OPINIÃO
03/04/2014 10:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

Quatro razões pelas quais este será o segundo século americano

Bloomberg via Getty Images
Workers assemble Boeing Co. 787 Dreamliner airplanes at the Boeing Everett Factory in Everett, Washington, U.S., on Wednesday, May 29, 2013. Boeing Co., rebounding from the 787 Dreamliners three-month grounding, is moving closer to a further production increase that would reward investors by freeing up billions of dollars for dividends and buybacks. Photographer: Patrick T. Fallon/Bloomberg via Getty Images

Durante muito tempo nos disseram que muitos países logo estariam à nossa frente. Quando era jovem, seria a União Soviética, com suas bombas nucleares de 100 megatons e sua capacidade de levar cargas enormes para o espaço. Depois seriam os japoneses, com sua dominação dos eletrônicos e da miniaturização. Agora são os chineses que estão de olho em nossa liderança, levando 200 milhões de pessoas por década das áreas rurais para as cidades e colocando-as para erguer cidades e trabalhando em fábricas. E, apesar desse ataque violento, os Estados Unidos seguem na frente, a despeito do que dizem os alarmistas. Não estou dizendo que os Estados Unidos não têm problemas. Eles existem. Mas perder nossa liderança econômica não é um deles.

Quatro forças poderosas estão transformando o país. Uso a palavra transformação em vez de mudança para enfatizar a magnitude do que está acontecendo.

1. Criatividade

A primeira força transformadora é a criatividade sem limites.

Caminhe por Cambridge, Massachusetts, e você vai ver do que estou falando. Em uma área de dois quilômetros quadrados, o futuro está tomando forma. Sente-se no Evoo, um restaurante da moda na Third Street, e você pode comer seu confit de coelho enquanto observa a reluzente torre da Genzyme do outro lado da rua. A Genzyme, uma potência da biotecnologia e da genética, faz remédios que mudam as vidas das pessoas. Ela foi comprada recentemente pela Sanofi, a gigante farmacêutica francesa, por 19 bilhões de dólares e está se tornando o centro de pesquisas de fato da empresa.

O valor da negociação foi alto não para capturar as receitas da Genzyme, de cerca de 4 bilhões de dólares na época da venda, mas sim o valor dos talentos que lá trabalham. Cambridge é um ímã para as melhores e mais brilhantes mentes do mundo. Isso explica por que a Novartis, a farmacêutica suíça, mudou seu departamento de pesquisas quase inteiro da Basiléia para lá. A Biogen Idec fez o mesmo.

A algumas pedaladas de distância (estamos falando de Cambridge, afinal de contas), há laboratórios administrados por Harvard, MIT, Tufts, Universidade de Boston e uma série de hospitais de classe mundial. Eles estão ligados a centros de pesquisas financiados com dinheiro privado, tais como o Instituto do Cérebro McGovern, o Instituto Broad, o Instituto Whitestone e vários outros. Essa concentração de pesquisadores dá origem dezenas de startups por ano - algumas das quais sem dúvida vão evoluir e se tornar a Genzyme de amanhã. Por mais que todos os países do mundo adorassem ter sua própria Cambridge - China e Cingapura tentaram copiar o modelo dentro de casa --, os Estados Unidos têm nove outros centros com pessoas igualmente brilhantes em San Diego, San Francisco, Palo Alto, Triângulo das Pesquisas, Seattle, Minneapolis, Austin, Houston, ao longo da estrada I-95, em New Jersey.

Enquanto esses centros se especializam em avanços inovadores em tecnologias biomédicas, outros centros nos Estados Unidos estão focados em avanços em robótica, software, computadores, desenho de chips, bioinformática, ciência de materiais, energia e muitos outros campos. Muitos países investiram na criação de centros como os nossos, mas até agora não conseguiram nos alcançar.

2. Nova riqueza energética

Outra força que transforma os Estados Unidos é a nossa

recém-descoberta riqueza energética. Graças à revolução do gás natural e à iniciativa de empreendedores como o falecido George Mitchell, os Estados Unidos têm visto um crescimento enorme na produção de hidrocarbonetos, além de biocombustíveis e energias eólica e solar. Os Estados Unidos são hoje os maiores produtores mundiais de energia, tendo passado a Rússia em 2013. Também é o país que produz energia a menor custo, com exceção dos biocombustíveis.

Essa transformação é significativa não só porque os Estados Unidos vão passar de importadores para exportadores de energia. O que importa é que essa mudança vai manter dentro do país de 300 bilhões a 350 bilhões de dólares que hoje são usados para comprar petróleo. Esse dinheiro vai ser usado em uma nova infra-estrutura de dutos, refinarias, químicas e unidades de armazenamento e terminais de exportação. Isso vai representar milhões de empregos.

Tão ou talvez mais importante é a conversão das usinas do carvão para o gás natural. As emissões totais de CO2 têm caído. Apesar de não termos assinado o Protocolo de Kyoto para redução de emissões, os Estados Unidos podem ser o único país grande e desenvolvido a atingir a meta de reduzir as emissões para os níveis de 1992 (hoje estamos nos níveis de 1993).

3. A volta da manufatura

A energia abundante também contribui para a terceira força que está transformando os Estados Unidos: a volta da manufatura. Muita gente acredita - e, pior, repete sem pensar - que "não fazemos mais nada aqui", mas nada poderia estar mais longe da verdade. Os Estados Unidos são os maiores fabricantes do mundo, apesar de empatados com a China há alguns anos. Entretanto, a manufatura chinesa está estagnando, enquanto a americana está crescendo.

Um exemplo: os Estados Unidos são o melhor lugar para fabricar plásticos e químicos, porque o gás natural barato representa a matéria-prima. Também é o melhor lugar para a fabricação de outros produtos por causa da proximidade do mercado norte-americano, com 450 milhões de pessoas, e também por causa da sua mão de obra altamente produtiva.

A ideia errônea de que os Estados Unidos não são uma potência da manufatura vem do fato de que, além de veículos, eletrodomésticos, farmacêuticos, computadores e software, muito do que se produz aqui é vendido para empresas, não para o consumidor final. Por isso, conclui-se que "não fazemos mais nada aqui".

Mas a realidade é que a força manufatureira dos Estados Unidos está crescendo. Uma das explicações é que é mais fácil atualizar nos Estados Unidos os produtos fabricados nos Estados Unidos. Com acesso ao gás natural barato para a produção e o transporte dos bens, aumenta a atratividade do país como um lugar onde se produz. Em vez de levar semanas para que um produto seja fabricado na Ásia e entregue para um consumidor em Ohio, se você produzir no Texas a entrega pode acontecer em um ou dois dias.

O mesmo vale para as atualizações. Em vez de atualizar um produto feito a milhares de quilômetros, e ter de esperar semanas para saber se a atualização funcionou, essas mudanças podem ser feitas em questão de dias se o fabricante estiver nos Estados Unidos. Com os ciclos de vida cada vez mais curtos do produtos, a proximidade é cada vez mais importante. É por isso que a Apple vai trazer parte de sua fabricação de volta da Ásia, e a GE faz o mesmo.

4. Capital abundante

Além dessas três forças, os Estados Unidos também têm enormes quantidades de capital esperando para entrar no jogo. Não só a riqueza das famílias voltou aos níveis de antes da crise de 2008, os consumidores americanos estão menos endividados do que em qualquer outro momento dos últimos 35 anos. Eles também estão economizando mais. Os bancos têm montes de dinheiro para emprestar e colocaram 1,7 trilhão de reservas extras em depósitos no Federal Reserve, o banco central. Uma vez que esse dinheiro seja emprestado, o motor do comércio americano vai pegar.

Os Estados Unidos estão longe de não ter problemas. É preciso melhorar a educação dos jovens, especialmente das regiões mais pobres. O governo está sobrecarregado com dívidas - muitas das quais foram assumidas durante a Grande Recessão - e a distribuição de riquezas está ligeiramente distorcida.

Mas esses problemas devem se resolver quando houver um período de crescimento sustentado. O desemprego afeta desproporcionalmente aqueles que não têm diploma universitário ou experiência profissional. Mas, uma vez que a nova infra-estrutura energética comece a ser construída, esse contingente deve achar trabalho. E, por mais incontornável que pareça, há melhorias nos resultados educacionais. Finalmente, apesar de o déficit e as dívidas terem caído nos últimos anos, o prognóstico de longo prazo para ambos não é bom. A única maneira de reduzir o endividamento é fazê-lo uma parte menor do PIB, o que significa voltar a crescer - algo que acredito que esteja prestes a acontecer.

Ao longo dos anos as pessoas deixaram de acreditar nos Estados Unidos - e estavam erradas. Dadas nossa riqueza energética, a volta da manufatura, nossa tradição criativa e nossos cofres cheios de capital, não tenho como não acreditar que aqueles que apostam contra os Estados Unidos estarão errados mais uma vez.