OPINIÃO
02/06/2014 09:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Barbosa contra o marketing da cordialidade racial

Se o presidente Lula indicou Barbosa, no contexto de uma política de ação afirmativa para o Supremo - onde estão mulheres, judeus, católicos e outros brasileiros de origens diversas -, Barbosa sempre se recusou a ser apenas ação afirmativa.

Globo via Getty Images
BRASILIA, BRAZIL - SEPTEMBER 05: (BRAZIL OUT) President of the Supreme Court Joaquim Barbosa chairs a plenary session of preliminary questions of the Mensalao trial at the Supreme Court on September 05, 2013 in Brasilia, Brazil. (Photo by Ailton de Freitas/Globo via Getty Images)

O advogado Luiz Fernando Pacheco reagiu à notícia de que Barbosa estaria deixando o Supremo dizendo que seria "o fim de uma noite escura".

Trata-se de analogia que muitos vão perceber como racista e desrespeitosa. O advogado foi entrevistado no exercício da profissão, como representante do ex-congressista José Genoino.

Desrespeitosa, não somente ao presidente do Supremo Tribunal Federal em pleno exercício de seu cargo, mas também ao primeiro negro presidente de um tribunal supremo nos países democráticos do Ocidente.

Desrespeitosa a um cidadão que, sem ser candidato, nem ter vinculação com partidos políticos, teria espontaneamente por volta de 20% das intenções de votos dos brasileiros. Fato inédito na política brasileira.

Paradoxalmente, o advogado parece confirmar e dar razão a Joaquim Barbosa. "É falta de honestidade intelectual dizer que o Brasil já se livrou destas marcas (o racismo)", afirmara Barbosa recentemente em entrevista a Roberto D'Avila na Rede Globo.

Aumentar a pluralidade racial e cultural nos supremos tribunais não é desafio somente no Brasil. Estados Unidos e Israel, para ficarmos em apenas dois países, têm desafio igual.

Se o presidente Lula indicou Barbosa, no contexto de uma política de ação afirmativa para o Supremo - onde estão mulheres, judeus, católicos e outros brasileiros de origens diversas -, Barbosa sempre se recusou a ser apenas cota.

No famoso julgamento sobre a constitucionalidade da lei de cotas para o acesso ao ensino universitário, acompanhou o voto do Ministro Ricardo Lewandowski. O resultado foi unânime. A questão de cotas lhe parecia bem consolidada. O desafio seria maior. Denunciar uma discriminação culturalmente difusa.

Quando Lula o convidou na comitiva presidencial à África, o que nunca antes fizera com um presidente do Supremo, Barbosa recusou, pois não queria participar de uma estratégia de marketing da cordialidade racial.

Se a cor da pele ainda é uma barreira para milhões de brasileiros, esta barreira parece que começa a ser posta abaixo. Barbosa é sinalizador. Sempre enfatizou o quão importante é para qualquer um, de qualquer raça, conquistar e aproveitar as oportunidades que a vida lhes coloca.

Investiu numa educação séria. Formou-se no Brasil e na Sorbonne, na França. Evitou, como disse, cursinhos domésticos. Tão em moda hoje em dia. Educação como via privilegiada da ascensão social.

O Brasil parece tentar hoje caminhos próprios para combater as discriminações. Ao mesmo tempo, tem uma mulher de descendência branca europeia na presidência da república e um negro de descendência africana na presidência do Supremo. Conjugação inédita nos países do Ocidente.

Ambos tendo percorrido caminhos diferenciados. Ambos agarrando e criando oportunidades. Ambos fortemente influenciando um imaginário popular em favor de mudança cultural. Anti-discriminatória. Tarefa maior. Mudar uma lei é mais fácil do que mudar uma cultura.

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