OPINIÃO
13/03/2015 14:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Pontos corridos ou como aprendi a parar de me preocupar e amar o mata-mata

Depois de 12 edições seguidas do Campeonato Brasileiro disputadas pela fórmula dos pontos corridos, vários clubes estão fazendo lobby pela volta do mata-mata. Se você não é muito afeito afeito à terminologia futebolística, o campeonato por pontos corridos é a coisa mais simples - e também mais chata - do mundo: todos os times se enfrentam em turno e returno. O campeão é aquele que somar mais pontos. No campeonato mata-mata, inventa-se alguma fórmula maluca - essa é só uma das partes legais - para classificar quatro, oito, 16 ou outro número qualquer, e a partir daí esses times enfrentam-se em partidas decisivas até a grande final entre os dois melhores.

LUIZ COSTA/HOJE EM DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Depois de 12 edições seguidas do Campeonato Brasileiro disputadas pela fórmula dos pontos corridos, vários clubes estão fazendo lobby pela volta do mata-mata. Se você não é muito afeito afeito à terminologia futebolística, o campeonato por pontos corridos é a coisa mais simples - e também mais chata - do mundo: todos os times se enfrentam em turno e returno. O campeão é aquele que somar mais pontos. No campeonato mata-mata, inventa-se alguma fórmula maluca - essa é só uma das partes legais - para classificar quatro, oito, 16 ou outro número qualquer, e a partir daí esses times enfrentam-se em partidas decisivas até a grande final entre os dois melhores.

Existe uma corrente antiga no jornalismo esportivo brasileiro que sempre tratou a implantação do campeonato por pontos corridos como a panaceia que curaria nosso futebol de todos os males. Todos sabemos o quanto jornalistas podem ser chatos, ainda mais os esportivos, gente que leva o futebol realmente a sério e discute um impedimento com a mesma gravidade que filósofos e cientistas se perguntam por que existe o mundo e não apenas o nada.

Pois nos parágrafos seguintes vou derrubar a tese mais chata criada pelos seres mais chatos do jornalismo: a de que os pontos corridos é a melhor fórmula de disputa para o Campeonato Brasileiro.

Cinco motivos pelos quais deveríamos acabar já com os pontos corridos:

Nº 1: Justiça monetária

Pretensamente a maior vantagem dos pontos corridos seria sua suposta justiça. Afinal, não há mistério: todos jogam contra todos, quem faz mais pontos é o campeão. Então vamos falar de justiça em um campeonato em que times como Corinthians e Flamengo recebem mais de 100 milhões de direitos de tevê e Chapecoense e Joinville recebem um quinto disso. Qual a justiça nisso? Vão disputar o campeonato em condições iguais? Desde que os pontos corridos foram implantados, somente os times com mais grana levaram o título, como o São Paulo e o Fluminense com a grana da Unimed. Bahia, Coritiba, Atlético Paranaense campeões? Esqueça. Vitória, Bangu, Brasil de Pelotas, Londrina, entre os primeiros? Nunca mais. "Ah!", dirão os coxinhas das tevês a cabo, "o campeonato por pontos corridos também premia os clubes melhor administrados, como o Cruzeiro", o que nos leva ao segundo ponto.

Nº 2: Craque da rodada: o balancete financeiro

Que lindo, não? Um campeonato de futebol feito para premiar o time com a melhor estrutura FORA DE CAMPO, com o melhor centro de treinamento, que paga em dia os jogadores, que tem um marketing sensacional, um plano de sócios excelente, uma arena ultramoderna, superávit nas contas, e por aí vai. Tudo muito bonito. Mas preciso ser chato e lembrar a todos de que nada disso é futebol. Se vamos usar essa métrica para decidir o campeão brasileiro, vamos contratar uma auditoria, fazer um ranking dos clubes mais bem administrados e transmitir tudo ao vivo antes do Domingão do Faustão. Se bobear, vai dar tanta audiência quanto os tediosíssimos jogos do Brasileiro por pontos corridos naquela fase em que o campeão já tem 897 pontos de vantagem sobre o segundo colocado e ainda faltam 1.345 rodadas para terminar o campeonato.

Nº 3: É chato pra dedéu

"Todo jogo é uma final", dizem os espertalhões, lembrando que a primeira rodada vale tanto quanto a última. Sim, mas vá explicar isso ao CORAÇÃO do torcedor. Não tem argumento racional que tire o sujeito de casa nas primeiras rodadas, quando ainda restam um trilhão de rodadas para o fim do campeonato.

Nº 4: Entreguismo, golpismo, neoliberalismo

Já aconteceu mais de uma vez. Em 2009, para prejudicar o Palmeiras, o goleiro Felipe, então no Corinthians, nem pulou na hora do pênalti em uma partida contra o Flamengo. Naquele mesmo ano, o Grêmio colocou um time de garotos para jogar contra o mesmo Flamengo no Maracanã na rodada final, para evitar que o rival Internacional fosse campeão (a vitória do Grêmio daria o título ao Colorado). A CBF, para evitar esse tipo de mutreta (lembram da história que os pontos corridos são justos etc. e tal?) foi obrigada a marcar todos os clássicos para a última rodada do campeonato. A medida, porém, já foi abandonada.

Nº 5: Não tem final

Essa mesma galera que considera a simples hipótese de acabar com os pontos corridos uma afronta pessoal, baba ovo para um evento chamado SuperBowl, que nada mais é que a grande final da temporada do futebol americano. "Ai", exclamará o aflito defensor do "calendário racional no futebol brasileiro", "nós já temos a Copa do Brasil, que tem final." Legal, fera. Então vamos fazer mais um campeonato com final: o Brasileiro. Daí teremos dois. E vamos caprichar na final do Brasileiro. Vale até a CBF programar um show no intervalo, uma frescura do gênero.

Agora, cinco motivos pelos quais deveríamos restabelecer já o campeonato brasileiro com mata-mata

Nº 1: Regulamentos malucos

Este é um ponto estranhamente usado pelos jornalistas esportivos para criticar o mata-mata. Acho estranho porque os primeiros a defender campeonatos com regulamentos que ninguém entende deveriam ser os jornalistas esportivos. Desde que os campeonatos se tornaram simples de entender, meio que ficaram sem função. Com a volta das regras complicadíssimas, eles poderiam projetar um ar de profunda sapiência explicando o cruzamento entre as chaves, quem pega quem na repescagem, como escapar do rebaixamento no grupo da morte, reclamar que o campeão terminou 17 pontos atrás do 2º colocado e, é claro, bradar pela volta dos pontos corridos.

Nº 2: Caos

Disclaimer: Eu torço para o Atlético Paranaense. Mas admito que o Campeonato Brasileiro mais legal de todos os tempos foi o de 1985, vencido pelo Coritiba. O nível de aleatoriadade, caos, pandemônio e beleza daquela disputa foi maravilhoso. Coritiba e BANGU, do bicheiro CASTOR DE ANDRADE (uma espécie de ROMAN ABRAMOVICH dos trópicos na época), na final, Brasil de Pelotas, vindo direto da Segunda Divisão para APAVORAR o Flamengo de Zico e papar o terceiro lugar do campeonato. Ora, às favas com esse campeonato higienizado, asséptico e gourmetizado dos pontos corridos.

Nº 3: Democracia

Com o campeonato por pontos corridos, não há muita surpresa sobre os campeões. Serão sempre os times mais endinheirados. Ainda não dá Flamengo e Corinthians, os dois clubes que mais recebem grana da em direitos da tevê, todo ano porque eles ainda têm muitas dívidas. O dia que as dívidas acabarem, esqueçam. Isso aqui, ô ô, vai virar uma Espanha, onde o emocionante campeonato nacional é uma disputa eterna entre Barcelona e Real Madri. Com o mata-mata, sempre há a chance de um time médio surpreender na fase final e derrubar os grandes. Não é sempre que acontece. Mas quando acontece é bonito demais.

Nº 4: Justiça

"Ai!", voltará a exclamar aquele teu amigo chato que tem um PlayStation 4, uma camisa do Paris Saint-Germain, empina pipa no ventilador e é fãzaço do David Luiz, "no mata-mata de 2002 o Santos, 8º colocado, eliminou o São Paulo, 1º colocado, e foi campeão. Olha a injustiça aí." Dê um PIPAROTE na orelha do seu amigo e rebata. "Pois bem, jovem, se o São Paulo não teve competência para ganhar quando O CÁQUI PRETEOU, o que eu tenho a ver com isso?" Resumindo: futebol se ganha em campo. Para evitar "injustiças" como essas, é possível ampliar os playoffs para três partidas, sendo duas na casa do time que somou mais pontos na primeira fase. Com essa vantagem extra, não tem desculpa.

Nº 5: Final

Não há nada mais legal que a partida final de um campeonato. O gol do título. O jogador levantando a taça. Os lances polêmicos que vão ser discutidos por décadas. Tudo isso foi perdido com os pontos corridos. Hoje o campeão está em um estádio e o vice em outro. Levanta a taça em outro jogo. Pode ser campeão perdendo a partida. Quer algo mais anticlímax que isso? Vamos, saia do armário futebolístico, deixe o discurso de bom moço para os arautos da ética fake das mesas-redondas dos canais de tevê a cabo e assuma: você gosta é mesmo de um bom, velho e gostoso mata-mata.