OPINIÃO
04/02/2014 18:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Aquela banda que você adora de novo no Brasil? Ótimo! (INFOGRÁFICO)

Levantamento feito por www.rockinchair.com.br - veja quadro completo de acordo com link no 1º parágrafo

O Brasil vive a sua fase de ouro no que se refere à quantidade de artistas e turnês internacionais que passam por aqui. Em 2013, apenas no estado de São Paulo foram 493 artistas em 580 shows e 19 festivais, segundo levantamento feito pelo Rock in Chair (veja quadro completo). Apesar disso, o preço ainda é caro: R$ 80 a média do ingresso mais barato de cada evento.

Esse aumento começou a partir de 2009/2010, quando a demanda por shows na Europa e EUA, principais mercados, diminuiu drasticamente devido à crise financeira mundial. A América do Sul, e sobretudo o Brasil -- conhecido no exterior pelo pagamento de altos cachês e pouco afetado pela crise --, passaram a ser considerados como alternativas muito interessantes para aliviar a queda nos rendimentos das turnês. Lembre-se que desde a decadência da indústria fonográfica e das vendas de discos, essa é a principal fonte de lucro dos artistas: hoje eles fazem discos para venderem shows e não o contrário, como acontecia em outras épocas. Some-se a isso o fato dos brasileiros, cada vez mais, terem acesso instantâneo ao que acontece de mais interessante no mundo devido à internet e às redes sociais e pronto, você tem um amplo mercado a ser explorado.

Em 2011 chegamos ao auge. Paul McCartney de volta depois de show disputado em 2010, o Festival Planeta Terra esgotando seus ingressos em horas, o Rock in Rio voltando ao país após 10 anos (e também esgotado em horas), o megalomaníaco SWU com mais um line-up exuberante e a inúmera quantidade de shows em casas menores com ingressos completamente vendidos: Interpol, Metronomy, The Kills e Kings of Convenience foram só alguns deles. Nunca fomos tão conectados ao resto do mundo. Para quem achava o preço dos ingressos caro (com razão) ou não podia pagá-los, o Sesc continuava como alternativa mais acessível, sem perder em qualidade ou quantidade.

E todo mundo quis aproveitar o momento. O americano Lollapalooza chegou em 2012 como uma escalação de peso, que trazia bandas como Arctic Monkeys e Foo Fighters, que já tinham passado por aqui anos antes sem chamar muita atenção, mas que agora eram capazes de atrair mais de 50 mil pessoas a seus shows. O ainda-menino-do-bem Justin Bieber lotou estádios. Shows por todos os lugares, de todos os tamanhos aconteceram até que no fim do ano o suposto "encalhe" de ingressos para shows de Madonna e Lady Gaga e o cancelamento do SWU acenderam a luz amarela. Os mais pessimistas alardeavam a existência de uma suposta "bolha de consumo", prestes a explodir e dar fim ao exponencial crescimento do setor.

O tempo encarregou-se de provar que não era bem assim. E os números de 2013 que abrem esse post são a prova disso. O que houve nada mais foi que uma regulação natural de mercado, mostrando que não basta demanda sem um trabalho de planejamento, pesquisa, produção, curadoria e marketing competentes por trás. E os "fracassos" apontados por alguns como sinais do apocalipse nada mais eram que indicativos da falta desses.

Mas e agora? Os shows inéditos no Brasil são cada vez mais raros e não é pouco comum que a reação ao anúncio de alguma banda "repetida" seja encarada com um desanimado: de novo? Essa semana foi anunciada a escalação do espanhol Primavera Sound e era impossível não notar que a maioria daquelas turnês passaram recentemente por terras tupiniquins. O mesmo com o badalado californiano Coachella. E isso deve ser encarado como algo positivo e não o contrário.

Na Europa e EUA cada turnê é considerada um show novo e por isso as bandas excursionam tanto por lá. O Arcade Fire, destaque dos festivais mundo afora em 2014, já tocou no Coachella quatro vezes, inclusa a desse ano. O Pixies, atração principal de um dos dias do Primavera Sound, também tocou por lá em 2010. Isso só pra citar esses bandas e festivais. Consulte a agenda de qualquer artista de médio porte, geralmente disponível no próprio website, e verá que isso é comum. E tem que se tornar comum por aqui também ou corremos o risco de voltar à escassez de outros dias. Tenha em mente que a cada novo lançamento o repertório dos artistas muda, assim com a experiência de vê-lo sendo interpretado ao vivo, algo que eu e, provavelmente, você amamos.

Escalação do Primavera Sound 2014

Já vi dois shows do Kraftwerk, Franz Ferdinand e Tame Impala, entre outras bandas, e cada um deles foi diferente. Todos valeram a pena. Em maio eu pretendo ir ao Primavera Sound e mal posso esperar pra rever os shows de The National e Mogwai, assim como irei conferir novamente Nine Inch Nails, Pixies e Arcade Fire, os quais verei no Lollapalooza Brasil desse ano. Lolla onde me reencontrarei com o show do Cage the Elephant. Não há motivo para não fazê-lo se a banda ainda é boa. É o velho papo do filósofo Heráclito de que ninguém passa pelo mesmo rio duas vezes. Você e o rio estão diferentes. E mergulhar novamente pode ser muito bom.

É verdade que os preços aqui ainda são proibitivos para muitos. Para isso é preciso mobilização dos produtores -- evitando o pagamento de cachês exorbitantes e leilões de artistas -- e do governo -- regulamentando de forma mais eficaz assuntos como a meia-entrada -- para que o ticket médio caia. Contudo, você pode fazer sua parte, aceitando de braços abertos mais um show daquela banda que você adora (se o preço for justo). Porque música boa nunca é demais. E ao vivo é sempre demais.

(texto originalmente publicado no Catárticos.com.br)