unidos] pessoas que têm muitos problemas, e elas estão trazendo esses problemas consigo. Estão trazendo drogas. Estão trazendo crime. São estupradores".

"Não vêm só do México", continuou Trump. "Vêm de toda a América Latina e do Sul".

Ele terminou com um floreio: "Vou construir um muro muito, muito grande na nossa fronteira sul. E vou fazer o México pagar por ele". Trump acrescentou: "Vou derrubar a ordem executiva do presidente Obama sobre imigração". A ironia de um americano propondo a construção de um muro mexicano para manter as pessoas DENTRO do país, replicando no Rio Grande o Muro de Berlim, parece não ter perturbado Trump. Ele não hesitou em roubar uma página do livro de Kruschev.

"Trump tem tantas chances de ser eleito presidente quanto de ganhar o seu concurso de Miss Universo."

Donald Trump é um intolerante de ultradireita que repetiu e defendeu seus vis comentários. É quase impossível demonstrar tamanha mistura de preconceito, racismo, intolerância, arrogância, ignorância e imprecisão factual com tão poucas frases. Poderia usar muitos outros exemplos. Defensores do ódio sempre encontram maneiras de estigmatizar milhões de pessoas. É isso o que Trump vem fazendo, usando o terrível assassinato de uma jovem em São Francisco pelas mãos de um criminoso mexicano. Mas esse criminoso representa os imigrantes tanto quanto o atirador de Charleston representa os jovens brancos, ou Trump, os empresários americanos.

Os latino-americanos não devem se preocupar muito. Trump tem tantas chances de ser eleito presidente quanto de ganhar o seu concurso de Miss Universo.

A cada quatro anos, perguntam aos latino-americanos se eles preferem o candidato democrata ou republicano. Deveríamos responder sempre que preferimos o liquidificador. Os democratas gostam de acolher nossa gente e tratá-la com dignidade, mas não querem comprar nossos produtos, como ficou claro na legislação da Parceria Trans-Pacífica, defendida ferrenhamente por Colômbia, Peru, México e Chile. Os republicanos, em geral, apoiam a integração comercial, a compra dos nossos produtos e os mercados abertos, mas são contrários a reformas do sistema de imigração que visam tratar os latinos de forma mais humana. Portanto, a América Latina precisa desse liquidificador: programas de imigração democratas e políticas comerciais republicanas. Incrivelmente, Trump consegue estar do lado errado nas duas questões: ele é contra nossa gente e contra nossos produtos.

Mas não são só os latinos as vítimas de Trump. Está claro que ele acredita numa estratégia de campanha masoquista: ofenda o maior número de pessoas para maximizar a atenção recebida e finja que os insultos são coisa de quem "não tem papas na língua". Alguns dias atrás, numa passagem de 25 minutos pelo Estado de Iowa, ele conseguiu ofender um herói americano (o senador John McCain) e prisioneiros de guerra; depois ele ridicularizou a comunhão e disse que não vê necessidade de pedir perdão a Deus. Latinos, McCain, prisioneiros de guerra, veículos de imprensa e concorrentes: todos deveriam sentir-se aliviados. Se esse homem "perfeito" não precisa pedir perdão a Deus, não temos por que esperar desculpas de Trump quando ele descer à Terra.

O The Huffington Post acertou: Trump deveria aparecer na seção de entretenimento, não de política, apesar de o Cartoon Network ser o lugar mais adequado para ele.

Infelizmente, as bravatas de Trump têm efeitos colaterais na política interna americana e na marca dos Estados Unidos na América Latina.

"Se Trump conseguir manter os republicanos fora da Casa Branca durante vários anos, talvez o partido convença Shakira a ser a salvadora em 2028."

O veneno que Trump destila contra os latinos poderia desencadear uma síndrome de Pete Wilson nos Estados Unidos. Wilson foi o governador republicano da Califórnia que, nos anos 1990, foi reeleito com base em uma plataforma de referendos anti-latinos. Foi uma vitória de curto prazo que acabou causando problemas de longo prazo para seu partido: o Estado que produziu Ronald Reagan virou um bastião democrata, porque os republicanos alienaram um grupo de eleitores cada vez maior e mais mobilizado. Mas calma lá. Schwarzenegger não foi eleito governador? Sim, mas ele não conta; era uma celebridade. Se Trump conseguir manter os republicanos fora da Casa Branca durante vários anos, talvez o partido convença Shakira a ser a salvadora em 2028.

Trump está claramente preso nos anos 1960-70. Na época, era melhor que os latinos escondessem sua origem, esquecendo nossa língua natal e anglicizando nossos nomes. Foi o que aconteceu com a filha de um boliviano chamado Armando Tejada. Ela teve de lutar para manter seu nome, Raquel, foi proibida de falar espanhol e teve de adotar o sobrenome do marido para se tornar uma estrela mundial do cinema: Raquel Welch. Esses tempos ficaram para trás (sim, Ted Cruz, ficaram mesmo; tudo bem ser latino). Trump sabe disso, pois tem de lidar com a ira, o opróbrio e a rejeição de empresas, mídia, celebridades e ativistas latinos. Ele pode entrar para a história como o mais eficaz catalisador do voto hispânico dos Estados Unidos.

Os republicanos nunca tiveram um candidato presidencial viável capaz de falar espanhol. Agora, eles têm três: Jeb Bush, Ted Cruz e Marco Rubio. As diatribes e invectivas de Trump obliteraram essa vantagem da língua. Foi decepcionante testemunhar a reação tíbia dos líderes republicanos contra esse candidato racista. E tudo ficou ainda mais doloroso quando todos denunciaram o ataque de Trump a McCain e os prisioneiros de guerra.

Muitos republicanos claramente esqueceram que um jovem Bill Clinton, no verão de 1992, repudiou publicamente uma rapper num evento de Jesse Jackson. Clinton, que se posicionou como um candidato centrista, foi eleito presidente e criou o lendário "momento Sister Souljah", que entrou para o vocabulário da política (a expressão é usada quando um candidato denuncia alas extremistas de seu próprio partido, demonstrando sua independência em relação a elas). Só um candidato republicano capaz de mandar um "Mano Donald, VOCÊ não PAGOU por esse microfone" pode concorrer seriamente pela presidência dos Estados Unidos. Do contrário, a declaração de Romney de que os "mexicanos vão se autodeportar" - que levou à perda de uma enorme quantidade de votos hispânicos - vai ser repetida e amplificada.

Seja comércio, política antidrogas, imigração, energia, Venezuela ou qualquer outra questão, os latinos deveriam apoiar candidatos que propõem soluções, não meramente votar no partido que nos odeia menos. Infelizmente, os ataques contínuos de Trump vão acabar corroborando um antigo adágio: não importa o quanto um partido sabe sobre a gente, o que importa é o quanto ele se preocupa com a gente. Em nome do seu partido, Trump dá uma resposta sem margem a dúvidas, que, se não for desafiada, terá um efeito de longuíssimo prazo.

"Trump está prejudicando a marca dos Estados Unidos em todo o mundo."

Para além da política doméstica, Trump está prejudicando a marca dos Estados Unidos em todo o mundo. Ele é o estereótipo negativo do "bullying" americano que governantes autoritários e corruptos usam para se manter no poder, cercear a liberdade de imprensa e perseguir a oposição. Todos esses abusos podem ser varridos para debaixo do tapete quando se evoca a luta mítica de Davi contra Golias. Trump é um Golias perfeito para muitos bandidos e jagunços que se disfarçam de Golias mundo afora.

O atual presidente da Venezuela, o infeliz mas implacável Nicolas Maduro, é um exemplo bem-acabado desse tipo de líder. Maduro imediatamente denunciou as declarações de Trump, saindo em defesa do orgulho latino numa tentativa de disfarçar o fato de que ele tem posições semelhantes. Maduro deporta grandes números de colombianos, dizendo que eles atravessam a fronteira do país e arruínam a economia venezuelana. Ele também é violentamente contra o livre comércio, como Trump.

É simples: se Trump puder colocar a culpa dos problemas dos Estados Unidos em vizinhos pequenos como o México, apontando tramas conspiratórias em seus governos e insuflando os eleitores americanos a odiar os mexicanos (Golias botando a culpa em Davi), então os Maduros do mundo podem culpar o "império americano" pelas catástrofes econômicas que eles causam em seus países.

É por isso que, se Trump seguir desimpedido, ele pode ter um efeito Pete Wilson no segundo maior contingente de eleitores dos Estados Unidos. Trata-se de um problema doméstico. Mas seria muito prejudicial se ele vier a simbolizar o "terrível bully americano" para as populações fora dos Estados Unidos e se sua imagem acabe sendo manipulada por líderes que gostam de botar a culpa nos outros, como Maduro. Falando em liquidificadores, fica cada vez mais claro que Trump é o resultado da mistura da xenofobia e Wilson com a demagogia e o nacionalismo de Maduro.

Esse especialista em autopromoção e seu muro racista não representam os Estados Unidos: eles envergonham o país e vão acabar na lixeira da política americana. Os Estados Unidos que o mundo admira são representados pelos dois grandes ícones políticos dos últimos 70 anos: um democrata, outro republicano. Eles fizeram discursos inesquecíveis à sombra do símbolo da opressão que era o Muro de Berlim. O primeiro, John Kennedy, falou a 120 000 alemães em 1963: "Ich bin ein Berliner" (sou um berlinense). O segundo, Ronald Reagan, falando sobre a União Soviética, em 1987: "Derrubem esse muro".

Quando xenófobos desvairados repetem os insultos desse magnata contra os latinos, deveríamos presenteá-los com as fotos de Kennedy e Reagan pisando nas piñatas com a cara de Trump. A legenda diria simplesmente: "Ich bin ein Americano, México-Americano, Norte-Americano, Sud-Americano, Centro-Americano... Derrubem esse muro".

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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