OPINIÃO
19/03/2015 19:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Uma nova Idade das Trevas?

O mundo passa por uma dessas fases raras mas tumultuadas na qual a ordem existente é incapaz de acomodar mudanças. Possivelmente a era da economia vai ser lembrada como um interregno para construir a fundação materialista que levará a humanidade a uma era de valores não-materialistas, como foi o caso com muitas culturas ancestrais.

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Renascimento, Iluminismo, ciência e tecnologia e o reconhecimento dos direitos do indivíduo perante o Estado (valores ocidentais) dominam o mundo há 500 anos. Ao longo dos últimos 200 anos eles tomaram a forma de uma visão de mundo anglo-americana que introduziu a era da economia: industrialização, democracia representativa liberal, colonização e crescimento econômico patrocinado pela inovação. Esses elementos se amalgamaram na globalização econômica.

O sismógrafo agora registra algo mais sinistro que fissuras; a agulha indica desafios subjacentes a virtualmente todos os elementos fundamentais.

O macho-alfa da ordem mundial, os Estados Unidos, não quer nem é capaz de defender o sistema. Ele deixou de ser uma nação indispensável. A onda do idealismo desapareceu, forçando os Estados Unidos a usar o poder puro, apesar da conversa sobre o soft power. A autoridade moral escapuliu, não mais disponível para apoiar e substanciar as políticas e intervenções americanas.

Essa sensação de declínio moral e social começa dentro de casa. Os americanos não confiam mais em seu próprio modelo e não expressam mais o desejo de "exportá-lo". A desigualdade está crescendo. A família, importante para criar os filhos, está gradualmente sendo deixada de lado; filhos de pais solteiros têm menos experiência de convívio com outras pessoas. Juntos, esses "terremotos" societários aniquilam a coerência e a comunidade, minando os propósitos comuns e o consenso. Em todo o mundo, o modelo americano - como objetivo final ou projeto para ser adotado, mesmo que com adaptações e ajustes - perdeu seu encanto. O modo de vida americano ainda é atraente, mas nem o sistema político americano nem seu modelo econômico despertam sentimentos dessa natureza.

A ausência de autoridade moral abriu as portas para uma lufada de novas ideias, novas ideologias e novos modelos, todos mexendo, cutucando e contestando a ordem mundial existente.

A globalização econômica está sendo desafiada pelo nacionalismo econômico. A globalização econômica fez maravilhas e ainda é responsável por mais crescimento econômico que qualquer outro modelo palatável. Mas há vários problemas.

Quase por definição a globalização econômica ataca a identidade cultural dos povos enraizada no nacionalismo, no regionalismo, na religião e na cultura familiar - todos percebidos como normas da vida cotidiana. As pessoas até aqui têm se disposto a sacrificar parte de sua identidade cultural porque as recompensas da globalização econômica são muitas e tangíveis. Com a queda do crescimento global já não é mais o caso. Políticas para manter o crescimento proliferam à sombra do baixo crescimento, escanteando muitas regras nacionais e, no processo, alienando as populações do controle político da economia - a sensação de que o sistema não pertence a elas, mas sim é desenhado, gerenciado e controlado por "alguém".

A concentração de capital e o consequente controle da economia sofreram uma virada dramática nas duas últimas décadas. O número de instituições financeiras, incluindo bancos, diminuiu, dando a um número menor de instituições - e implicitamente a menos pessoas no comando dessas instituições -, um poder jamais visto sobre a economia global. 147 empresas controlam direta ou indiretamente 40% das transações globais.

Não existe mais a ligação entre o empreendedor e os trabalhadores vivendo e se encontrando na mesma comunidade. A propriedade se torna cada vez mais impessoal e não-transparente, por intermédio de fundos cujos donos são nebulosos e que têm uma agenda de lucros de curto prazo - jogando o jogo das finanças - e não estão interessados na construção de negócios genuínos e de longo prazo, criando empregos.

É perturbador que pesquisas mostrem, sem sombra de dúvida, políticas deliberadas para evitar impostos ou, se isso não for possível, para realocar receitas e lucros com o objetivo de reduzir a taxação; muitos países não arrecadam nada de multinacionais que operam dentro de seu território.

O grau de desigualdade está crescendo. Análises recentes revelam que, globalmente, as 138 pessoas mais ricas do mundo têm mais riqueza que os 3,5 bilhões mais pobres. Outro levantamento indica que logo o 1% dos mais ricos terão mais riquezas que todo o resto da humanidade.

O cidadão conclui com facilidade que, se o crescimento é rápido, quem já é rico fica ainda mais rico. Um modelo econômico com crescimento baixo e distribuição mais igualitária, portanto, seria melhor para ele.

Extremismo versus concessões e consenso pode não ser novo em uma perspectiva histórica, mas de 1945 até uma ou duas décadas atrás, concessões e consenso reinavam sem contestações. O fanatismo que deu origem ao nazismo, ao fascismo e ao comunismo podem explicar por que a visão de mundo ocidental se moveu tão rápido e com tanta força.

Pode ter sido essa dominância - esse sucesso - a origem da oposição que se une em torno do extremismo que usa a (abusa da) religião. De um ponto de vista ocidental, ele tomou a forma de fanáticos muçulmanos, mas não é um fenômeno particular do islamismo. O Wahhabismo é a força por trás de muito do terror atribuído ao Islã, mas essa vertente conta com menos de 10 milhões de pessoas. O fundamentalismo cristão rejeita a teoria da evolução e portanto a ciência e a tecnologia como pedras fundamentais das sociedades modernas. Não matar e evitar a violência são pontos centrais para o budismo, mas ainda assim há notícias de que monges budistas instilam o ódio contra os muçulmanos. O extremismo hindu (nacionalismo) é uma força importante na Índia. É difícil evitar a observação de que a religião tenha sido sequestrada pelo extremismo.

A urbanização produziu uma classe de perdedores sociais. Eles têm dificuldade de aceitar sua nova condição e ainda mais dificuldade de admitir que ela possa ser resultado de um sistema educacional inadequado e de uma estrutura econômica petrificada, que resiste à combinação de modernização e desenvolvimento. Em vez disso, eles culpam estrangeiros e o modelo econômico ocidental. Daí a buscar abrigo na religião - para pelo menos uma parte deles - a distância não é grande. A próxima forma de violência como defesa da identidade exige justificativas, que costumam ser oferecidas por religiosos fanáticos citando textos religiosos - muitas vezes fora do contexto.

Três fatores explicam por que essa relação de causa e efeito é mais visível entre grupos de muçulmanos que entre outros grupos religiosos. Primeiro, o mundo islâmico fica geograficamente perto da Europa. O cristianismo e o islamismo se confrontaram durante séculos. Desde a industrialização, grande parte do Oriente Médio e do mundo árabe se passou a integrar os impérios britânico e francês. Os tempos de glória de papeis opostos não foram esquecidos, o que explica os crescentes animosidade e ódio em busca por uma explicação; e, ainda mais importante, como restabelecer uma relação mais igual. Segundo, o mundo muçulmano e o Islã são especiais: quase todas as outras culturas deram boas vindas à cultura ocidental ou a aspectos dela. O Islã se manteve como única "visão de mundo" teocrática fundamentalmente diferente não só da visão de mundo ocidental como da secularidade. Os muçulmanos acreditavam que eles, e sua religião, tinham um papel especial a cumprir. Terceiro, os muçulmanos respondem por entre 4% e 10% dos imigrantes que vão para a Europa, dependendo do país; isso é decisivo. Esses imigrantes são uma ligação entre as culturas europeias (ocidentais) e seus países de origem e suas respectivas culturas. A integração não é suave em parte por causa do baixo crescimento econômico, transformando muitos desses imigrantes em perdedores sociais que culpam seus novos países. Eles flutuam por aí sem identidade, divididos entre sua nova casa e a deles ou de seus pais. As redes sociais oferecem muitas oportunidades de se conectar com outras pessoas em situações parecidas, procurando respostas. Eles querem uma identidade.

Alguns são seduzidos por fanáticos que os convencem de que suas queixas são justificadas. A violência contra os opressores (globalização econômica e a visão de mundo ocidental) é pregada por extremistas como única resposta para o dilema. Ataques bem-sucedidos provam o argumento de que o modelo ocidental é decadente e impotente, dando crédito à mensagem dos extremistas. A resposta do Ocidente - invadir países muçulmanos - é uma benção para os extremistas que se referem às Cruzadas e à era colonial.

Os terroristas usam a (abusam da) religião para justificar a violência e levam o mundo a um vácuo cognitivo, desprovido de valores e normas, o que traz o espectro de uma humanidade depravada.

As redes sociais podem aumentar a segregação. À primeira vista, as redes sociais podem aumentar o entendimento mútuo entre as pessoas e o respeito aos valores, mas um olhar mais detido revela um sério risco à tolerância e ao respeito mútuo.

Quem usa redes sociais tende a se comunicar com pessoas de valores culturais/comportamentais análogos. Eles reforçam as crenças um do outro, promovendo atitudes intransigentes e solidificando visões de que "nós" estamos certos e "eles" estão errados. Esses grupos se recolhem em seus castelos, erguendo suas pontes levadiças intelectuais. Antes da internet, o controle de qualidade das informações extirpava comunicações incorretas ou culturalmente ofensivas. Era a responsabilidade do editor. Em último caso, ele ou ela poderiam ser responsabilizados - legal ou eticamente. Hoje qualquer um pode postar as declarações mais absurdas e irracionais na internet. O perigo é maior quando a rede é usada para informações que parecem sérias e factuais, mas na verdade são deliberadamente enganosas.

No mundo de hoje, o indivíduo está exposto à pressão de uma massa esmagadora de informações e do convite constante para se comunicar pela web e pelas redes sociais. De modo similar, a globalização por meio do mercado e uma enorme gama de bens e serviços forçam o indivíduo a fazer escolhas na vida diária que podem parecer incríveis, mas embutem riscos e incertezas até aqui desconhecidos. Juntas, as identidades conhecidas nas comunidades locais e as normas culturais estabelecidas estão sob ataque maciço. O indivíduo volta ao básico: Quem sou eu?

A resposta tem sido procurar se unir a grupos ancorados em valores comuns e compartilhados. As redes sociais os torna acessíveis para a maioria. Um efeito preocupante é a segregação de sociedades por meio de muros de valores erguidos dentro dos estados-nações, dividindo grupos de acordo com suas culturas - valores.

Antigamente o Estado-nação agia como um provedor de serviços para a população, oferecendo segurança humana, econômica e social. O crescimento mais lento na esteira da crise econômica priva os estados-nações dos recursos financeiros para cumprir esse papel. As pessoas caem em grupos fora da estrutura do Estado para complementar ou simplesmente substituir o Estado como provedor de serviços. Neste caso, elas se tornam cativas de grupo que se apresentou para oferecer os serviços. A consequência é menos mobilidade social e geográfica.

Em alguns casos, grupos formados por extremistas impedem a saída de seus integrantes, se necessário usando sua própria jurisdição, à revelia do Estado ou da comunidade local. É uma questão de tudo ou nada. Sociedades paralelas vicejam, mas são de difícil detecção, pois não desafiam o Estado abertamente. O resultado é nenhuma lealdade ao Estado e nenhuma identificação com os cidadãos desse Estado.

A religião é candidata óbvia para valores de grupo, mas está longe de ser a única. A religião também pode não ser o valor mais forte que conecta as pessoas. A cultura de uma região, ou de uma unidade geográfica ou política, como se vê em antigas regiões europeias (Escócia, Catalunha, Baviera e Lombardia, só para ficar em alguns exemplos), ressurge depois de 200 anos na sombra. Vários estilos de vida (como gangues de motoqueiros) funcionam da mesma maneira.

A tecnologia está escanteando as interações humanas, nos levando a um mundo de comunicações e interações entre humanos, mas com pouco contato humano real. As pessoas, especialmente os mais jovens, passam cada vez mais tempo separadas dos outros humanos, mas "ligadas" por seu computador ou qualquer outro dispositivo que usem para se comunicar. Seu mundo se parece cada vez mais com uma história em quadrinhos, na qual o sujeito e as pessoas com quem ele se comunica não percebem nem sentem as consequências, pois só veem imagens ou textos, não seres humanos genuínos. O mundo de downloads e games dá a impressão de que é possível desfazer qualquer coisa e começar de novo. Desastres, dor e até mesmo a morte não são sentidas porque, cativas dos seus dispositivos, as pessoas não sabem mais o que é o mundo real.

As pessoas envolvidas nesse mundo não-natural se tornam insensíveis e calejadas quando confrontadas com o sofrimento de outro ser humano. Violência, crueldade e terrorismo com os outros não importam e não podem ser julgados de uma perspectiva humana. Tomar parte em ações que machuquem outros humanos não as inibe. Fala-se muito que robôs e inteligência artificial vão ultrapassar os seres humanos, que serão meros "escravos". Parece mais urgente olhar como os humanos se tornam clones de máquinas sem sentimentos, erodindo os fundamentos da humanidade.

Direitos fundamentais de liberdade avançaram nas últimas décadas, mesmo que não pareça ser o caso pela leitura das mídias de massa, especialmente no mundo ocidental. Elas lamentam o estado das coisas em países que raramente são analisado a fundo. Uma mistura de liberdade fundamental com direitos humanos, liberdade de expressão e democracia penetra quase tudo o que é escrito, bagunçando as questões.

Direitos fundamentais de liberdade podem ser definidos como os direitos do cidadão de definir seu perfil cultural perante outros seres humanos e perante o Estado - nenhum ser humano vive numa redoma, então a questão é: o que pode se fazer e dizer desde que uma pessoa queira continuar vivendo nessa sociedade, comunidade ou grupo? O filósofo inglês John Locke (1632-1704) afirmou que liberdade pressupõe autodisciplina. Indivíduos que vão longe demais forçam um colapso dos valores comuns e compartilhados sem os quais o grupo ou comunidade não conseguem se manter coesos. A vontade do mais forte domina. A liberdade se torna a vítima. O indivíduo ficará sem proteção dos outros cidadãos, por meio dos valores comuns, ou da lei, com todos iguais perante ela.

É do indivíduo a tarefa de encontrar os limites e com eles defender os direitos fundamentais da liberdade. Nem o grupo nem a comunidade/sociedade podem resolver esse nó. O comportamento de grupo e os valores comuns diminuem (idealmente acabam com) a necessidade de faze-los cumprir. Quando menos enraizados ou entranhados forem os valores comuns, mais provável que a determinação de fazer cumprir seja sujeita a supervisão e controles - na realidade virando uma autocracia que viola os direitos fundamentais de liberdade.

A liberdade de expressão está embutida nos direitos fundamentais de liberdade, desde que a autodisciplina esteja incorporada em padrões de comportamento. Se não for o caso, esses dois ideais podem ser irreconciliáveis. Como mostraram os eventos da década passada, liberdade de expressão dentro de grupos, comunidades ou até mesmo de estados-nações, negligenciando valores externos, levanta a questão do que significa liberdade de expressão. Se a reação de grupos com valores diferentes se torna forte demais, o Estado intervém para evitar conflitos. Se o Estado não intervém, grupos externos podem tomar as coisas nas próprias mãos para sinalizar que seus direitos foram violados. Em ambos os casos haverá limites - escritos ou não - para a liberdade de expressão, por mais que ela seja negada. "Se você usa sua liberdade de expressão à minha custa, temos o mesmo grau de liberdade" é um contra-argumento.

O conceito de direitos humanos sofre de uma fraqueza: ele é difícil de definir e é globalmente visto como um fenômeno ocidental. Para grupos culturais e estados-nações que não desejam adotar sistemas societários e culturais ocidentais, essa associação torna os direitos humanos impalatáveis, mesmo que muitos de seus elementos estejam integrados à sociedade e sejam prósperos. O Ocidente teria sido sábio se contasse a outras nações e grupos culturais as virtudes dos direitos humanos como praticados no Ocidente, em vez de ensinar e tentar "exportar" o modelo, sem perceber quanto tempo levou para que eles criassem raízes no mundo ocidental e as vastas diferenças entre as culturas ocidentais e as de outras partes do mundo.

A percepção é de que a liberdade não se alcança sem democracia. Há várias fraquezas nesses ponto de vista. Em muitos países não-ocidentais há ceticismo em relação à democracia ocidental, e a posição de que a liberdade não pode ser alcançada sob nenhum outro sistema político não é aceita. A grande maioria quer os direitos fundamentais da liberdade, mas está disposta a tentar outros sistemas políticos antes de embarcar em sistema alternativos sobre os quais pouco se sabe. O que aconteceu no Iraque não ajuda nada nesse sentido.

A maioria dos países da Ásia e da África são multiculturais, multirreligiosos e multiétnicos. Nesses países o Estado protege as minorias. Democracias com eleições livres podem entregar uma maioria parlamentar que vai constituir governo composto unicamente por um desses grupos culturais, abrindo a porta para o exercício do imperialismo cultural ou, pior ainda, para a opressão das minorias. Apoiadores da democracia e das eleições livres não têm sido capazes de transformar resolver esse dilema e explicam por que a democracia promove os direitos fundamentais de liberdade sob tais circunstâncias. Em democracias estabelecidas, eleitores vão às urnas de acordo com a performance dos partidos políticos - ou pelo menos a maioria suficiente para mudar a maioria vai. Não é o caso na maior parte dos países com um padrão de votos fixado por identidades culturais.

Democracias não-liberais emergem como um híbrido estranho. Na superfície elas parecem democracias, mas na realidade elas violam a maioria dos princípios democráticos ao mesmo tempo em que os direitos fundamentais de liberdade estão sob ataque - ou em alguns casos mal existem.

Existe, entretanto, uma distinção a fazer entre democracias não-liberais em países perto ou que fazem parte do círculo ocidental de cultura (vamos chamá-los de países monoculturais) e países fora desse círculo.

Para o segundo grupo de países, o retrato é diferente. Para eles, a democracia não-liberal pode ser e muitas vezes é um passo retrógrado que impossibilita a democracia genuína e que serve de manto para uma autocracia, até mesmo ditadura. Como a maioria desses países está geograficamente perto das democracias ocidentais, eles se tornam campos de batalha para sistemas societários, como mostra o exemplo da Ucrânia. Se a Ucrânia for bem-sucedida como uma democracia genuína, com prosperidade econômica, cresce a pressão sobre a Rússia e seus líderes para mudar seu sistema político. Se a Rússia tiver sucesso em impedir que a Ucrânia tome esse caminho, a pressão sobre vários países da Europa Central e do Leste vai crescer; estados-nações adjacentes do Leste com um sistemas muito menos liberais e menos abertos não serão vizinhos "bonzinho".

Infelizmente para as democracias ocidentais, especialmente para o Congresso americano, um novo fenômeno, que pode ser chamado de democracia oligárquica, para emprestar um termo importado, está ganhando espaço. Em 1986, os vencedores de eleições para a Câmara dos Deputados gastaram 360 000 dólares em suas campanhas - cifra que disparou para 1,6 milhão em 2012, um aumento de 344%. Para o Senado, os números (todos ajustados de acordo com a inflação) são 6,4 milhões e 10,4 milhões de dólares - um aumento de 62%. Acrescente aí o dinheiro gasto em lobby. Na última década, empresas de petróleo, gás e carvão investiram cerca de 100 milhões de dólares ao ano, com a imensa maioria indo para políticos republicanos. No biênio 2008-2009, durante a crise financeira, o lobby do setor financeiro foi calculado em mais de 800 milhões de dólares. É preciso ser uma pessoa corajosa para afirmar que sob tais circunstâncias o sistema político e os próprios políticos tenham agido sem influência de doadores e lobistas. É um questionamento do próprio caráter da democracia liberal representativa, da qual se espera um reflexo dos estratos sociais da população; o fator dinheiro descarta essa possibilidade.

A xenofobia, apesar de menos raivosa, está se espalhando e se insinuando sub-repticiamente na agenda política como algo que todo mundo conhece, mas poucos admitem. É cada vez mais difícil entrar em outros países para trabalhar; vários vêm exigindo prova de que um cidadão do país não possa executar a tarefa antes da contratação de estrangeiros; surgem cotas e limites.

A principal preocupação em um senso "filosófico" é a aceitação tácita de que os seres humanos não são iguais. Falando mais amplamente, até uma década atrás, mais ou menos, parecia que o mundo estava caminhando em direção à igualdade, mas as restrições de imigração e trabalho podem ser os primeiros tiros em um conflito incipiente sobre valores centrado na discriminação de seres humanos de acordo com cultura, raça e religião.

A história oferece exemplos (como o período entre-guerras na Europa) de que, se essa porta se abre, na sequência pode vir a escalada para a discriminação, seguido por opressão, maus-tratos e crueldade. Aqueles no poder (talvez a maioria) se sente no direito de adotar tais políticas porque os outros não são seus iguais. Muitos alemães que em 1930 jamais teriam sonhado em matar judeus o fizeram dez anos depois, sob o pretexto de que os judeus não eram seres humanos como eles.

A elite versus a maioria. Os valores costumavam ser determinados por um número comparavelmente pequeno de seres humanos - a elite e o estrato bem-educado que possuía uma língua franca para facilitar a comunicação entre os membros desse grupo seleto. Isso mudou com velocidade exponencial no último quarto de século.

A elite global passou a usar o inglês como língua comum e global, mas ainda pensa e age de acordo com sua cultura original, dando à mesma palavra vários significados: uma língua comum à custa de uma língua franca! A cultura anglo-americana não reina suprema; outras culturas e religiões re-emergiram da hibernação.

Valores e compartilhamento de valores através das fronteiras escaparam do controle da elite; milhões, talvez bilhões de pessoas usam as redes sociais para contestar os valores e o papel da elite. A comunicação global acontece em níveis separados, com os que estão do lado de dentro (a elite) e os que estão do lado de fora (a maioria) se comunicando de maneira independente. Em uma perspectiva de longo prazo, essa divisão ofusca a desigualdade econômica como ameaça à globalização. Pode não ser politicamente correto dizê-lo, mas a não-elite não tem a mesma criação e educação; ela tende a ser mais nacionalista e menos interessada nas várias facetas da globalização. A não-elite age mais por intuição e por resposta automática guiada por emoções e por "valores próximos a mim", o que a torna presa fácil para sedução e favorece soluções à custa dos "outros". Elas são menos críticas e mais emocionais. Atuar de forma mais trabalhosa, usando racionalidade e lógica, e usar a análise crítica que foi herança do Iluminismo, é deixado de lado.

Isso pode não ser totalmente verdadeiro, mas a escala é. Lições da história e o que vimos no último quarto de século indicam que a elite pode ser capaz de lidar com tais movimentos desde que a economia vá bem, haja confiança no modelo econômico e o sistema político seja tido em boa conta - ou seja, a elite entrega resultados. É precisamente isso o que se perdeu nos últimos dez ou quinze anos, quando o "modelo global" não entregou o prometido e enganou os eleitores deixando de dizer a verdade e perdendo credibilidade no processo. Em muitos casos, os eventos passaram de mal a pior e convidaram o surgimento de pensamentos alternativos.

A questão é se a civilização como a conhecemos pode sobreviver a uma transformação de valores determinados por poucos (a elite) em um leilão global que oferece valores e percepções diferentes e muitas vezes conflitantes. Com sorte, uma espécie de civilização global benigna possa surgir. A alternativa são conflitos originados em valores que justificam a violência e o conflito armado contra aqueles que pensam diferente - a saída mais fácil.

O poder do povo pode parecer maravilhoso, mas é perigoso ignorar que ele abre a porta para valores mantidos sob controle quando as percepções eram moldadas por aqueles capazes e dispostos a incorporar em suas ações as repercussões sobre os outros. O populismo está na esquina.

O filósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677) considerou esse dilema. (1) A democracia é a forma de governo mais razoável; pois nela "todos se submetem ao controle da autoridade sobre suas ações, mas não seu julgamento e razão; ou seja, sabendo que nem todos podem pensar da mesma maneira, a voz da maioria tem a força da lei". O defeito da democracia está em sua tendência de colocar a mediocridade no poder; não há maneira de evitar isso a não ser limitando os cargos executivos a homens "qualificados". Números não garantem sabedoria e podem significar que os favores do governo fiquem com os mais lisonjeiros. "A inclinação volúvel da multidão quase leva aqueles que a experimentaram ao desespero; pois ela é governada só por emoções, não pela razão." Portanto, o governo democrático se torna uma procissão de demagogos de vida curta, e os homens de valor relutam a entrar em listas nas quais terão de ser julgados e avaliados por seus inferiores. Cedo ou tarde os mais capazes se rebelam contra tal sistema, apesar de serem minoria. "Portanto acredito que democracias se transformem em aristocracias, e estas finalmente em monarquias"; o povo prefere a tirania ao caos. A igualdade do poder é uma situação instável; os homens são desiguais por natureza; e "aquele que busca igualdade entre desiguais procura um absurdo".

Um novo sistema. O mundo passa por um dessas fases raras mas tumultuadas na qual a ordem existente é incapaz de acomodar mudanças. Possivelmente a era da economia vai ser lembrada como um interregno para construir a fundação materialista que levará a humanidade a uma era de valores não-materialistas, como foi o caso com muitas culturas ancestrais. Se for o caso, é improvável que essa mudança surja nos Estados Unidos, tão comprometidos com o pensamento econômico.

Uma ressurreição de valores asiáticos abrandados ao longo dos últimos 250 anos - na verdade culturalmente oprimidos e escanteados pelos valores ocidentais - pode ocorrer. Religiões e filosofias asiáticas oferecem uma alternativa menos ancorada numa visão de mundo materialista, um reconhecimento melhor e mais profundo das interações entre Deus, a natureza e os seres humanos, e um papel mais forte para o coletivo, em vez do indivíduo. Em alguns, ou talvez em vários pontos, valores tradicionais asiáticos são opostos ao sistema de valores anglo-americano. Um exemplo disso é a pouca importância dos mercadores e a alta importância dos agricultores na tradicional hierarquia chinesa. O dinheiro não tinha o mesmo poder na ordem societária como nos países industrializados.

Tal nova visão de mundo depende largamente da capacidade e disposição dos países asiáticos de construir confiança mútua, em primeiro lugar, e de liderar, em segundo.

A reconciliação entre China e Japão é o primeiro passo; do contrário, a animosidade entre esses dois países vai estragar tudo. China e Índia precisam se aproximar. Um entendimento mais profundos de valores comuns é imperativo. Na Europa, o cristianismo, apesar de suas várias questões, serviu esse propósito, mas na Ásia não há filosofia similar ao alcance da mão.

A história asiática, e em particular a chinesa, revela uma falta de ambição para liderar e oferecer seu modelo no exterior - a Muralha da China radia psicologia chinesa. Parece haver uma certa inibição quando se encara a liderança fora da própria esfera cultural, o que pode ser um bloqueio para uma "globalização" dos valores asiáticos. Obviamente outro elemento pode ser se outras culturas são atraídas pelos valores asiáticos - do que não temos sinais ainda.

Basicamente depende da Ásia dar um passo adiante. Sem dúvida muitos valores tradicionais asiáticos - filosofia e religião - ressoam bem com correntes subjacentes que surgem ao redor do mundo questionando a era da economia. Até agora a Ásia aderiu ao modelo ocidental, servindo como uma plataforma de rápido crescimento econômico. O consumismo é visível em vários países do continente. Enormes investimentos em infra-estrutura também estão na agenda. Mas isso não pode ser visto como uma adesão da Ásia ao mundo anglo-americano da economia. Construir infra-estrutura e capacidade de produção e consumo é necessário para ir além da economia, a uma era de não-economia que dê importância a outros valores. Sem satisfazer as necessidades básicas, tal salto não seria possível.

Se a Ásia não responder a esse desafio temos de olhar para duas alternativas.

A primeira é um mundo dividido, no qual a globalização gradualmente dá lugar a um regionalismo com valores ocidentais, valores asiáticos e valores similares, definidos por culturas ou geografias. Samuel Huntington falou sobre um choque de civilizações, mas um modelo com visões de mundo divergentes é viável dentro de uma economia global que funcione, embora menos forte e menos coerente do que o que vimos e que fomos levados a acreditar que continuaria. Seria gerenciável. Qual seria faltando é a governança global, mas não é isso que temos visto ao longo dos últimos dez anos? Talvez nós já estejamos lá!

A segunda é cair no abismo de uma nova idade das trevas na qual o nacionalismo, o populismo e a xenofobia governam a ordem mundial, numa combinação sinistra de fanatismo, ignorância e anti-ciência.

Improvável? Não. Isso é o que aconteceu várias vezes na China, com dinastias ruindo, sendo seguidas exatamente por esse vácuo caótico de valores. O Império Romano foi sucedido por mais de 600 anos de idade das trevas à espera do Renascimento.

A observação assustadora é que, por mais repulsiva que seja essa conclusão, a maioria dos sinais indicam o último cenário, sem que muitos de nós percebamos nem façamos algo para evitá-lo.

Joergen Oerstroem Moeller é pesquisador sênior visitante no Instituto de Estudos do Sudeste Asiático em Singapura; professor adjunto da Escola de Administração de Singapura e da Copenhagen Business School; e aluno honorário da Universidade de Copenhague.

(1) Aqui resumido por Will Durant, The Story of Philosphy, Chapter IV Spinoza

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.