OPINIÃO
24/02/2014 15:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Uma revolução geracional

Há quem fale em conflito de classes, o que em parte é verdade. Mas, acima de qualquer outra clivagem, a que caracteriza e une todos esses fenômenos é mesmo uma só: a mudança geracional. Ela está está pondo pouco a pouco de cabeça para baixo os padrões pelos quais se organiza a nossa sociedade.

No meio de tantas manifestações, e das reações tão confusas da mídia e dos políticos, uma coisa começa a aparecer claramente: a manipulação constante dos grandes órgãos de imprensa -- e da oposição ao governo -- para criar um clima de "insegurança e insatisfação" supostamente generalizado, com motivações claramente eleitorais. A aposta é ousada: seriam os protagonistas dessas manifestações -- na maioria jovens de menos de 30 anos -- tão ingênuos para não perceber que se tenta fazer dar à sua voz um outro sentido? Não se sentiriam eles, ao contrário, manipulados? É claro que isso não importa, pois os protagonistas são apenas instrumento do jogo dos jornalões, cujo alvo é o da opinião pública ingênua, dos leitores de Veja e afins que, do conforto de seus lares, se assustam cada vez mais com notícias falsamente alarmantes.

Ocorre que talvez a tática não dê certo (espera-se), pois o que não se percebe é que dentro mesmo dos lares da "opinião pública ingênua" com a qual a grande mídia acredita tratar, há jovens desconfortáveis com essa manipulação, em todos os estratos da sociedade. Podem não ser a maioria, mas estão espalhados e se multiplicam graças às redes sociais, que eles dominam. Pois acontece no Brasil uma mudança até agora sutil, que se esconde nessas manifestações. No mundo da hiperinformação, mil interpretações escamoteiam seu aspecto comum. Em São Paulo, começou a aparecer no "churrascão da gente diferenciada", em protesto contra o "veto" da elite dos moradores de Higienópolis a uma nova estação de metrô no bairro, há alguns anos. Continuou em manifestações como a do "Há amor em São Paulo", ou o Festival Baixo Centro. Escancarou-se nas manifestações de junho, e continua ressurgindo, em diversos acontecimentos como os "rolêzinhos" em shoppings centers.

Há quem fale em conflito de classes, o que em parte é verdade. Mas, acima de qualquer outra clivagem, a que caracteriza e une todos esses fenômenos é mesmo uma só: a mudança geracional. Ela está está pondo pouco a pouco de cabeça para baixo os padrões pelos quais se organiza a nossa sociedade: segregação, racismo, corrupção, clientelismo, favores, injustiças de toda ordem, pobreza indecente, machismo, homofobia, preconceitos de toda ordem. Muitos jovens, de pobres a ricos, mesmo que seja ainda sem plena consciência do fenômeno, começam a dizer que se cansaram. 2014 promete, e muito.

Jovens mudando o mundo

Mudanças geracionais são recorrentes na história, e ocorrem por uma conjunção de dois fatores: a chegada à idade adulta de uma nova geração, e um contexto socioeconômico cultural e político razoavelmente estável, que lhe tenha permitido crescer em um ambiente de liberdade crítica e acesso à informação. Esses são os ingredientes para insuflar os ventos de transformação. Há provavelmente na história muitos exemplos, mas vamos nos ater a alguns mais recentes.

Uma das mais marcantes, que alavancou profundas mudanças nas sociedades desenvolvidas, foi a perpetrada pela geração de 1968. Naquele ano, faziam vinte anos os nascidos após o término da Segunda Guerra Mundial. Na Europa, mas também, nos EUA, cresceram em um ambiente de construção de novas sociais-democracias, com forte participação do Estado Providência, com acesso à escola e à saúde públicas e liberdade de informação e de expressão. Chegavam à universidade, assimilavam o pensamento crítico da fecunda intelectualidade da época, e passavam a expressar sua insatisfação. Por isso, essa geração questionou todos os parâmetros políticos e sociais que tinham norteado os anos de crescimento capitalista do Pós-Guerra, os chamados trinta gloriosos: O moralismo cultural, social e religioso, a massificação do consumo, as políticas imperialistas e belicosas de seus governos, foram confrontadas pela contracultura norte-americana, pelos negros e suas lideranças como Luther King e Malcom X, pelas mulheres e o movimento feminista, pelos pacifistas, pelos hippies. Exigiam liberdade de comportamento, mudanças sociais e políticas, respeito às minorias, e assim por diante. Na França, as manifestações de maio de 1968 só não lograram, por pouco, a revolução, porque a reação conservadora, em grande arte liderada pelas gerações mais velhas e marcada pelo medo, acabou sendo mais forte. Mas aqueles anos transformaram profundamente a sociedade capitalista ocidental e o que viria a ser o que David Harvey chamou de pós-modernidade.

No Brasil, foi essa geração, que tinha os Josés, Dirceu e Serra, entre seus líderes, que começou a enfrentar a ditadura de maneira mais intensa, e pagou por isso o terrível preço do AI5 e da definitiva degringolada do regime para o mundo das trevas e da tortura. Ao contrário da Europa, onde 1968 representou a abertura de horizontes para uma geração portadora de novos sonhos (embora os anos que se seguiram também tenham sido duros e repressivos), no Brasil ele representou a consolidação definitiva do obscurantismo militar, cortando pela raiz e da maneira mais brutal os anseios de mudanças daquela geração.

Uma outra revolução geracional, menos importante politicamente mas muito alardeada hoje em dia, é aquela que afetou o mundo empresarial a partir dos anos 80. Iniciada com figuras como Bill Gates e Steve Jobs. Foi quando a mesma geração dos jovens de 68, mas talvez não exatamente os mais revolucionários, chegava aos quarenta, trazendo novas atitudes de gestão de negócios e inovação. Nos anos 90 e já neste século, montados sobre a revolução da informática, jovens ainda mais jovens quebraram mais barreiras e trouxeram à vitrine do mundo dos negócios empresas bilionárias, cujos chefes vestem jeans e tênis surrados, e revolucionam as comunicações e o comportamento social.

No Brasil, a ditadura ceifou uma geração e deixou uma herança política maldita

No Brasil, como disse, a ditadura ceifou essa geração de maneira brutal. Quando conseguiu voltar ao poder, o fez com avanços históricos na reconquista da democracia. Mas, ao mesmo tempo, não logrou um rompimento efetivo das relações de poder. Talvez tenha sido culpa da própria ditadura, que moldou combatentes em suma muito parecidos. Cada um em seu campo e à sua maneira, tanto Serra quanto Dirceu, uma vez no poder, consolidaram um fazer político agressivo, em que a luta pelo poder passa acima de tudo, os fins justificando os meios.

Mesmo que tenhamos visto esses líderes de 1968 darem a volta por cima, e mesmo tendo um líder metalúrgico dos anos 70 conseguido alcançar a presidência e lançado um movimento virtuoso sem precedentes (que o país hoje festeja euforicamente ou combate raivosamente), ainda assim a falta de uma alteração mais radical nas estruturas dominantes faz com que o Brasil ainda sofra, e muito, das suas heranças mais arcaicas. Sem nunca ter vivido a experiência do Estado de Bem Estar Social para todos (aqui os benefícios do Estado são sempre só para poucos), o país organiza-se ainda pela lógica do patrimonialismo, quando se confundem as dimensões do público com as do privado, sempre para privilegiar os interesses dos mais poderosos.

Se este artigo pudesse ser (mais) longo, valeria a pena destrinchar os avanços recentes. Sou daqueles que os festeja, mas com reticências, e não faço parte dos que tentam igualar tudo dizendo que as transformações atuais se deram igualmente sob FHC ou Lula. O "Lulismo", tão bem analisado por André Singer (ler aqui), mudou para melhor muitos paradigmas. O aumento histórico do salário-mínimo a patamares decentes e o (muito) maior acesso ao trabalho estão sem dúvida entre os mais significativos, assim como políticas distributivas e reestruturadoras da base econômica local, em especial no Norte e Nordeste. Nisso, por exemplo, Lula e FHC foram muito diferentes.

Mas independentemente da polarização petista-tucana que anda nivelando por baixo qualquer análise política mais sensata, o fato é que apesar das boas mudanças, e mesmo com a sensação de que uma potência econômica de classe média começa a se movimentar, nosso país ainda amarga muitos, mas muitos problemas. Formar classe média consumidora não é tudo, e a aposta na melhoria da renda das faixas médias e do seu acesso ao consumo aquece, ao mesmo tempo, uma economia demasiadamente liberal e altamente destruidora (citemos, por exemplo, o poder exacerbado do setor financeiro, a destruição da Amazônia ou o papel predador, no campo, do agrobusiness).

Se o aumento do que vem sendo chamado erroneamente de "nova classe média" (ver sobre isso o trabalho de Márcio Pochmann sobre o aumento da base assalariada com acesso ao consumo, que não é exatamente uma "classe-média" - leia aqui) por um lado abre para muitos o "fantástico" mundo do consumo, ele não garantiu em nada, por outro lado, uma alteração dos valores éticos e comportamentais da nossa sociedade, nem uma mudança repentina de classe social dos beneficiados pelo aumento da oferta de trabalho. Pelo contrário, os valores éticos que predominam na nossa classe-média parecem ainda ser aqueles inculcados pelo regime militar, da mediocridade cultural, da aceitação robótica das informações da mídia, da passividade cívica e da alienação política (não é à toa que tanta gente diz hoje, sem noção nenhuma da monstruosidade que está falando, que tem saudades dos militares). Como diz Pochmann, "é um equívoco entender a elevação de renda como mudança de classe social". O aumento da capacidade de consumo, que, no fundo, foi o motor do lulismo, talvez tenha, isto sim, amplificado ainda mais o pensamento fútil, as interpretações rasas e a intolerância, típicas de uma sociedade que se move pela religião do consumismo, por natureza a cristalização do individualismo, da competição, do desprezo àquele que "não tem", ou seja, ao mais pobre.

Como disse com rara clareza o ministro Gilberto Carvalho (citado no blog da Rudá Ricci, clique aqui para ler): "Neste momento nos damos conta que as conquistas importantes que tivemos estão dadas. Foram importantes, mas absolutamente insuficientes. Tivemos um processo de inclusão social inegável e devemos nos orgulhar disso. Mas temos que reconhecer que foi absolutamente insuficiente. A corrida veloz para o consumo não foi acompanhada de um grande debate em torno de outros valores".

A mudança "pelo consumo" não alterou os fundamentos éticos da sociedade nem a lógica da política

Sobre tal contexto, pesa um outro problema, sobre o qual o PT tem, aí sim, grande responsabilidade. Ao decidir "fazer política como os outros" para conquistar o poder, o que fez com sucesso, e sabendo que esse "fazer política" tem a ética como último de seus valores, o partido deixou para trás os ideais de uma transformação mais profunda das estruturas políticas do país. Jogando pesado com as regras que todos sempre jogaram, e pagando o preço por isso (o mensalão, que não era sequer um esquema novo - a compra de votos para a reeleição de FHC e o mensalão mineiro o provam), o PT ajudou a cristalizar ainda mais os velhos esquemas políticos que imperavam (e imperam) no país.

Assim, mesmo com boom econômico, com avanços indiscutíveis no trato da questão social, não houve uma grande transformação no sistema político brasileiro e nas suas perversas formas de funcionamento. Ao contrário, parecem ter-se fortalecido no século XXI práticas que remontam às nossas piores heranças históricas, e que os vinte anos de ditadura só fizeram enraizar-se ainda mais, em todas as esferas de poder (ou talvez SOBRETUDO nos Estados e Municípios): o clientelismo, a corrupção generalizada, a ilegalidade como regra, o favor como modus operandi, as negociações de favores e dinheiro na relação executivo-legislativo (sempre em nome da "governabilidade"), o abuso descarado do dinheiro e da máquina pública, os partidos de aluguel; são marcas do nosso cotidiano político (embora existam exceções).

Talvez incomode tanto aos petistas ou simpatizantes (em que me incluo) a exageradíssima (e fortemente alimentada pela mídia) alcunha de "petralhas" porque mesmo sabendo que a maioria dos governos do partido conseguiu levar adiante transformações que o país há tempos precisava, mesmo sabendo que há gestões realmente diferenciadas e éticas (por exemplo a de Haddad em SP), a adoção do "modus operandi" político tradicional e a decisão de "jogar o jogo de todos" permitiu situações das quais os petistas históricos realmente se envergonham. Fazendo política "à brasileira" em vez de optar por, antes, transformar as estruturas políticas do país (teria conseguido? eis a questão), o PT produziu ele mesmo o combustível que a oposição, os conservadores e a mídia tanto precisavam.

Confundiu tudo e igualou tudo "por baixo", mesmo que o partido geralmente se diferencie nas gestões que assume, e por isso mesmo ainda é, de longe, a maior e mais forte agremiação de esquerda do país, com indiscutível (e odiada pela mídia e a oposição) popularidade. Porém, a tática do PT em ser "partido grande que faz como todos" deu aos corruptos uma chace de ouro. Podem, não com certa razão, colocar "tudo no mesmo saco", e por isso não é raro ver políticos historicamente corruptos vestindo um manto ético e gritando contra a "corrupção generalizada" ou leitores conservadores de pensamento ralo achando nos comentários de internet que "nesse governo de petralhas todo mundo rouba", como se nunca tivessem apoiado o Janismo ou o Malufismo (ou outros mais recentes). Um dos mais graves erros políticos de Lula, um aperto de mão com Paulo Maluf tem certamente seu preço na imagem do partido. Uma questão de estratégia, mas que alimenta ainda mais a confusão generalizada.

O avanço neoliberal da década de 90, que abriu as portas a novos players na nossa economia (ver artigo de Silvio Caccia Brava aqui), não ajudou nada nesse processo. Nada mais útil ao capitalismo liberal desenfreado que aqui adentrou do que a desregulação total, a concessão ilegal de privilégios, a prática de lobbies, os carteis, a corrupção (vide a maneira da francesa Alstom atuar no metrô de SP), os financiamentos de campanha para abocanhar contratos públicos, a fraude fiscal e tributária, a liberdade na aplicação de margens de lucro impensáveis, etc., etc.. Economia e política parecem ter-se juntado para a satisfação de seus objetivos: o uso de meios questionáveis para o lucro econômico para uns, o lucro político para outros. Em ambos os casos, ficou bem longe a questão do interesse público pelo país. O PT, chegando ao poder, escolheu não enfrentar essa dinâmica mas utilizar-se dela, como todos sempre fizeram. Associou-se a empreiteiras, a grandes financiadores de campanha, aos interesses do setor financeiro. .A vitória para ter Copa e Olimpíadas, que levou Lula às lágrimas de felicidade, e por um longo tempo fez a unanimidade do empresariado brasileiro (que hoje bem cinicamente adere ao discurso anti-copa), é o exemplo de como essa opção pode ser perigosa: quando as regras corruptas e indecentes impostas pelos players internacionais envolvidos, quando a implicação de capital público, quando a expulsão de comunidades inteiras em nome do progresso da copa chegaram ao conhecimento da juventude, o preço político tornou-se talvez caro demais. E a oposição e a mídia, antes tão entusiasmadas com esses eventos, subitamente mudaram de lado.

As gerações mais velhas se habituaram, as mais jovens não entendem (ainda bem)

De um lado, as gerações mais velhas dos estratos sociais mais ricos, que sempre se locupletaram com a política perversa do nosso país, com os privilégios a eles assegurados, grita "corrupção" para todos os lados, ataca o governo e a democracia com pretensões claramente golpistas, mas no fundo não acha tão ruim que as mudanças até hoje não tenham de fato alterado as estruturas de poder, de seu poder.

De outro lado, as gerações mais velhas de todas as faixas sociais, que buscavam a mudança do país (em que me incluo), se não tomaram parte dessa "regra do jogo", talvez tenham aceitado demais que era necessário utilizar-se dela; habituaram-se talvez demais ao fato de que políticas públicas não são de fato "públicas", ou talvez deram-se por vencidas face à força da opção de "fazer política como todos". Carregaram é verdade um caminhão de mudanças históricas, de vitórias políticas, das Diretas Já ao Governo Lula, mas que parecem não terem sido suficientes. Cansaram-se de talvez de lutar por coisas que parecem imutáveis. Festejam genuinamente os avanços recentes porque de fato, para os que conheceram no passado, são avanços históricos.

Para os mais jovens, porém, fica muito difícil entender o que realmente poderia diferenciar o partido que governa hoje o país "do resto", do "antes" que eles sequer conheceram, embora muitos deles se esforcem, por respeito à história, aos pais militantes, ou por perceber em algumas gestões de esquerda um respeito sim muito maior às questões humanas e sociais. Basta ver, por exemplo, a política de Haddad na Cracolândia, em comparação à intervenção a ferro e fogo que era a regra anteriormente. Mas, no geral, mesmo com esses esforço, mesmo os partidos de esquerda (e o PT) ainda sendo a opção majoritária de voto por parte dos jovens, ainda há uma (enorme) insatisfação no ar.

A impressão que têm da política é a de que se trata de um grande teatro, com bandidos e mocinhos para "alimentar" a classe média nas capas das Vejas, mas, no fundo, jogando o mesmo jogo. Todos cumprem seus papéis, as vezes ganhando ou as vezes perdendo, conforme os ventos das batalhas de momento. Cumprem-se as determinações dos vitoriosos das pequenas disputas (prisões, escândalos, cassações, acusações de corrupção) mas, no fundo, não se mexe no status quo. Sempre há um jeito, purgado o tempo da "punição", de voltar ao jogo que interessa. Ou não temos um ex-presidente cassado que hoje é Senador?Tem-se claramente a impressão de que, se fossemos realmente escarafunchar, não sobrava nem pó. Acabava-se a República. Não é à toa que ao ser acusado pelo mensalão mineiro do PSDB, o ex-governador Eduardo Azeredo pôs novamente o Lula na linha de mira ("sou tão culpado quanto o Lula, ou seja, não sou culpado", disse ele). O jogo é esse: quer me acusar, eu acuso você e desmoronam todos, do mais poderoso ao simples soldado, do mais popular ao mais obscuro, em todos os partidos, em todas as agremiações políticas que de fato usufruem do poder econômico e político. Porque no nosso país as regras políticas, sem reforma, quase que só funcionam na base de acertos e negociatas. O que seria terrível é que caso tudo desmorone, iriam juntas todas as conquistas da redemocratização, abrindo espaço para um discurso e um jogo de "recomeçar do zero em uma folha em branco" que geralmente tem tudo para levar ao autoritarismo e a regimes de exceção. Daí a insegurança com todo o cenário, e o medo da polarização conservadora que ronda no ar. Não à toa aparecem cada vez mais gaiatos relembrando saudosamente a ditadura.

Pois, mesmo que o PT tenha adotado a mesma receita política, não se deve nunca esquecer que esse cenário foi essencialmente construído ANTES dele chegar ao poder. Se o partido pode ser cobrado por ganhar o poder sem mudar as estruturas do sistema político (teria como fazê-lo se não fosse assim? dirão os petistas no poder), por outro lado deve-se dar a ele o crédito que merece. Não tenho dúvidas que o país não seria o que é hoje sem a era Lula-Dilma. Apesar de todas as críticas, foram esses governos os responsáveis por avanços inegáveis no âmbito econômico e social, por uma redução importante (mas ainda não suficiente) da pobreza, pelo aumento do emprego e da renda. Há ai um enorme antagonismo, que com certeza soa como injustiça aos ouvidos da presidenta: se hoje a sociedade e os jovens vivem um cenário econômico muito melhor que há dez ou quinze anos e têm liberdade para reivindicar avanços ainda maiores no campo político, econômico e social, isso se deve em muito ao seu governo e ao de Lula.

Mas não é no campo econômico que os avanços alcançados na era Lula geram os maiores antagonismo, mas sim no campo do comportamento social. Pois ao evoluir sutilmente em áreas como a dos direitos sociais e humanos, o país se confronta com suas raízes arcaicas e conservadoras. Negros de periferia ascenderem socialmente não é aceitável para uma parte da sociedade acostumada ao regime do apartheid social. Ver pobres em shoppings ou pegando aviões é inaceitável para os estratos da classe média e acima. Ver pessoas reivindicando nas ruas ainda não é um cenário para o qual a classe média esteja preparada. Ver um governo dar valor à defesa dos direitos humanos - dos mais pobres - é inaceitável para a enorme massa de pessoas que ainda acha que pretos e pobres devem mesmo ser amarrados a postes pelas ruas. Tudo isso, fruto do inegável avanço do governo brasileiro no combate ás desigualdades, é muito difícil para uma sociedade que ainda não se liberou da sua herança esclavagista, como muito bem escreveu José de Souza Martins (ver aqui). A polarização decorrente gera instabilidade social, dada a violência da reação conservadora, e a oposição conservadora se aproveita para construir em torno disso um ambiente de insegurança social, com contornos claramente golpistas. Mais uma vez, o governo se vê vítima de um processo que decorre de seus próprios méritos.

Impossível portanto achar um único responsável por tudo isso. Impossível apontar para um ou outro partido, muito embora a direita tenha para si o indiscutível controle da grande mídia, o que desequilibra bastante o jogo. Mas, não sendo ingênuos, e graças também ao papel impressionante da mídia eletrônica alternativa, os jovens, na dúvida, e mesmo que pareça um tanto genérico e acabe colocando todo mundo no mesmo saco, apontam, não sem uma boa dose de razão, para os políticos em geral.

A revolução geracional

Pois temos hoje, no Brasil, uma nova geração que chega à idade adulta. São aqueles nascidos DEPOIS da redemocratização, e até mesmo depois da Constituição de 1988. Cresceram em um ambiente inédito de relativa liberdade política, de lutas por conquistas sociais, de relativa democracia, de acesso aberto à informação. Cresceram também ao longo da maior revolução comunicativa jamais vista, sob um novo paradigma de acesso e troca de informações. E muitos, muito mais do que a média histórica, tiveram acesso ao ensino superior, em grande parte graças ao "lulismo", o ProUni e à ampliação dos campi de universidades federais.Essa geração tem, hoje, entre 20 e 30 anos. Não só chegaram à idade adulta como os mais velhos já são pais, são formadores de opinião, são professores de escola ou da universidade, já acessam a cargos e posições importantes. Começam a ser promotores, juízes, chefes de redação, cineastas, etc. Todos com no máximo trinta e poucos anos. Todos com uma outra perspectiva de país, muito diferente daquela que moveu o tradicionalismo conservador da direita e dos militares, mas também bem diferente daquela das lideranças de esquerda da geração de 68, talvez mais propensa a "negociar" e jogar o jogo político tradicional.

Esses jovens, para muito além das clivagens partidárias e da polarização tucano-petista, movidos por novos parâmetros de civilidade, pelo conhecimento comparativo do que ocorre mundo afora (muito também porque vários deles puderam e podem viajar, e isso graças também ao "lulismo"), por um genuíno sentimento de indignação com as injustiças do mundo e do Brasil, por um verdadeiro impulso de solidariedade, passaram a questionar. Questionar o que? Tudo.

Esses jovens simplesmente não acham normal que gente rica impeça a construção de uma estação de metrô para não "popularizar" um bairro. Não entendem porque políticas são chamadas de "públicas" se de fato não beneficiam a todos. Não aceitam que se continue usando o carro como meio de transporte preferencial (e que canaliza os investimentos públicos) quando o mundo pede pelo transporte público ou por formas alternativas não poluentes. Não entendem que o mesmo transporte público nas nossas grandes cidades seja caro, mais do que muitas grandes capitais pelo mundo afora. Se indignam ao ver que nossas cidades mantém quase metade de sua população excluída e vivendo em barracos precários. Acham absurdo, quando mais ricos, ver o quanto os pais tiveram que pagar para sua educação elitizada e mercantilizada, e acham inaceitável, quando mais pobres, que tenham tido que escolarizar-se em um sistema "público" falido, sem professores, em escolas de lata. Não acham normal que os mais ricos possam tratar-se em hospitais que mais parecem shopping-centers de luxo, e que os mais pobres morram em filas de espera nas portas do sistema público de saúde. Não aceitam que as melhores universidades públicas e gratuitas sejam o privilégios das classes mais altas. Não entendem nada das disputas partidárias intestinais dos mais velhos, mas têm certeza de que tratam-se de disputas que geralmente não levam à nada. Não conseguem aceitar que não haja dinheiro para transporte gratuito para todos se há milhões para a corrupção, para avenidas e pontes superfaturadas. Indignam-se com o racismo, o preconceito, a homofobia, o machismo que ainda correm à solta na nossa sociedade. E assim por diante, a lista é interminável.

Há 15 anos, quando dava aulas sobre favelas e precariedade urbana em faculdades com alunos de classes sociais mais altas, a reação era de conformismo, e até mesmo de certa impaciência com aquele professor esquerdista que ficava mostrando aquelas "coisas chatas" (se comparadas aos belos projetos arquitetônicos dos grandes arquitetos de mercado, que na verdade almejavam virar). Nos últimos 5 anos, o ambiente mudou completamente. O sentimento que predomina, hoje, é no mínimo o de indignação, quando não o de uma legítima vontade de se envolver nessa discussão para "ajudar a resolver" esse quadro urbano trágico. Daí, face à falta de alternativas profissionais para isso, a grande frustração que muitos jovens sentem, sobre a qual já falei para o caso da arquitetura e do urbanismo (ler aqui).

Meu amigo urbanista Valter Caldana atentou para um outro fenômeno interessante: se antigamente os moradores das periferias das grandes cidades eram os imigrantes que vieram a elas em busca de trabalho, hoje isso já não é o caso. Os pais e avós vieram para a cidade grande com certa expectativa e aceitação da condição precária que teriam que enfrentar, ainda assim melhor que a seca e a fome em suas cidades de origem. Submeteram-se corajosamente e até certo ponto pacificamente à indecente segregação urbana que lhes foi imposta, a espoliação urbana de que falou o professor Lúcio Kowarick. Mas seus filhos já não pensam da mesma forma. Têm uma reivindicação de pertencimento à cidade na qual nasceram e cresceram, em um ambiente de amplo acesso à informação. Não aceitam o fato de que sua cidade seja tão descaradamente dividida e segregada. Não entendem porque uns têm direito a tudo e eles a nada. Não acham normal ter que levar horas e horas no transporte público para ir à universidade ou ao trabalho, ou que todos os investimentos e as opções de lazer existam somente nos bairros nobres. Revoltam-se com o fato de que com eles a polícia faz política de terror, em um tratamento bem diferente e bem mais letal do que faz nos bairros ricos. Enfim, revoltam-se de serem cidadãos que não podem e nem tem como sentirem-se cidadãos. A lista, mais uma vez, é interminável.

Essa revolução geracional não abarca TODOS os jovens, evidentemente, talvez nem mesmo a maioria deles. As revoltas parisienses em maio de 68 não mobilizaram de cara a maioria dos estudantes, assim como nem todos os jovens foram à Woodstock. Uma das características dessas mudanças geracionais é que elas vão se firmando aos poucos, à medida que seus argumentos se espalham entre os jovens, com idas e vindas, contradições e conflitos. Mas "A" característica da atual revolução geracional é que ela dispõe de meios de difusão nunca antes vistos, alternativos e de velocidade inimaginável, e que vem colocando em cheque a pesada e tradicional grande mídia: os meios digitais e a internet e suas redes sociais. A revolução geracional da informática é o motor da revolução geracional de toda a sociedade (será que os Zuckemberg, Gates ou Jobs imaginaram esse seu papel revolucionário?). Se a grande mídia tradicional é o vetor de contaminação das ideias conservadoras, arcaicas, preconceituosas e golpistas, as redes sociais e a internet são as veias horizontais, solidárias e eficazes de disseminação dos novos valores de cidadania, liberdade e democracia.

Uma revolução de classe ou multi-classes?

Se essa revolução (ainda) não mobiliza toda a juventude, ela o faz, em compensação, em todas as classes sociais. Dos ricos aos mais pobres. Isso porque os valores contestados estão em toda parte. Dos jovens bikers universitários que contestam a cultura individualista dos carros, das jovens mulheres que encontram enfim espaço para combater o machismo arraigado, das jovens mães que desejam amamentar em paz ou contestar a indústria das cesáreas, até os jovens de periferia que querem espaços de lazer ou o direito ao transporte, as reivindicações permeiam as classes sociais, e se solidarizam. Os movimentos populares, antes tão isolados nas suas corajosas e merecedoras disputas (por moradia, educação, saúde), agora se vêem amparados por uma mobilização social muito mais ampla, cuja característica é a juventude. Na França, marcou os anos 2000 a atitude de solidariedade de jovens de classe média e alta, reunidos no coletivo Les enfants de Don Quichotte, que acamparam nas ruas em suas barracas, ao lado dos sem-teto, para alertar os franceses sobre o problema da (falta de) moradia. Aqui, começa a ser comum ver jovens de classe alta integrando ocupações no centro, apoiando as manifestações de periferia, como o fez o MPL aliás, após as manifestações de junho. A solidariedade é uma marca dessa juventude, mesmo que ainda possa haver uma maioria ainda movida pelo individualismo consumista.

É claro que há, nesse contexto, muitos equívocos, de todas as partes. É claro que há jovens mimados e protegidos no conforto de sua situação social que exacerbam um radicalismo de esquerda que provavelmente não praticariam (vi muitos movimentos do tipo dentro da USP, por exemplo, jovens que após formados deixaram seu radicalismo fácil - para quem vivia o privilégio da universidade pública - de lado para cerrar trincheiras no campo dos empregos fúteis muito bem remunerados), assim como há jovens pobres que se mobilizam por valores consumistas muito questionáveis e distantes de uma nova ética social menos individualista e fútil.

Isso certamente torna tudo mais complexo. Mas como não entender que manifestações de jovens desde sempre alijados do mundo do consumo, mas permanentemente expostos a ele pela TV e outras mídias, não deem à suas manifestações uma "cara" consumista (vide alguns dos rolêzinhos)? Como não entender que, antes de manifestarem-se politicamente, se manifestem pelo direito de serem consumidores como o resto, nesse ambiente de milagre econômico? Como entender, por outro lado, que jovens que têm tudo comecem a abrir mão de muitas coisas (mas não de tudo, obviamente) em nome de uma melhor distribuição dos benefícios a todos?

Os blogueiros "pensadores" da extrema-direita (seria mais atual chamá-los de über-direitistas) não conseguem evidentemente entender o fenômeno. Têm dificuldade em aceitar que jovens pobres se manifestem, e depreciam pejorativamente suas manifestações. Têm raiva quando jovens ricos se manifestam, chamando-os desdenhadamente de "esquerda-acviar". Não passa pelas suas (pequenas) cabeças de consumidores ultraindividualistas que possa existir um vento de transformações que está mudando a cabeça de muitos. Sua visão de sociedade é tão egoísta que, para eles, "problema de pobre deve ser reivindicado só por pobre". Talvez sintam-se realmente ameaçados pela possibilidade de uma democratização social, ou ao menos desconfortáveis por perceber que os ricos como eles, mas mais jovens, estão começando a lhes dar lições de cidadania.

As manifestações dos jovens de classe média alta começaram com o "churrascão de gente diferenciada" em solidariedade à população pobre que quase se viu privada de uma estação de metrô em Higienópolis. Foram também jovens de classe média-alta que promoveram alguns dos "rolêzinhos", de solidariedade, como aquele no mesmo shopping racista que uma semana antes havia discriminado a entrada de outros jovens, os pretos e pobres, em seus recintos. Mas são jovens de todas as classes, em uma mistura pouco comum para as gerações mais velhas, que comparecem ao Festival Baixo Centro, que lutaram pelo passe livre e os 30 centavos, que manifestaram por mais amor na cidade, que se rebelaram contra a estúpida violência da polícia. São jovens de periferia que criaram os rolêzinhos, mas são jovens de muitas origens que compõem coletivos de cultura ou de mídia alternativa. As manifestações são tão variadas quanto podem ser as reivindicações dessa nova geração, que espelham as demandas de uma infinidade de grupos sociais. Por isso confundem os políticos e os analistas, mais velhos. O seu ponto comum, entretanto, é que elas vêm, todas, de uma mesma juventude, que começa a dar voz à sua visão de mundo.

A manipulação descarada e a tentativa de criar um cenário de "instabilidade"

Acontece que, se tudo isso está acontecendo, nada ainda é generalizado. Em um país tão complexo e sofrido como o Brasil, a maioria (mesmo talvez entre os mais jovens) ainda reza a cartilha do tradicionalismo, ainda acredita na Veja e no Jornal Nacional, ainda se assusta com as mudanças.

Vale lembrar que muitas das revoluções geracionais, como as de 68, sofreram fortes contestações conservadoras. Marchas pela tradição, a família, a propriedade, juntando milhares de pessoas (sobretudo os mais velhos) marcaram as reações conservadores em todo mundo, tanto no Brasil quanto na França, por exemplo. As mudanças alavancadas por aquelas gerações se deram muito mais porque se enraizaram, sorrateiramente, nas bases sociais e foram gerando mudanças aos poucos.

Por aqui, as hostes conservadoras ainda são infinitas, muito fortes, e se alimentam na ainda gigantesca intolerância e no egoismo pequeno-burguês e consumista de uma enorme parte da população. Aquela que escreve nos comentários das notícias dos grandes sites da internet, propagando afirmações que frequentemente flertam com o fascismo, o racismo extremo, os preconceitos de toda ordem. São os paladinos do "bandido bom é bandido morto", do "mulher estuprada é porque vestiu-se para merecer", do "não sou racista olhe como trato bem os pobres pretos", do "esses jovens de periferia são todos vândalos", do "é tudo corrupto", do "é tudo petralha", do "imagina na copa". São raivosos com um virtuosismo econômico que possa eventualmente tornar os mais pobres consumidores doentios como eles. Não toleram ver os mais pobres andando de avião, não suportam perder seus privilégios. E contra isso tudo, reagem agressivamente, pedem pelos militares, chamam médicos cubanos de macacos, abominam qualquer política pública distributivista, e assim por diante. Se há alguns jovens entre eles, a verdade é que a maioria é de uma geração que, acima dos quarenta, já conquistou seu conforto e seus pequenos privilégios. Não quer mudanças e tem medo delas. Nunca quis o Lula e o fim de políticas elitistas.

São geralmente os que param nas faixas de pedestres com seus carrões, que os capotam ao saírem bêbados dirigindo de festas, que param em fila dupla para comer nos restaurantes com valet ou para pegar os filhos na escola, enfim, que se apropriam do que é de todos com a mesma naturalidade que os políticos em que votam se apropriam dos bens públicos. E saem gritando na primeira ocasião que "o gigante acordou", que "o Brasil pede mudanças", que "partidos políticos (de esquerda, entenda-se) são antros de corruptos", sem perceber que estamos numa democracia, e que sua reivindicação muitas vezes beira o golpismo. A generalização de males de fato bem reais serve à confusão, e as reivindicações "cívicas e nacionalistas" pelo fim de "tudo que está ai" confundem-se com as reivindicações profundamente verdadeiras das gerações mais jovens. E ninguém entende mais nada.

Fazem, assim, o jogo dos verdadeiramente poderosos, dos donos do dinheiro e da mídia. Que rapidamente se aproveitam de tanta movimentação para alimentar um falso clima de instabilidade, insatisfação e insegurança. Para esses poderosos, quanto mais violência em manifestações melhor. Quanto mais "anonymous" difundindo boatos alarmistas e golpistas melhor. Quanto mais Black Blocs levando violência às manifestações, melhor. Devem provavelmente ter saudado a infeliz morte de Santiago, o cinegrafista da Band. Tudo muito estranho, mal explicado. Ajuda nisso o fato de que as polícias, pelo menos no Rio e em São Paulo, parecem ter saído do controle dos governantes. Os poderosos de plantão, os da oposição, manipulam o fervor dos jovens por mais cidadania e democracia dando-lhe ares de que trata-se apenas de uma mobilização "anti-Dilma" e antipetista. Ignoram solenemente o sentido mais profundo de sua insatisfação, politizando tudo para o conflito (bi)partidário eleitoral.

Uma revolução política?

Resta saber se as saídas dessa revolução geracional serão ou não capazes de alavancar uma transformação política. O pensamento de esquerda tradicional do séc. 20, em que se inclui o do PT, passa pela certeza de que a democracia só é viável por meio da organização partidária e a via eleitoral. Ocorre que, hemos de convir, esse modelo não foi capaz nem de assegurar um processo democrático dentro dos partidos em si -- engalfinhados em disputas intestinas pelo poder entre seus membros -- nem sequer de assegurar a democracia em si. Nem aqui, nem lá fora. A (não) eleição de Al Gore nos EUA, em 2000, tendo vencido o sufrágio no número total de votos, mostrou o quanto até mesmo a "mãe" das democracias se perdeu em seu sistema bi-partidário de votos por representações. No Brasil, há democracia se compararmos aos obscuros anos da ditadura, mas não podemos dizer que a independência de poderes é assim tão clara, que o poder da mídia não tenha se constituído de fato em um quarto poder, e assim por diante.

Os movimentos de jovens não são, para começar, todos muito politizados. Como já disse, as insatisfações são de toda ordem, e muitas vezes aquelas que afetam os jovens de classe média-alta acabam levando a um reducionismo da visão política, muito embora as causas sejam justíssimas. Com o tempo, entretanto, o tema tende a politizar-se. É o caso, por exemplo, da reivindicação por ciclovias, que é nobre e justa, mas que não pode se sobrepor à luta por transporte público de massa para todos, estrutural, chegando nas distantes periferias, para trajetos cuja distância não permite a solução da bicicleta, que é aplicável no novel local e como complemento a sistema estrutural. É claro que de início a demanda local afetava sobretudo os bairros ricos (os mais pobres na periferia já usando, aliás, a bicicleta como alternativa há muito tempo). Com o tempo, a mobilização se generalizou, quebrou essas barreiras, qualificou o discurso, associou a ele o da demanda pelo transporte público estrutural e, assim politizou-se.

Outro exemplo é o da reivindicação pelo fim da indústria da cesárea e pelo parto humanizado, que evidentemente afeta sobretudo a população que tem acesso a planos de saúde (sendo que um parto humanizado custa muitas vezes dez mil reais), já que o SUS não faz cesárea (exceto cobrando). A humanização do parto, como reivindicação política, terá que sair do campo restrito das faixas de renda que podem pagar por ele ou por planos de saúde, para alcançar a humanização de todos os partos, inclusive os normais praticados muitas vezes em condições precárias no SUS, para a enorme massa de mulheres pobres. Também a mobilização pelo fim da homofobia ainda deverá ampliar-se muito para ganhar setores da sociedade onde ainda impera completamente o preconceito. Para todas esses protestos, a "associação" entre a reivindicação pontual e sua transformação em uma reivindicação política que afete toda a sociedade é um processo que pode ser demorado. O quanto, então, as manifestações da juventude, em sua diversidade de temas, pode carregar um projeto de transformação política maior?

E se isso acontecer, quem o promoveria? Um partido político? Uma liderança individual? Muito embora, na sua juventude e as vezes inexperiência, possam ser algumas vezes "assessoradas" por partidos, geralmente à esquerda do espectro partidário brasileiro, as novas gerações adotam uma prática que renega completamente os vícios da organização partidária, as disputas internas pelo poder pessoal, as representações de liderança. Inspiram-se muito da influencia do Fórum Social Mundial, que inaugurou novas práticas de fazer política apartidárias, sem lideranças personalistas, não violentas horizontais e organizadas em rede. O Movimento Passe Livre deu uma lição na mídia e nas velhas gerações ao apresentar-se dessa forma, renegando a sua associação à uma única pessoa, evitando o surgimento de lideranças políticas por representação, apresentando um organograma marcado pela organicidade e a horizontalidade. No movimento estudantil, é cada vez mais frequente o embate declarado entre representantes dos "velhos" partidos enraizados em pequenos grupos do meio estudantil e a massa de estudantes, aparentemente nada politizada mas fortemente ancorada no sentido prático e aplicado de suas reivindicações.

Há, portanto, um "vazio" entre as insatisfações emanadas nas mobilizações de rua e a possibilidade de uma transformação política real. Seu preenchimento é incerto, pois dependeria de um grau de conscientização generalizado para cada uma dessas causas dispersas que ainda parece muito longe de ocorrer. Por causa desse vazio, as manifestações rapidamente parecem dispersas demais, pouco focadas e sem reivindicações concretas de transformação. Por isso, são alvo de todas as manipulações: pela esquerda tradicional, pelos grupos fascistoides de extrema-direita, pela mídia corporativa, pela oposição. E o governo, quanto a ele, se perde, pois não sabe como se movimentar, embora mantenha seu prestígio. Interessantes as pesquisas eleitorais deste início de fevereiro de 2014, do Ibope e da DataFolha. Apontaram um mesmo diagnóstico: o povo quer mudanças, mas com o PT liderando.

A história se repete, o país já viveu clima parecido de construção forjada de uma "instabilidade cívica", com um fim bastante trágico e décadas de trevas. A diferença agora é que a contra-informação é rápida e eficaz. Que a mobilização é instantânea. Que os jovens se alimentam de motivações e valores que fogem dos parâmetros compreendidos pelos políticos. Que os valores democráticos estão muito mais enraizados nessa geração do que em outras. Que a qualquer momento alguma surpreendente e inovadora forma de manifestação surgirá, sem que eles tenham respostas a ela. Coisas dos novos tempos. Dessa geração que traz a energia e a luz da liberdade, da justiça social, entendendo que só com elas que se construirá de fato um novo país. De uma geração cujas verdadeiras motivações para as mobilizações fogem completamente da lógica partidária-eleitoral a que nos acostumamos. Os políticos, de ambos os lados, os pretendentes a políticos (mesmo que ainda vestindo a toga), não parecem em sua maioria ter se dado conta desse fato. Ainda pensam que levarão a melhor apoiando-se na manipulação da classe média, dos conservadores e dos mais velhos. Não entendem que se trata verdadeiramente de uma mudança geracional.

As mudanças geracionais podem não se traduzir a curto prazo em uma mobilização política clara. Mas elas vão se enraizando na sociedade, ganhando espaço á medida que a juventude cresce.

Seria fantástico se ela conseguisse reverter o maior dos erros do PT: o de não ter promovido, uma vez estando no poder (mesmo jogando o jogo de todos), a reforma política no Brasil. Essa bem que poderia ser, no meu entender, "A" pauta unificadora. Porém, provavelmente as saídas para isso tudo se darão por vias inovadoras e inesperadas, e provavelmente mais éticas. Tomara que não seja pela sua manipulação.

2014 promete.

(Texto publicado originalmente no blog CidadesParaquem)