OPINIÃO
27/07/2015 15:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Música independente: uma mitologia contemporânea

Fabio Penna/Flickr
Photo: Fabio Penna <a href="http://www.facebook.com/pennafabio" rel="nofollow">www.facebook.com/pennafabio</a>

De tanto acreditarem por aí, é quase verdade o que dizem sobre toda música independente ser boa. Eu disse quase.

Da mesma forma que negar a existência do mercado fonográfico não irá fazer com que ele desapareça por passe de mágica, insistir na crença de que tudo o que é independente é bom não fará com que isso se torne uma verdade absoluta. Existem muitos outros aspectos a serem considerados e que são deixados de lado em favor de uma afirmação que tem como única função acalmar algumas neuroses de nosso tempo, aspectos como tecnologia (ou a falta dela), técnica e criatividade - todos eles qualitativos.

Devido a essa supervalorização das "cenas" musicais independentes que eclodem de todos os lugares, muitas pessoas acabam se esquecendo de ouvir atentamente aquilo que lhes é oferecido, uma atitude que não beneficia ninguém, nem mesmo o próprio artista. Mesmo que continue a valer aquela máxima de que gosto não se discute, concordo com o historiador da arte Ernst Gombrich quando diz que isso não significa que ele, o gosto, não seja passível de desenvolvimento. Estamos confundindo vícios com virtudes, deixando que as experiências estéticas sejam cada vez mais nubladas como uma manhã chuvosa de inverno. O exercício da reflexão foi rebaixado a uma atividade "elitista", "burguesa" ou qualquer um desses termos que se costuma a preguiçosamente usar por aí. Centenas e centenas de discos são lançados de maneira independente (isso é, custeados pelos próprios artistas) todos os anos no Brasil, uns com maior visibilidade que outros - o que não significa que são de fato melhores.

Faz já um tempo que a cantora Mônica Salmaso causou certo rebuliço ao dizer em uma entrevista para o jornal O Globo que a MPB (seja lá o que essa sigla ainda represente) estaria pobre. Poucos entenderam, ou não quiseram entender que ela se referia à música chancelada por pessoas da grande mídia, que sempre estão dispostas a produzir cópias da cópia da cópia, sem um incentivo pela busca de conhecimento e aprofundamento musical.Muitos julgaram seu posicionamento como desinformado e amargurado, acusando-a de não estar a par do que acontece dentro da atual música feita e terras tupiniquins, sem levar em consideração, ou desconhecer, por exemplo, a relação musical que ela tem com talentos como Thiago Amud, Alexandre Andrés e tantos outros.

Foi como se algo até então proibido tivesse sido revelado, um assunto espinhoso que tinha que ficar interditado, guardado a sete chaves. E todos já deveríamos saber o quanto interdições podem ser perigosas.

Autonomia Para Ouvir

Domingo de manhã. Faz frio, mas o sol ainda se mostra lá fora, convidando a um passeio agradável sob uma luz morna. Me levanto da cama e, como de costume, me espreguiço enquanto tento juntar os cacos de lembranças da noite anterior. Antes de preparar o café gosto de ouvir música. Vou até a estante e procuro um título apropriado, um que sirva como diapasão para o meu humor, e lá me deparo com os mais variados estilos, a maioria com algo em comum: são de músicos e grupos independentes.

Difícil escolher. Tem tanta coisa que considero boa, que me dizem algo e que represem também a atualidade da música brasileira, discos como "Japan Pop Show" (Curumin), "Efêmera" (Tulipa Ruiz), "Mils Crianças" (Hurtmold), "Macaxeira Fields" (Alexandre Andrés), "De Ponta a Ponta Tudo é Praia-Palma" (Thiago Amud), "Noturno" (Marcos Braccini), "Marcos Pereira & Toninho Ferragutti", "A Carne da Canção" (Swami Jr. e Marcelo Pretto) e "Caieira" (Tamy), mas também ótimos trabalhos lançados por grandes selos, além de gravações da Deutsche Grammophon, que incluem nomes como Maria João Pires e Joshua Bell. A minha escolha, seja ela qual for, será afetiva e estará intimamente ligada àquilo que penso sobre o fazer musical.

Escolher algo por afeto é muito mais sincero do que fazer uma escolha por afirmação de posicionamento, seja ele político, estético ou religioso. Nossos amigos não devem ser escolhidos pelos partidos que eles apoiam ou pelas bandas que escutam dentro e fora da intimidade de seus quartos, mas pelo o que cada um significa em nossa vida. Da mesma maneira ocorre com a música e com qualquer outra forma de arte.

Parece mais comum ouvir alguém dizer que gosta de álbum X do artista Y pelo fato dele representar bem uma "cena" e não pela sua qualidade musical. Criou-se uma grande ilusão de que não existe mais o ruim e de que "tudo é divino maravilhoso", uma interdição das opiniões contrárias disfarçada de bom senso. Fala-se tanto da falta de atenção da "grande mídia" para com os artistas independentes que se esquece de refletir sobre a verticalidade dessa opinião.

Rótulos, rótulos e mais rótulos, é tudo o que os principais comentaristas da música independente perpetuam, do mesmo jeito que fazem aqueles contra os quais lutam. Esquecem que música é música; que não importa o estilo que o sujeito se proponha a tocar (pagode, axé, rock, samba), o importante é que ele consiga realizar essa proposta com qualidade - o que inclui fatores como criatividade, conhecimento e competência. Originalidade é só mais um termo usado por quem tem não nada mais interessante a fazer do que reclamar da falta de "novidade" enquanto se masturba mentalmente ouvindo os primeiros discos de Caetano.

As "dinâmicas de rede", são perigosas pois dão a ilusão de total liberdade e independência, concede poderes de ser e ter que muitas vezes não se mantêm e não correspondem com aquilo que está fora da virtualidade, com o real. A facilidade e a regularidade com que surgem cada vez mais salvadores da música é algo impressionante, muitos deles catapultados pela falsa crença, perpetuada por mentes e ouvidos preguiçosos, de que ela precisa ser salva e elevada.

No fim, o que acontece é que ambos os lados, ambos com suas exceções, aparentam estar ocupados demais olhando seus próprios umbigos, pouco se importando em dialogar ou discutir música, firmando posições que dificilmente irão conseguir abranger questões que não tenham a ver com ego. E quem sai perdendo não é a música, já que se trata de uma força muito maior que nós, ouvintes, compositores, cantores, produtores e afins. Quem perde com essas picuinhas mal fundamentadas e de pouca seriedade somos nós, que sacrificamos nosso precioso tempo tentando decidir que partido tomar.

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