OPINIÃO
20/02/2014 10:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

O horror e o terror

Termos abrangentes e incertos como "terrorismo" são um desserviço -- colocam fenômenos distintos no mesmo saco, aplainam nuances e contribuem para o que justamente pretendem combater: a sensação de terror.

Nesta quarta-feira, 19, o governo da Ucrânia disse que os protestos em Kiev são atos de terrorismo. Na terça, 18, o governo da Venezuela prendeu seu opositor mais esvoaçante sob acusação de terrorismo. No Brasil, o Congresso ensaia a aprovação de um projeto de lei exatamente sobre terrorismo (na verdade há vários PLs do tipo sobre a mesa). A palavra "terrorismo" virou um guarda-chuva conveniente para políticos de todos os matizes.

A onda não é nova, mas veio forte há pouco mais de 10 anos, com os EUA, na guerra ao terror. Depois, desceu pela Colômbia, quando o governo Uribe passou a chamar os guerrilheiros das Farc de narco-terroristas. Aos poucos, virou sinônimo para quase todos os atos de desestabilização do poder que lancem mão de violência persistente e organizada -- seja com o intuito de agrandar uma ameaça menor, justificando o uso de mais força, seja para amainar situações ainda mais graves, como conflitos armados internos, e mostrar que a guerrilha em questão não passa de um bando criminoso sem maior expressão.

Termos abrangentes e incertos como "terrorismo" são um desserviço -- colocam fenômenos distintos no mesmo saco, aplainam nuances e contribuem para o que justamente pretendem combater: a sensação de terror disseminado o tempo todo, em todas as partes, contra qualquer um; o que leva inevitavelmente a uma outra pergunta: acusar alguém ou algum grupo de terrorista não será, em si mesmo, uma prática que visa a disseminar o terror onde ele não existe como tal?

(Post publicado originalmente no blog Je pense que...)