OPINIÃO
22/02/2014 10:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Odeio Ivete Sangalo sem saber a razão

Reprodução/YouTube

Eu bati em Ivete Sangalo. Cuspi nela. A ridicularizei. Ela e sua corja de fãs eram alvos de meu mais profundo desprezo.

Foi assim até um dia desses. Estive numa festa que tocou Ivete Sangalo. A música era de sua fase mais odiosa, na Banda Eva. Foi nesse período que aprendi a detestar. Só que minha cabeça sofreu um tilt. Ao ouvir o som, não encontrava as razões para minha raiva contra Ivete Sangalo ou a Banda Eva.

Prestei atenção. A música tem uma percussão única. Ouço canções do mundo inteiro sem problema algum. A técnica de som massivo e suingado dos tambores baianos é só de lá. E é ótima.

A batida me leva a uma memória íntima. Antes de comprar o disco "Nine Lives", do Aerosmith, meu primeiro de rock, eu tinha CDs dos Sambas de Enredo de 96 e 97 e um disco da banda Cheiro de Amor ao vivo. Nesses três discos, o ritmo reivindica importância.

Cecilia sempre aponta que eu começo a ouvir música pela bateria. Nunca me dei conta disso. Jamais tentei adestrar meu ouvido a começar a consumir música de uma maneira específica. Se a tese de minha mulher está certa, tenho aqui uma possível explicação: meus primeiros CDs.

Fato é que depois do Aerosmith veio Metallica ("Reload"), Rolling Stones ("No Security"), Iron Maiden ("The Number of the Beast") e outros dessa estirpe. Passei a ter vergonha de meu gosto por aqueles CDs prévios à guinada roqueira. Tenho culpa nesse cartório, não nego. Mas é uma culpa diluída entre uma massa. Não fui o único.

A atitude padrão de um roqueiro requer uma certa dose de diversofobia. É bem simples. O que estiver dentro do rock é bom, o que estiver fora é ruim. Um roqueiro pode bater boca se Kiss é melhor que AC\DC (nivelo ambas as bandas por baixo, aliás), mas jamais pode aceitar um ritmo popular. Ou você sintoniza Caiobá, Farroupilha, Eldorado, Clube FM OU (nunca E) 89 Rock, 96 Rock PopRock, Ipanema. Transitar entre esse mundos ou misturar é proibido.

O porquê dessa divisão eu não sei. Já estava assim quando cheguei.

Essa é a parte que odeio no rock e de qualquer tribo que tenta empurrar goela abaixo um padrão. Quem entra fica cego. Ajoelha para santos que desconhece. Já dei minha sugestão aqui: respeitar, aprender e depois matar.

Voltando à festa, meus instintos afiados há mais de 15 anos detectaram instantaneamente o timbre da cantora. Não tinha saída, era escutar aquilo ou me atirar da sacada de um prédio. Resolvi tirar uma foto, com um trecho da música que escutava.

A batida me cativou primeiro. Depois foi a voz da cantora, precisa, no tom certo, orgânica, sentindo a fibração das batidas. É um pop bom, com qualidades únicas. Não resisti. Cheguei em casa e ouvi o disco ao vivo da Banda Eva. Excelente. Um hit atrás do outro.

A única desculpa que os intelectuais da "boa música" têm para justificar as injustiças contra Ivete e a música baiana em geral é que durante os anos 1990 veio muita porcaria de Salvador também. Aí bastou jogar tudo na vala comum, tchau e abraço. Semelhanças com aquele post sobre a Lady Gaga? Algumas. E deve ter muita boa música perdida por aí, que a gente rejeita sem saber a razão.