OPINIÃO
11/09/2014 12:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Rachel Asakawa: Cosplays, games e a cultura do "socialmente não-aceitável"

Rachel não faz o tipo de cosplayer que coleciona peças no guarda-roupa. Possui uma variedade de cosplays, mas não vê problema em repeti-los.

Divulgação/Henrique Assis

Na minha passagem por alguns eventos de cultura japonesa, jogos e afins em Santa Catarina, conheci várias pessoas que compartilham dos mesmos gostos. Uma delas foi Rachel Asakawa. A cosplayer já visitou diversos eventos ao redor do país e atualmente faz um podcast sobre cultura geek com sua colega, não menos conhecida na área. Conversei brevemente com Rach para saber um pouco mais da sua trajetória envolvendo os cosplays, jogos, sua opinião sobre o cenário gamer brasileiro atual e, é claro, a origem de um dos seus vários apelidos.

Rachel de Souza Baptista, 30 anos, é natural de Belo Horizonte/MG, mas atualmente reside na cidade de São Paulo.

Designer, ela teve seu primeiro contato com jogos quando muito jovem. "Eu mal tinha três anos e já jogava Atari com meus irmãos. Depois passei para o Master System, o Amiga II do meu avô e o Mega Drive. A partir dai foram os outros sistemas e também os fliperamas", conta.

Com animes e a cultura japonesa em geral, o primeiro contato veio um tempo depois, através de programas que passavam aqui mesmo, no Brasil. "Foi graças à Manchete e outros canais que também não existem mais. Vi Robotech, gravações de Piratas no Espaço e muito tokusatsu. Depois disso veio a leva mais conhecida, com Sailor Moon, Shurato, Cavaleiros do Zodíaco. No prédio onde eu morava tinha uma família japonesa, e eu brincava muito com as filhas [do casal]. Por isso acabei acostumado com os karaokês, músicas e um monte de coisa da cultura japonesa desde criança".

Ok, mas qual a origem do apelido "Asakawa"? "Veio de uma personagem de Weiss Kreuz chamada Yuriko Asakawa. Eu estudava japonês e a professora sofria para falar meu nome, daí ela viu umas imagens numas revistas e escolheu esse. Desde então tenho usado, há mais ou menos 15 anos". Quando digo que não havia ouvido falar do anime, ela brinca. "[Weiss] É um anime torto do final da década de 90 que servia mais para vender CD de música do que tudo".

Foto: cosplayers.net

"Comecei a me interessar muito por cosplays em 99. Apesar de eu sempre ter curtido festas a fantasia, poder ir para eventos da área era um sonho. O primeiro em que fui aconteceu no ano de 2000, em São Paulo. Belo Horizonte não tinha muita coisa na época (ou não tinha de fato), e aí eu acostumei desde cedo a viajar pelo sudeste afora para ir aos eventos", conta sobre as primeiras experiências como cosplayer. "Minhas influências surgiram através de revistas da época, principalmente a Animax. Você aparece na escola lendo uma revista dessas, e quem também gosta vai aparecendo. Você se empolga, e acaba conhecendo pessoas que te apresentam outras pessoas, e assim por diante. Na primeira viagem que eu fiz, eu já conhecia um tanto de gente pela internet, aí foi bem mais fácil".

Já participou de eventos em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Santa Catarina. Quase conseguiu ir à New York Comic Con, mas os ingressos esgotaram "rápido demais".

Sobre participar como visitante ou contribuinte, através de palestras e workshops, Rachel diz que varia muito. "Tem eventos em que vou como visitante, outros como palestrante, juíza de competições, apresentadora ou imprensa, como equipe de apoio de vários sites, como o cosplayers.net".

Atualmente é parceira da famosa cosplayer Thaís Jussim, ou Yuki, que também é sua amiga. Ambas trabalham com o podcast Cast 42. "Falamos sobre entretenimento em geral. Também tenho um blog meu, RachAsakawa.com, onde posto sobre cosplays, games e outras coisas de fangirl que eu gosto".

Yuki e Rachel como Lightning e Fang, de Final Fantasy XIII. Foto: Bruno Antonucci

Rachel não faz o tipo de cosplayer que coleciona peças no guarda-roupa. Possui uma variedade de cosplays, mas não vê problema em repeti-los. Disse a ela que via isso como uma vantagem, pois além de bem-executados isso valoriza as peças, e de certa forma servem como uma "assinatura" de quem os faz. Ela concorda. "Toda vez que eu falo em aposentar a Rose, de Street Fighter, sempre aparece um grupo me chamando (risos). Fiquei um tempo parada com os cosplays, mas agora estou tirando o atraso, já que estou em São Paulo e reunida com velhos amigos. Eu não devo ter mais do que 15 cosplays no meu armário hoje, e também não tenho a neura do 'não posso repetir o vestido de uma festa em outra'. Dependendo do humor, repito vários cosplays".

Foto: cosplayers.net

A visão das pessoas sobre seus hobbies:

Na escola eu era o hitcombo do 'socialmente não-aceitável', ou seja: Eu, menina (até onde me consta), gostava de esportes, artes marciais, quadrinhos de várias nacionalidades, filmes de ação e aventura e tantas outras coisas. O que mais aturei nas escola foi gente tentando corrigir meus próprios gostos. Na faculdade, alguns professores tinham muito preconceito. E eu sempre achei isso bobo, sabe? Acho que temos a ganhar ao estudar o melhor de qualquer cultura. A nossa nação não foi feita apenas de um povo, e ficar com bairrismo é ridículo. Ao mesmo tempo que eles tentavam jogar goela abaixo valores culturais, por exemplo, do norte e nordeste, que nunca sequer passaram perto de onde morei e estudei. Aí a gente vai, estuda o que há de melhor e assimila conceitos.

Pessoas mais velhas que geralmente não se relacionam com outras pessoas que não sejam do seu mesmo círculo de sei lá, 30 anos, tendem a ver tudo como coisa de criança. Porque claro, é super normal torrar 300 reais numa noite pra encher a cara numa boate, mas é infantil gastar dez numa revista que mexe até mesmo com meu mercado de trabalho.

A relação 'homem x mulher' no universo dos jogos:

Quando eu trabalhava com retail de games, os próprios clientes da loja não queriam ser atendidos por mim pelo simples fato de eu ser uma mulher. Aí quando eles viam que eu entendia bem do assunto, ganhei um monte de cliente fiel. Só que precisava desse preconceito?

O que tem que acontecer é geral entender que é NORMAL uma mulher jogar videogame. Aliás, geral tem que entender muita coisa das mulheres no mundo. E isso tem que começar de cedo e ninguém tem que provar nada pra ninguém. Chega dessa de Candy Crush ser jogo de menina, tem cara que joga também. Chega de Gran Turismo ser jogo de marmanjo, eu e uma amiga super querida jogamos e amamos (oi Manu!). Chega de gamer ser a pessoa que platina só jogo de luta ou tiro, quem passou 200 horas num RPG é tão gamer quanto você. Pessoal tem que aprender a pensar fora da caixa e pensar "Puxa, que legal, mais pessoas gostam disso também!"

Seu amor por Final Fantasy e as personagens Lightning e Fang:

A primeira vez que joguei um Final Fantasy foi em 1992 com Final Fantasy IV, até então chamado de II no ocidente, no SNES. Jogo alugado na frente da escola era a alegria da sexta-feira. Eu e meu irmão adorávamos, a gente ficava jogando direto.

Eu, como boa fangirl que sou, sempre tinha um personagem favorito. No IV era a Rydia. Depois veio o IV (III no ocidente) e morri de amores pela história e pela Celes e o Shadow. Aí voltei para os de Nintendinho pra conhecer tudo, joguei o I e II, e depois o VII (Tifa) e o VIII (Quistis). Daí com a saída do Anthology no PSX, conheci o V (Faris). Não joguei muito do IX, fui pro X-2 (Paine) e depois pro X (Lulu) graças a dois amigos.

Quando anunciaram os primeiros trailers de FFXIII, eu fiquei apaixonada. Aguardei os quase quatro anos de espera do lançamento e comprei o PS3 só por causa do jogo. Daí saiu o último trailer que aparecia a Fang e enlouqueci de vez! Joguei a versão japonesa e as duas eram tudo e mais ainda do que eu esperava. Mulheres decididas e com motivações fortes. Foi inclusive minha primeira platina no PS3, haha!

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