OPINIÃO
20/02/2015 15:03 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Hollywood em preto e branco

À luz da recente polêmica envolvendo a falta de "negritude" no Oscar, a palavra "racismo" foi colocada no debate. Mas, para mim, a palavra que vem à mente é "oportunidade"... ou melhor, falta de oportunidade.

Dominique Charriau via Getty Images
BERLIN, GERMANY - FEBRUARY 10: Director Ava DuVernay attends the 'Selma' photocall during the 65th Berlinale International Film Festival at Grand Hyatt Hotel on February 10, 2015 in Berlin, Germany. (Photo by Dominique Charriau/WireImage)

À luz da recente polêmica envolvendo a falta de "negritude" no Oscar, a palavra "racismo" foi colocada no debate. Mas, para mim, a palavra que vem à mente é "oportunidade"... ou melhor, falta de oportunidade.

Quando o Oscar começou, em 16 de maio de 1929, não havia negros fazendo fila sob as luzes claras do tapete vermelho para receber uma estátua banhada a ouro. Foi só dez anos mais tarde que Hattie McDaniel, com seu acompanhante, pôde ocupar uma mesa para dois, segregada, levada pelo vento para bem longe de seus colaboradores e da indústria em geral, e lembrada, sempre que possível, que sua indicação e posterior vitória na categoria de melhor atriz coadjuvante representavam os passos dados pela indústria para superar o racismo. Seriam necessários outros 28 anos D.O. ("depois do Oscar") para que Sidney Poitier fosse o primeiro negro indicado na categoria de melhor ator.

56 anos D.O., uma indicação de melhor filme é dada a uma obra negra, A Cor Púrpura. Hollywood, ao que parece, reconhece filmes negros e cineastas negros, mas como uma amante distante, nunca perto o suficiente para forjar uma relação significativa. Este ano, muita gente está chateada que a diretora de Selma, Ava DuVernay, tenha sido esnobada, e se fala em racismo... mas o filme foi indicado. É racismo indicar o filme mas não a diretora? A questão maior é: o racismo tem algum papel na determinação de quem é indicado e de quem não é?

Não há dúvidas de que os americanos brancos ainda sejam a maior população desse país, possuam mais poder e mais riqueza. Portanto, não surpreende que a imagem predominante nas telas seja branca. A maioria das histórias produzidas por Hollywood são enfrentadas e sofridas e transformadas por atores, diretores, roteiristas e produtores brancos. Nos anos recentes, vemos um número cada vez maior de "filmes negros". Pelo menos um deles por ano é abraçado pelo mainstream e indicado ao Oscar.

Este ano foi Selma, um exemplo perfeitamente maravilhoso de um ótimo filme sobre um herói imperfeito, como Ghandi, um Sansão contra o Golias do racismo, da segregação e da brutalidade de Jim Crow. Hollywood produziu com sucesso vários filmes cujas histórias são antirracistas ou pró-integração. Diria que, desde ...E o Vento Levou, filmes de Hollywood sobre racismo e segregação manipulam as emoções de todo mundo, com a esperança de ajudar a expurgar um sentimento de culpa. Ainda assim, nos 87 anos de história do Oscar, só seis dos chamados filmes negros foram indicados a melhor filme.

Por que só seis? Racismo ou bilheteria? Quando um novo filme dirigido e estrelado por americanos de descendência africana entra em cartaz, em geral são os membros dessa tribo os primeiros a testemunhar o milagre e a espalhar a palavra. Não tenho ideia de onde o mesmo filme fica nos rankings de filmes "imperdíveis" daqueles que não fazem parte da tribo. Cinéfilos e o pessoal da indústria vão se esforçar para vê-lo, mas a maioria dos civis, acredito, vai esperar que ele apareça no Netflix, se é que vão assisti-lo um dia. Isso é racismo? É racismo preferir música country a blues? Ou é simplesmente um caso clássico de antipatia em relação ao que não é familiar? Um "filme negro", a menos que seja sortudo ou criativo o suficiente, fica atrás do "filme branco" no placar financeiro de Hollywood... com ajuda da suposição de que os chamados filmes negros não terão mercado fora dos Estados Unidos. Isso é orgulho ou preconceito?

Uma bilheteria limitada, exacerbada pela produção de menos filmes, significa que os filmes negros são menos comerciais; portanto, têm menos investidores; portanto, são menos comerciais; portanto, têm menos investidores etc. - um círculo vicioso. O comercial não celebra filantropia; ele celebra vendas. À luz de todas as estrelas negras, de Barack Obama ou Oprah Winfrey a LeBron James ou Beyoncé, tenho de acreditar que não se trata de racismo; não como o racismo enfrentado pelos cidadãos retratados em Selma. Isso não é ódio cego. Isso é capitalismo bem-informado. Se a vida dos negros colocar muitas bundas nas cadeiras, vai ser considerada uma commodity valiosa. Se os negros dominassem Hollywood ou o mundo, as imagens na tela, as fantasias e a fuga seriam majoritariamente negras, e talvez os brancos estivessem gritando "racismo!" (tipo o que alguns brancos devem ter temido depois da eleição de Obama). Acredito que o racismo exista em várias facetas de nossas vidas e que Hollywood, coroada pelo Oscar, tenha dado passos importantes para superar o racismo na indústria. Esse progresso, entretanto, é pequeno. Nunca chegamos lá.

A complexidade do comércio e a falta de empatia social contribuem para uma indústria que hesita em apoiar filmes negros da mesma maneira que apoia filmes brancos. Ironicamente, cineastas de cor têm sido mais bem-sucedidos, recentemente, produzindo filmes sobre a luta por liberdade e igualdade ou sobre a ruína da pobreza. Mas isso não é escapismo ou fantasia. Isso é o espetáculo do realismo cru. O negócio de Hollywood é o faz-de-conta - é assim que a indústria ganha dinheiro. Mas, quando se trata de filmes negros, a realidade crua é esse negócio não-escrito de "filme negro"/ "filme branco". Como Hattie McDaniel no Oscar, o "filme negro" se vê segregado do resto da indústria, em outra parte do campo, longe do público mainstream.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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